Crônicas semanais

Já faz um tempo que alimento esse desejo de manter uma coluna semanal, hebdomadária, mensal ou até mesmo diária (o que seja!), um local onde eu possa publicar de tempos em tempos algum texto nesse gênero tão laboratorial e repleto de liberdades (às vezes até demais) que é a crônica.

Por isso, criei uma página no Medium. Funcionará a título de experiência, de experimento. Quem quiser dar uma sacada, pinta lá.

O endereço da crônica da semana é: https://medium.com/@leogonalves_65312/o-organismo-quer-prosperar-ba3ab3e309fd

Langston Hughes e o prazer

Langston Hughes, talvez conhecido com a principal voz do Harlem, é ainda um assunto pouco visitado no Brasil. Um artista repleto de ritmos de blues, de jazz, de negro spirituals, Langston viajou muito jovem pelo mundo afora, trabalhando como marinheiro em navios, copeiro, garçom e cozinheiro nas casas de jazz em Paris, porteiro de boate em Marselha. Uma vida divertida e, ao mesmo tempo, de luta, de lutas.

Seu lado mais atrativo e conhecido é, com certeza, o do poeta engajado. Poemas como “The Negro speaks of the rivers”, “I, too” e “Negro”, que soam adoravelmente como defesa da solidariedade entre pessoas negras, acabam ganhando mais espaço no momento em que estamos vivendo. Mas, como dizia o poeta marfinense Bernard Dadié: “o branco é uma cor de circunstância, o negro é a cor de todos os dias”. Não é preciso estar falando literalmente de um tema o tempo todo para se ser o que se é. Especialmente quando falamos de alguém que as 23 aos já tinha tanta coisa para contar.

Assim é que trago aqui dois dos muitos poemas dele que celebram, o prazer, a alegria e a noite. Um pouco do jazz. Um pouco do testemunho de uma era em que a luz elétrica começava a se popularizar, os carros iam se transformando numa realidade cotidiana. O tempo do prazer, enfim.

Dedico essas traduções ao meu amigo Guellwaar Adun, poeta baiano, das raras pessoas com quem posso conversar vez por outra sobre o gigantismo deste poeta nascido em Joplin, no Missouri, e que é uma das melhores vozes da poesia estadunidense no século XX.


*

PORTO DA CIDADE

Olá, marinheiro,
que vem do mar!
Olá, meu marujo,
Chega pra cá!

Chega mais, tem conhaque.
Também tem vinho, meu amigo.
Chega aqui que eu te amo.
Seja meu, vem comigo.

Luzes, marinheiro,
Calor, luz alva.
Terra firme, moço.
Noite branca, brava.

Se achegue, marujo,
Saia do mar.
Pra gente junto
Se inebriar.


*
PORT TOWN

Hello, sailor boy,
In from the sea!
Hello, sailor,
Come with me!

Come on drink cognac.
Rather have wine?
Come here, I love you.
Come and be mine.

Lights, sailor boy,
Warm, white lights.
Solid land, kid.
Wild, white nights.

Come on, sailor,
Out o’the sea.
Let’s go, sweetie!
Come with me.


AVENIDA LENOX: MEIA-NOITE

O ritmo da vida
É um ritmo de jazz,
Doçura.
Os deuses estão rindo de nós.

O coração partido do amor,
O enfarado coração da mágoa,–
Notas altas,
Notas baixas,
Zoada dos carros na rua,
Cicio do chiado da chuva.

Avenida Lenox,
Doçura.
Meia noite,
E os deuses estão rindo de nós.

*

LENOX AVENUE: MIDNIGHT

The rhythm of life
Is a jazz rhythm,
Honey.
The gods are laughing at us.

The broken heart of love,
The weary, weary heart of pain,—
Overtones,
Undertones,
To the rumble of street cars,
To the swish of rain.

Lenox Avenue,
Honey.
Midnight,
And the gods are laughing at us.

Um poema de Claude McKay

Você mal lê algumas linhas sobre o poeta jamaicano Claude McKay, e fica logo instigado pela sua imensidão. Nascido na Jamaica em 1889, passou para os Estados Unidos com a família em busca de oportunidades, mas o que encontrou ali foi nada mais que racismo, segregação, violência. Poderia ter ficado só nisso, mas acabou conhecendo o Harlem em pleno seu esplendor.

Claude McKay foi uma das figuras mais proeminentes da Harlem Renaissance, movimento literário e cultural que circulava em torno ao Jazz e o Blues num período em que o bairro se tornou um local de reagregação, felicidade e redescoberta para o povo negro tão assolado pelas leis estilo Jim Crow e toda a crueldade racial que os white people impuseram aos negros naquele país.

Mas Claude não ficava quieto. Cansado do racismo estadunidense, saiu pelo mundo afora, se tornou comunista e visitou a recém revolucionada Moscou, associando-se a grandes personagens daquele país. Passou depois para outros países da Europa e no final dos anos 1920 acabou se instalando por uns tempos em Paris.

Poeta e romancista, escreveu livros como Banjo, romance que retrata uma Marselha repleta de pessoas negras, e Gingertown, sobre sua experiência no Marrocos.

Claude McKay morreu em Chicago, em 1948, de um ataque do coração, deixando um legado de muita ação e de alegre inventividade.

IF WE MUST DIE

Se temos que morrer, que não seja como suínos
Num lugar inglório, caçados e estripados,
Enquanto latem ao redor e mostram seus caninos
Os cães raivosos sobre nossos nacos amaldiçoados.

Se temos que morrer, que seja de nobre morte,
Para não derramarmos nosso sangue precioso
Em vão; e até os monstros que cruzaram nossa sorte
Se vexem da mesma morte que lhes trouxe o gozo!

Oh, meus irmãos! Que tal conhecer o inimigo!
Mesmo em menor número, devolvamos-lhes a sova,
E, digamos, entre os mil, botar ao menos um caído!
Quem sabe, antes de nós, inaugurando a cova?

Com coragem encarar os assassinos, vão nos matar
Com covardia, morreremos, mas não sem revidar.

*
If we must die, let it not be like hogs
Hunted and penned in an inglorious spot,
While round us bark the mad and hungry dogs,
Making their mock at our accursèd lot.
If we must die, O let us nobly die,
So that our precious blood may not be shed
In vain; then even the monsters we defy
Shall be constrained to honor us though dead!
O kinsmen! we must meet the common foe!
Though far outnumbered let us show us brave,
And for their thousand blows deal one death-blow!
What though before us lies the open grave?
Like men we’ll face the murderous, cowardly pack,
Pressed to the wall, dying, but fighting back!

Um poema de César Vallejo

Um poema de César Vallejo (Peru, 1892-1938). Um clássico da língua castelhana, considero este poema uma das coisas mais monstruosas que já li, já que sonhar tanto tem algo de monstruoso.

MASSA

Ao final da batalha
e morto o combatente, veio até ele um homem
e lhe disse: “Não morra, te amo tanto!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Se aproximaram dois e repetiram:
“Não nos deixe! Força! Volte a viver!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Acudiram então vinte, cem, mil quinhentos mil,
clamando “Tanto amor e nada poder contra a morte!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Então todos os homens da terra
lhe rodearam; o cadáver os viu, triste, emocionado;
levantou-se lentamente,
abraçou o primeiro homem, pôs-se a andar…

(Tradução de Leo Gonçalves)

MASA

Al fin de la batalla,/y muerto el combatiente, vino hacia él un hombre/y le dijo: «¡No mueras, te amo tanto!»/Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.//Se le acercaron dos y repitiéronle:/«¡No nos dejes! ¡Valor! ¡Vuelve a la vida!»/Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.//Acudieron a él veinte, cien, mil, quinientos mil,/clamando «¡Tanto amor y no poder nada contra la muerte!»/Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.//Le rodearon millones de individuos,/con un ruego común: «¡Quédate hermano!»/Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.//Entonces todos los hombres de la tierra/le rodearon; les vio el cadáver triste, emocionado;/incorporóse lentamente,/abrazó al primer hombre; echóse a andar…



Pretices & Milongas: Lande Onawale em BH

*Leo Gonçalves

Uma tarde em Salvador, no ano de 2006, alguém me levava para conhecer um certo Du, poeta e conselheiro editorial da Pallas. Eu era novato no mundo das publicações e mergulhava, naquele momento, nas águas da cultura negra: língua iorubá, candomblé de angola, literaturas africanas, poesia caribenha, capoeira, filosofia antilhana, muitas dessas coisas que já me habitavam de algum modo, de repente se derramaram sobre mim para além do que eu poderia prever. E nós estávamos em Salvador!. Entramos num ônibus e fomos parar na Praça Campo Grande. Lá, nos esperava Lande Onawale. E eu nem sabia que ele era o autor dos versos ao final desta matéria, que abriram um dos números do MNU Jornal.

Reaja à violência racial:
“Beije sua preta
em praça pública”

Lande Onawale

Ori era o codinome adotado neste que foi, segundo ele, seu primeiro poema publicado.

O encontro que tivemos, em dezembro de 2006, marcou para sempre a cabeça deste poeta que vos fala. Ali, intercambiamos estratégias de linguagem, ritmos, teorias, nomes de autores, indicações de trabalhos. Falamos da poesia de Léopold Sédar Senghor e foi ali que mostrei, em primeiríssima mão, o meu “Canto para Matamba”. Mas não falemos mais de mim. A alegria deste janeiro é que ele estará em BH para apresentar seu novo livro Pretices & Milongas, que traz o poema-cartaz entre suas páginas.

Pretices & Milongas segue a linha irônico sacana do poeta baiano. De linguajar curto e direto, ele evoca as contradições de tudo o que circundam a posição da pessoa negra no Brasil patriarcal e racista. São poemas insubmissos, repletos de ginga, fio e desafio:

não importa o tempo de afiar a lâmina

o que conta

é que ela cumpra o seu papel

Lande Onawale

Sua insubmissão passa por evocar o modo de ser do negro como potência, o que fica visível nas ladainhas, que ele emula como forma poética. São cânticos de ataque tomados de oralidade e ritmo. Mas tudo é insubmisso com Lande. O amor. O rio. A língua estrangeira. A família. O corpo, enfim.

Sempre que pode, Lande canta para os orixás. Reconecta, assim, sua palavra afiada com a delicadeza transcendente dos deuses e suas ferramentas. Sim, porque visitar o Orum via poesia também é uma forma de insubmissão.

território é o que carrego em mim

e me transporta

para onde eu vim

Lande Onawale

O mais importante da beleza negra da poesia de Lande é que ela não é a manifestação de um grito engasgado. Lande escancara seu grito há pelo menos três décadas, sob a forma de poesia sucinta, viva, cantada. O grito pode ser, assim, cantiga de amor, dengo, ginga e mandinga, roda.

Na capoeira tem um golpe bastante conhecido, no qual o jogador ergue um dos pés para atingir o oponente com a sola inteira, a palma dos pés. A depender da força (a capoeira é dança e luta), o oponente pode voar e cair de costas. Esse golpe se chama Bênção.

A poesia de Lande Onawale é uma Bênção.

Prêmio Sesc de Literatura 2019







Acontece no dia 03 de dezembro, às 19h30, o lançamento do livro O doce e o amargo, de João Gabrial Paulsen, vencedor Prêmio Sesc de Literatura 2019 na categoria contos. Haverá, na ocasião, um bate-papo com este autor e com o vencedor da categoria romance, Felipe Holloway, com o livro O legado de nossa miséria. O bate-papo terá a mediação de Carlos Herculano Lopes. Leo Gonçalves (yo!) participa da noite com uma leitura dramática de trechos dos livros da noite.

O evento acontece no Teatro de Bolso do Sesc Palladium (av. Augusto de Lima, 420, Centro), às 19h30.

A entrada é gratuita, com retirada de ingressos 30 minutos antes do evento. O espaço é sujeito a lotação.

Classificação: livre
Duração: 45 minutos

Negritude em cena

Participo, nesta quinta-feira, 31 de outubro, da Roda de Conversa sobre literatura, dentro da programação do Negritude em Cena, que acontece no Palácio das Artes até dia 23 de novembro. Na ocasião, conversarei com Rogério Coelho, poeta e animador cultural, que promove slams e atividades educacionais junto à comunidade do Barreiro. A roda acontecerá no Café do Palácio das 19h às 20h30.