Juliana Perdigão
Anotado por leo gonçalves no dia 17 maio juliana perdigão, músicaComente »

Escrevo ainda sob os efeitos entusiasmantes do show de lançamento do cd Álbum desconhecido, que rolou na última quinta-feira, dia 10 de maio, no Teatro Oficina.
Não estou falando de uma nova Elis Regina, não é uma Clara Nunes do século XXI, tampouco uma Cássia Eller repaginada. Não é nada disso. Falo de Juliana Perdigão, cantora única que segue um caminho próprio em meio à nova cena musical brasileira. Com repertório diversificado, sua voz de timbre incomum, acompanhada de seu clarinete, ela se arranja em canções que vão das doçuras da diva à mais alegre marchinha carnavalesca.
Juliana não é nova na cena musical de Belo Horizonte. Eclética, é ela a clarinetista que tocava no grupo de chorinho Corta Jaca, do novo rock do Graveola e o lixo polifônico, cantora em diversas canções de Flávio Henrique e a voz da marchinha de maior sucesso no último carnaval: “Na coxinha da madrasta”. Faz parte da nova geração de compositores e músicos mineiros, ao lado de Kristoff Silva, Makely Ka, o já saudoso Mestre Jonas e muitos outros.
Bem humorado já desde o título, seu disco Álbum desconhecido não tem remakes de canções famosas. E Juliana prova que não precisa dar esse tipo de cancha para o público. Rodeou-se de uma seleção de artistas admiráveis mineiros e paulistanos. A começar pela banda: Maurício Ribeiro (teclados, violões, escaleta e arranjos), Thiakov (baixo), Matheus Bahiense (bateria e percussão) e Pablo Castro (guitarra). Não para por aí. No disco participam também músicos como André Abujamra, Carlos Careqa, Benjamin Taubkin, Rômulo Froes, Alaécio Martins, Bruno Santos, Daniela Ramos, Du Macedo, Luiz Gabriel Lopes, Gabriel Guedes e muitos outros, para que você se confunda entre os já famosos e os que ainda serão.
O Álbum desconhecido é desses discos que você precisa ouvir todos os dias. Para se manter vivo, para se manter alegre, a saúde em alta. Para que a vida valha a pena. Eu mesmo já estou viciado.
Para saber mais e baixar o disco, é aqui:
www.julianaperdigao.com.br
As amigas: cenas de amor sáfico
Anotado por leo gonçalves no dia 3 abril poesia, tradução, verlaine2 Comentários! »

Há vários anos que traduzi a pequena série de poemas “As amigas”, de Paul Verlaine. Na época, lia vorazmente os rebeldes da literatura francesa, especialmente Lautréamont, Rimbaud, Baudelaire. Verlaine, que circulava entre eles (mas que não considero um rebelde), também sabia agradar.
Depois que traduzi, o meu desejo era o de repetir, numa edição bilingue, o feito do autor de “de la musique avant toute chose” e seu editor pirado: publicá-lo na forma de plaquete, com esse quadro do Klimt (que vocês estão vendo aí embaixo) na capa. Coisa simples e bonita. Cheguei a negociá-lo com o Oséias, da editora Crisálida, mas acabei concordando que não valeria tanto a pena, comercialmente. Me lembro de também ter mostrado para algumas pessoas, dentre elas o poeta Guilherme Gontijo Flores, tradutor de Propércio.
Mas em meio aos desajeitos dessa vida, esses e muitos outros trabalhos foram parar no fundo da minha “gaveta”. Tenho agora a alegria de dá-los a luz, através do blog Escamandro, a convite do mesmo Guilherme Gontijo Flores, a quem agradeço, além do convite, as boas palavras. Lá foram também publicadas outras versões de alguns dos poemas da série, no dia 30 de março, aniversário de 168 anos de Paul Verlaine.
Para ler as traduções que fiz, é lá no: www.escamandro.wordpress.com
Aproveito para me demorar um pouquinho mais sobre o assunto.
*

Atualidade de Don Pablo María de Herlañes
A pequena suíte de sonetos Les amies – scènes d’amour saphique apareceu pela primeira vez na forma de plaquete, publicada em 1867 sob os auspícios do editor Auguste Poulet-Malassis. Naquela edição, o autor aparece sob o bem-humorado pseudônimo de Pablo María de Herlañes. Segundo consta, os 5 poemas que fazem parte da coleção são as obras mais antigas escritas pelo autor, aos quais ele acrescentaria para esta edição o soneto invertido Sapho. A edição, embora pequena, foi condenada e retirada de circulação pouco tempo depois de sua primeira tiragem, acusada de ser uma obra licenciosa.
Apesar disso, o tema do lesbianismo parecia estar muito em voga naqueles tempos. Os críticos são praticamente unânimes em considerar esses poemas uma espécie de variação sobre um tema lançado à baila por Charles Baudelaire nos poemas “Lesbos” e “Femmes damnées”, ambos também condenados e proibidos de figurar nas primeiras edições das Fleurs du mal.
E não foi só Verlaine que apanhou “o grito do galo”. É dessa mesma época o famoso quadro “Dormeuses” do pintor Gustave Courbet. O poeta inglês Swinburne seguia o caminho dos mestres com o longo poema “Anactoria”, publicado um ano antes das “Amigas” de Verlaine. Um dos mais belos livros do século XIX é Les chansons de Bilitis, de Pierre Louÿs, cujos poemas mais tarde foram musicados por Claude Debussy. Mesmo o nosso Cruz e Sousa tem lá seu soneto “Lesbia”, que aparece no livro Broquéis.
Em todos os casos, é inevitável a referência à poeta Safo de Lesbos, cuja obra (especialmente naquela época) constava de apenas uns poucos fragmentos e uma única ode a Afrodite que foi guardada inteira por ter sido citada por um sofista grego. Afora esses poemas, as referências a ela eram todas provenientes dos romanos que, de certa forma, guardaram um pouco de sua obra em traduções e referências: Horácio, Catulo, poetas líricos por excelência e que, por essa razão, buscavam seus modelos entre os clássicos gregos e Ovidio que, embora épico, gostava especialmente do tema do amor. Graças a Ovidio é que a lenda de Faon (presente no último poema da série) se mantém viva até o século XIX e é assim que ela chega a Verlaine.
De todos os poetas que fantasiam a respeito das “Amigas”, Verlaine, na minha opinião, é o que dá a forma mais delicada, se valendo de combinações métricas pouco usuais para o soneto francês e sonoridades que deixam os poemas bem suaves e excitantes. Diferentemente dos outros, ele não as vê como as másculas mulheres do quadro de Courbet, muito menos como as “mulheres amaldiçoadas” de Baudelaire. Não trata do tema como que de um pecado ou de um mero fetiche masculino. Verlaine é, ele mesmo, um homem feminino ou quase, partidário daquele amor que ele não só não condena como embeleza. Afinal, como ele mesmo diz em um outro poema, “Je suis pareil à la grande Sapho [Sou igual à grande safo]“.
Talvez a pequena suíte das amigas de Paul Verlaine goze hoje de sua melhor atualidade. Basta circular pelas ruas de qualquer grande cidade, lançar uma olhadela pelas redes sociais e as conquistas que as e os homossexuais vêm obtendo em meio a essa estranha sociedade (que no século XIX prendeu o mesmo Verlaine por praticar a sodomia), para vermos que, sim, as “Amigas” merecem mais do que nunca o seu lugar ao sol. Hoje, 145 anos depois de sua primeira edição, elas já não serão mais condenadas, mas amadas, desejadas, esperadas. Incomoda ainda os conservadores. Mas sua proibição geraria ondas de protesto e beijaços pelo país afora, viraria escândalo.
Dulcineia Catadora Baixo Centro
Anotado por leo gonçalves no dia 1 abril mercado editorial, poesia, vozComente »

Dulcinéia Catadora é um coletivo que aparece pelo mundo afora enchendo a rua de poesia e belas cores. Trata-se de uma editora cartonera, com vários livros já publicados em edição caseira, com capas personalizadas feitas em papelão e pintadas a mão por quem teve a coragem de interromper a caminhada e parou para participar de uma das intervenções e/ou pelos catadores da Cooperglicério, que também ajudam na montagem final dos livros. Nesta brincadeira, a cartonera já publicou autores como Joca Reiners Terron, Xico Sá, Douglas Diegues, Marcelo Ariel, Glauco Mattoso, Laerte, Paulo Scott, Manoel de Barros, a turma do sarau da Cooperifa e muito mais. Os livros são vendidos a R$ 6,00 e os lucros são divididos entre os catadores.
Pois ontem, dia 31 de março, eu tive uma sorte dessas. Acompanhei a Dulcinéia Catadora a uma intervenção na Praça Marechal Deodoro, bem ali no pé da Avenida Angélica, embaixo do Minhocão. Tratava-se de mais uma das ações do Festival Baixo Centro, que tem dado significado novo a lugares que quem vive em São Paulo costuma deixar desperdiçado. Na invervenção, além de pintar a minha própria capa de livro, fui convidado a falar poemas no megafone, tarefa que dividi com o poeta Carlos P. Rosa.
Meu abraço agradecido para a Ana Cristina Dangelo e Lúcia Rosa.
Saiba mais notícias da Dulcineia Catadora:
www.noticiasdacatadora.blogspot.com.br
Musique nègre na Musa Rara
Anotado por leo gonçalves no dia 5 março outra imprensa, poesia, traduçãoComente »
O site do Musa Rara já chegou transbordando. Com um design bacana, repleto de novidades a cada dia, ausente de panelinhas, criativo ativo. Ali você encontra contos, poemas, crônicas, ensaios, resenha, traduções de poesia e até mesmo uma TV Musa, organizada pelo admirável casal Gércio Tanjoni e Elizete Lee. Participam da editoria: Ana Peluso e Adrienne Myrtes. O editor-visionário, criador e animador é ninguém menos que o poeta Edson Cruz, amigo recente na Pauliceia, um dos criadores de um outro site admirável e com moldes parecidos, o portal Cronópios e autor do livro Sambaqui, lançado pela Crisálida em 2011.
Tive a honra de ser convidado a participar. Minha primeira colaboração (outras virão) é a pequena série de traduções de poemas do haitiano Léon Laleau que publiquei originalmente no Suplemento Literário de Minas Gerais em junho de 2010. Personagem importante na história de seu país, ele foi uma das principais figuras do modernismo haitiano. Autor de romances e livros de poesia, sua obra me lembra um pouco os ideais do modernismo brasileiro e da antropofagia oswaldiana.
Para ler Laleau é lá: www.musarara.com.br/musique-negre
Os poetas e o mercado editorial
Anotado por leo gonçalves no dia 17 fevereiro mercado editorialComente »
Pode-se dizer que, no Brasil, o mercado editorial está passando por um momento inteiramente novo e otimista. Nos meus mais de 15 anos em que fui de leitor a livreiro, editor, tradutor, prestador de serviços editoriais, atravessando booms e depressões do mercado, é a primeira vez que vejo tamanho interesse no público brasileiro por parte de grandes investidores. Eventos literários em cidades dos quatro cantos do país (a Flip é apenas o mais prestigioso), investimentos de grandes empresas (como a Portugal Telecom), inúmeras editoras de todos os tamanhos aparecendo aqui ali. A via é de mão dupla: em termos de expansionismo, a coisa também parece promissora. O Brasil tem sido o homenageado em diversas feiras de livro pelo mundo afora, o que prenuncia a chegada a outros mercados. Isso, sem falar no novo desafio: o e-book, que ganha cada vez mais espaço no país. Eu, que sou leigo em assuntos financeiros, lanço o palpite de que talvez seja um dos setores em maior expansão, hoje, no Brasil, a despeito de todas as crises e racionamentos de verba de que se possa reclamar.
Alguns fatos de 2011 ilustram bem o que estou dizendo. A venda de 45% das ações da Companhia das Letras para a Penguin (uma das maiores empresas editoriais do mundo) foi um dos fatos mais comentados do ano. Mas não foi a única, nem a primeira aparição de investidores estrangeiros no país. Aliás, isso está se tornando cada vez mais comum. Oxford, SM, Santillana, Pearson, Alfaguara são algumas das que já demonstram crescimento no setor.
No mercado de livros eletrônicos, há também um grande crescimento. Segundo o Publishnews, em 2011 a Companhia das Letras vendeu 1.200% mais e-books que em 2010, ano em que começou as atividades nesta área. Há pelo menos três empresas multinacionais em busca de suas brechas para inserir seus e-books no Brasil: a Amazon (dona dos Kindle), a Apple (com o controle sobre os iPads e seus aplicativos) e a Google, que parece estar apostando alto nesse nicho e tem mandado representantes para se unir com editores e livreiros em busca de parcerias.
O comentário mais recorrente é o de que somos 200 milhões de potenciais leitores em todo o país. É claro que ainda não é o público comprador, quem mais “consome” livros. Mas o Ministério da Educação é um dos maiores compradores de livros do planeta. Pelo Brasil afora, pululam as licitações públicas de compra de livros. Todos estão de olho nesses compradores.
Onde entram os poetas nisso tudo
Com tudo isso, quero dizer que, ao contrário do que se diz, há muito dinheiro circulando ao redor dos livros, mas a maior parte da literatura autoral publicada no Brasil hoje se vale dos seguintes dispositivos: 1) pequenos editores que os publicam muitas vezes dividindo com o autor o custo da edição, 2) conseguem verba do governo através das leis de incentivo à cultura, situação em que o autor acaba optando entre publicar por conta própria, administrando o dinheiro recebido, ou fazer uma parceria com algum pequeno editor e 3) o autor se anima a tirar do próprio bolso para a publicação, sem auxílio de nenhum editor.
Isso gera uma confusão: embora o mercado esteja em expansão, o seu conteúdo deixa a desejar. O que os grandes editores querem é autores que vendam 20 mil exemplares no dia do lançamento. Isso faz com que eles empurrem um mar de porcarias na cabeça do público. Parece que um dos pré-requisitos para ser um best-seller é ser literatura descartável. Somado ao fato de que, salvo poucas excessões, já não se faz editores como antigamente, essa situação faz com que ao longo do ano se imprimam rios e rios de livros cujo destino final será ir parar nalgum aterro sanitário. O fino da literatura, aquilo que é produzido pelos autores mais criativos, muitas vezes passa desapercebido pelos editores, atentos apenas aos cifrões imediatos e à sobrevivência a curto prazo.
Esse dito “mercado”, ainda não conseguiu desenvolver um sistema que mantenha os seus escritores em atividade. Conheço inclusive alguns editores que estão francamente dispostos a não manter relações com escritores. O discurso hoje ultrapassado de que “poesia não vende” é o primeiro assombro do editor. O segundo é a perseguição dos autores que ficam ali cobrando a venda de seus livros. É como disse o poeta Chacal: “não é que poesia não venda, é que os editores não sabem vendê-la”. Eu diria ainda mais: muitos editores não sabem sequer como lê-la. Daí a dificuldade em se decidir quanto à publicação de bons livros.
O mercado editorial brasileiro precisa, cada vez mais, de pessoas capacitadas para fazer com que o conteúdo ultrapasse os limites da chamada “literatura comercial”, que eu chamo de literatura de curto prazo. Assim como estamos num momento otimista do mercado editorial, a literatura brasileira goza de boa saúde, embora seja escrita (e muitas vezes financiada) por autores que estão constantemente de bolso vazio e precisam dar duro para descobrir como farão para pagar a próxima conta de luz. Editores e investidores são espertos quanto a isso. E os poetas? Continuarão com o discurso de que mercado é inimigo da poesia e esperando que algum milagre aconteça? Se a coisa vai por aí, tenho mesmo certeza de que o mercado crescerá sem poesia.
Biscate Social Club + WTC Babel
Anotado por leo gonçalves no dia 14 fevereiro biscate, contra-a-moral-e-os-bons-costumes, leo gonçalves, poema, WTC BABEL S. A.2 Comentários! »

Esta semana, tive a honra de ser o poeta convidado para o Biscate Social Club, um blog bem humorado, informativo e corajoso, criado por algumas meninas que, como o Salamalandro, escrevem contra a hipocrisia da “moral e os bons costumes”.
Quando Luciana Nepomuceno me pediui, eu tinha alguns poemas para sugerir. Preferiram este, que é a primeira parte do WTC Babel S. A., lançado por mim mesmo pela Barbárie Edições em 2008.
Divirtam-se: www.biscatesocialclub.wordpress.com
BH: Carnaval e Política
Anotado por leo gonçalves no dia 12 fevereiro belo horizonte, belorizontem, coxinha da madrasta, políticaComente »

Talvez Belo Horizonte seja hoje um caso único na política brasileira. Primeiro do lado do poder: as notícias quase não circulam fora de Minas, o que permite aos políticos fazer o que bem entendem e ainda serem admirados como salvadores da pátria. É o caso do ex-governador e atual senador Aécio Neves, que criou um sistema de censura branca em todo o estado, fez muita demagogia, manteve tudo como estava antes dele ou piorou um pouco mais alguns pontos. Para sair bonito na fita, criou um centro administrativo nos confins da cidade, dificultando o acesso do povo ao poder de uma maneira pomposa – o projeto do cidade administrativa (que ganhou o apelido de Nevesland) é de Oscar Niemeyer. No mais, muita corrupção, drogas e arbitrariedade, coisas que não aparecem na revista Caras. Outro que sai bonito na fita é o atual prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda. Amigo dos endinheirados, trata a cidade como uma empresa – que ele administra com pouquíssima visão de futuro, já que seu projeto mais ambicioso é a imediatista Copa do Mundo. Recentemente, apareceu em pesquisas como o prefeito brasileiro com maior nível de aprovação, embora exista um movimento Fora Lacerda! e inumeráveis manifestações cotidianas nas ruas e nas redes sociais contra ele.
Mas não são só as falcatruas que passam de liso para os ansiosos de informação. Desde que Márcio Lacerda proibiu o uso da Praça da Estação para atividades públicas, começou a surgir um movimento alegre e carnavalesco na cidade que está gerando a maior dor de cabeça para a prefeitura. Incomodados com a proibição, jovens da cidade decidiram fazer a “Praia da Estação” e esta passou a ser um importante ponto de encontro, para o qual converge a maioria dos os movimentos de contestação política da cidade. Me lembro das vezes em que fui: uma hora em que se pode estar livre dos afazeres cotidianos, conversando livremente sobre as coisas da cidade. Nos intervalos entre um papo e outro, toma-se um refrescante banho na fonte da praça, aos gritos de “Hei, polícia, a praia é uma delícia!”. Márcio Lacerda, sem querer, transformou a Praça da Estação numa Ágora, e agora a coisa cresce cada dia mais.
Envolvidos com as questões urbanas da cidade, a população se une para reclamar seus direitos. Momento memorável aconteceu na última quinta-feira (dia 09/fev). Eis o caso: os vereadores belorizontinos haviam decidido que mereciam um reajuste salarial de 61,8%. A notícia foi escandalosa e a imprensa local não deixou o caso em brancas nuvens. O povo protestou. Resultado: o prefeito vetou o aumento. Os vereadores bateram o pé. Se reuniram novamente para votar a derrubada do veto. Porém desta vez, havia uma multidão assistindo, filmando, protestando, pressionando. Os vereadores não tiveram a coragem de manter o veto contra a vontade dos manifestantes (clique aqui para assistir a alguns momentos da votação). Comentário geral: “Com o povo em cima, a coisa anda”.
É bonito ver que essa mudança de atitude, esse desejo de participação tenha surgido por dentro da alegria e da paz. Não sei de nenhuma notícia de manifestante que tenha tentado agredir alguém, machucar um colega ou mesmo um policial. Nada disso. Tudo é feito em meio ao clima carnavalesco que, de repente, tomou conta da cidade. Quando a coisa vai por esse lado, não há nada que as autoridades consigam fazer. A coisa penetra na alma do povo e todo mundo dança, pula, batuca. Não foi o que ocorreu com a canção “Na coxinha da madrasta”, de Flávio Henrique (clique aqui para ouvi-la na voz de Juliana Perdigão)? O autor a havia disponibilizado na internet para participar do Concurso de Marchinhas Mestre Jonas. Mas eis que, ofendido com o caso, o vereador Leo Burguês resolveu acionar seu advogado e ameaçar o compositor, acusando-o de ofensa e difamação. Restultado: por causa disto, a marchinha ganhou ainda maior notoriedade. O povo entusiasmado reduplicou e disponibilizou a canção em blogs, colocou a letra nas redes sociais e protestou muito. “Tira a mão/tira a mão/é hora de dar um basta/a grana da população foi parar/na cozinha da madrasta”, diz o refrão da marchinha que ganhou o concurso e certamente se tornará um hino pela mudança de atitude dos políticos na cidade. Caso raro: a notícia acabou se espalhando para fora de Minas. Aí está um fato que pode estragar de vez a carreira política de Leo Burguês.
Essa coesão política assim tão espontânea, para mim, é um caso inédito. O carnaval possui de fato um potencial político incrível, quando surge do desejo das pessoas que criam a festa. Tudo parece muito bonito, mas é preciso ficar alerta: o ineditismo está deixando os políticos e os policiais completamente desorientados. Usam métodos antiquados para um fato completamente novo. Chegam truculentos, lançam bombas para dispersar a festa, sprays de pimenta, acuam, agridem fisicamente manifestantes e foliões. Aconteceu ontem mesmo no desfile da Banda Mole, o pré-carnaval da cidade. Um verdadeiro vexame. Um verdadeiro perigo.
adiar o dia de sair do mar
Anotado por leo gonçalves no dia 25 janeiro atlântico negro, augusto de campos, belo horizonte, leo gonçalves, outra imprensa, poesiaComente »
O número 1.338 do Suplemento Literário de Minas Gerais, correspondente aos meses de Setembro e Outubro de 2011 veio cheio de matérias interessantes. Logo de cara, você encontra uma entrevista com Augusto de Campos concedida a Cristina Monteiro de Castro Pereira. Ele, o Augusto, que na minha opinião se encontra num momento todo especial de sua vida, aos 80 anos em plena criatividade e abertura. Um poema de e. e. cummings traduzido pelo próprio Augusto e aproveitando a deixa, um curto ensaio de Fabrício Marques sobre Augusto de Campso e Paulo Leminski. Em seguida, Sérgio Medeiros compartilha seus e-mails com um crítico. Três contos de Marcílio Castro. Comentários de Marília Rothier Cardoso sobre a correspondência entre Mário de Andrade e Henriqueta Lisboa. Poemas em prosa de Alexandre Guarnieri. “O roubo”, poema de Eucanaã Ferraz. “Similhana”, conto de Ildeu Geraldo de Araújo. Resenha sobre o livro A invenção do crime, de Leida Reis. Renata Marquez lança um olhar sobre “Habitáveis” da artista plástica Liliane Dardot.
Na última página, um poema meu. “Transatlântico” pode não ser uma obra-prima, mas é dentre os meus poemas um dos que mais gosto, pela revelação e a tragicidade que se esconde sob as águas azuis desse oceano que meus ancestrais atravessaram e onde tantos ficaram.
Para quem quiser lê-lo na íntegra, tenho aqui o pdf disponibilizado pelo site da Secretaria de Cultura de Minas Gerais. Clique aí e leve.
O raio de luz Mestre Jonas
Anotado por leo gonçalves no dia 30 dezembro música, mestre jonas, vida2 Comentários! »

(18 de março de 1976 – 30 de dezembro de 2011)
No começo dos anos 2000, Mestre Jonas apareceu repleto de swing e bom humor na cena musical de Belo Horizonte. Me lembro dele lá na casa do Renato Negrão, num papo sobre as primeiras ações de um movimento que mostrou que Minas é muito mais do que Clube da Esquina. Mestre Jonas estava lá, com seu violão, voz doce, uma pegada única que me deixou impressionado. Depois, no Samba da Madrugada, ele estava lá, ao lado de Dudu Nicácio, Miguel dos Anjos e seus convidados de peso trazendo fôlego novo ao samba das Minas Gerais. Mestre Jonas, o raio de luz, passou por aqui e tornou o mundo melhor, mais respirável. Gravou um único disco. Tinha mil projetos em mente, parcerias começadas. Não estava na hora ainda, mas hoje ele se foi. Aos 35 anos. Foi requisitado em Aruanda.
Vai em paz, meu querido! Nesse reveillon, fumarei um cachimbo em sua homenagem. Ninguém vai poder te substituir, mas a gente continua o trampo aqui, na medida do possível. Que os deuses recebam bem o orixá que você é!
Nzambi a tu bane ngunzu mukukaiela para a gente que fica!
A poesia de Juan Gelman no Brasil
Anotado por leo gonçalves no dia 29 outubro américa latina, juan gelman, mercado editorial, poesia, poesia contemporânea5 Comentários! »

Dibaxu/Debajo/Debaixo
Universidade Federal do Ceará, 2009
Traduzido por Andityas Soares de Moura e publicado no final de 2009, Dibaxu traz uma coleção de 29 poemas amorosos. Uma curiosidade: Juan não os escreveu em espanhol, sua língua mãe, mas na língua dos judeus da península ibérica, o sefardita. “Sou de origem judia, mas não sefardita, e suponho que isso teve a ver com o assunto”, comenta o poeta. Trata-se de um idioma antigo, que está nas próprias origens da língua espanhola. É, entre outras coisas, o idioma do Cantar de mio Cid, poema fundador do povo castelhano. Apesar de antigo, o sefardita não é uma língua morta. “O acesso a poemas como os de Clarisse Nikoïdski, novelista em francês e poeta em sefardita, desvelaram essa necessidade que em mim dormia”, revela o poeta, outra vez no “Escólio”, incluído na publicação. E arremata: “a sintaxe sefardita me devolveu um candor perdido e seus diminutivos, uma ternura de outros tempos que está viva e, por isso, cheia de consolo”. O livro brasileiro vem em versão trilíngüe (sefardita, português e espanhol), seguindo o caminho proposto pelo próprio poeta em sua publicação original (sefardita-espanhol).
O livro faz parte da coleção Nossa Cultura e nasce graças ao apoio do poeta Floriano Martins.
Com/posições foi traduzido por Andityas Soares de Moura. Um livro híbrido, onde Juan Gelman recria a poesia de poetas árabes e judeus antigos fazendo deles ao mesmo tempo parceiros e heterônimos. Assim, os autores “traduzidos” vão desde o rei Davi até a poetas árabe-espanhóis da idade média, o período conhecido como Al-Andaluz. Mas a escolha dos poemas ali presentes não é sem razão: ele se vale das vozes antigas para falar de sua própria condição de exilado.
O livro, além de trazer na íntegra os poemas “Com/posições” (Com/posiciones, no original), traz também um precioso prefácio do tradutor e uma entrevista com Andityas Soares de Moura e Leonardo Gonçalves, originalmente publicada em 2005 no Suplemento Literário de Minas Gerais por ocasião do lançamento do livro Isso.
Amor que serena, termina?.
record, 2001
Amor que serena, termina? é um belo panorama da poesia de Juan Gelman. Traduzido por Eric Nepomuceno e revisada por Chico Buarque de Holanda. Conhecido por traduzir muito do que há de melhor em literatura latino-americana no Brasil, neste livro, Nepomuceno se entrega a um desafio inédito para ele: traduzir poesia. Conta-se que a record relutou por algum tempo até se convencer a publicar este livro, afinal livro de poesia não vende no país da batucada.
Puentes/Pontes.
Fondo de Cultura Económica, 2004
Este é um interessante projeto da Fondo de Cultura Económica, organizado por Heloísa Buarque de Holanda, Jorge Monteleone y Teresa Arijón. O propósito: pensar a poesia como ponte que une mundos. Trata-se de uma alentada antologia (537 páginas) que inclui poetas brasileiros e argentinos. Na lista: Paulo Leminski, Lamborghini, Affonso Ávila, Bayley e, é claro, Juan Gelman. A tradução deste foi feita pelo poeta e tradutor sérgio alcides e nos dá um ótimo panorama das faces do poliedro que é a poesia de Juan.

Poesia argentina – 1940/1960.
Iluminuras
Esta antologia foi organizada pela acadêmica Bella Jozef, que além deste livro, é autora também de alguns estudos sobre a poesia latino-americana contemporânea. É um panorama da poesia argentina de uma época criativa e febril na poesia daquele país. Mostra o aparecimento do surrealismo, da poesia beatnik, por exemplo. Além do juan (apenas 2 poemas, maravilhosos e muito bem traduzidos, por sinal), tem lá uma boa seleção de outros poetas.
Daniela Andújar e outras personas
Anotado por leo gonçalves no dia 24 outubro ao meu redor, performance, poesia, poesia contemporâneaComente »

Nunca vi Daniela Andújar. A conheci pelas vias virtuais. Leitora do Salamalandro, me mandou um recado lá pelos últimos anos de Roberto Piva, quando lancei por aqui um apelo para os que quisessem/pudessem colaborar com alguma grana para que o poeta pudesse cuidar da saúde. Ela pedia para avisar aos dele que havia reunido uns amigos e depositado algum montante na conta que divulguei aqui.
Desde então, vez por outra mantemos contato por e-mail. Só em 2011 é que descobri que Daniela Andújar é uma portenha para lá de original. Assina aqui ali como Roberta Arta e outros heterônimos. Das coisas que ela gosta (até onde sei), inclui-se proferir com sua voz de gitana as palavras da sua poesia, que ela reúne na performance Poeticazo, ao lado de amigos, às vezes percussão, às vezes guitarra ou o que vier.
Daniela Andújar vive no Guarujá, mas tem passado os últimos meses em Buenos Aires. Navegou pelos cinco mares, andou pela Itália, Andalucia, nas suas palavras andou fundando agrupações sambapunk de poesia e ritmo como “Manifesto Escoria, ou Deus”, “Ser o no Res”, mesclando poesia, dança, música e entusiasmo. Sua expressividade delirebelde resulta na palavra Manifesto, ou, melhor ainda: ManiFesta.
A LA VIDA HAY QUE DES-$IFRARLA, ela e suas muitas personas gritam com um pedal chorus ligado no máximo.
Recebi pelo correio há alguns meses um pacote repleto de coisas: o livro Dengue, que traz o subtítulo: “poesia para extender o império dos sentidos e bombardear o império dos sentados”. No pacote também havia outras coisas. Convite para a performance-rapp que rolou el viernes 29 de outubro de algum ano passado, com o lançamento desse mesmo livro. Como invocados espciais: Oswald de Andrade e Allen Ginsberg. E mais um folheto com o poema (ou pameo ou peoma) “serviço de morte obrigatório”. E mais um cd com suas palavras gritadas contra a moral e os bons costumes. E mais um poema de Paco Urondo “La verdad es la única realidad” e mais e mais, num desdobrar de repalavreamentos que botariam James Joyce de cabelo (ou carne) em pé.
A poesia eléctrica táctil cardíaca bombachuda inflamable de Daniela Andújar, uma cidade caótica onde se perder. Para conhecer um pouco do que ela faz, é lá no: www.danielaandujar.blogspot.com
*
Deixo com vocês uma palhinha colhida no blog dela com tradução minha:
Anocheself
O dia nasceu noctâmbulo
querendo nascer amanhã
não hoje
o dia de hoje se desnasce
pretende abaixar o sol
soprá-lo
até empurrá-lo
e que ele caia to
d
o
pelo horizonte e se es
t
r
e
l
e
[El día nació noctámbulo
con ganas de nacer mañana
no hoy
el día de hoy se desnace
pretende agachar el sol
soplarlo
hasta empujarlo
y que se caiga to
d
o
por el horizonte.
y se e
s t
r
e
ll
e]




Isso.














