Corpo Quilombo na Mostra Tiradentes de Cinema

O filme Corpo Quilombo, dirigido por Leonel Costa e Patrícia Miranda, e no qual participo como não-ator, já nasceu clássico. Um trabalho denso, colaborativo, feito na garra, na cara e na coragem, na mais pura linhagem do “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Quando a dupla me chamou para participar, me explicando as condições, fiquei apaixonado com o projeto. Me lembrei de uma cena do filme Hitchcock, em que uma personagem diz algo como “Se lembra quando fazíamos os filmes porque era necessário? Não sabíamos se iríamos ganhar algum dinheiro com ele, mas fazíamos porque era necessário”. Esse filme, para mim, entrou direto no grupo das coisas extremamente necessárias.

Fiz essa introdução para anunciar a boa notícia: ele estará na Mostra Competitiva da Mostra Tiradentes de Cinema. A exibição acontecerá no dia 25 de janeiro às 15h no Cine Teatro Sesi.

Deixo aqui o trailer:

Corpo Quilombo Trailer(English Captions) from Vela de Macumba on Vimeo.

Uma pequena sinopse encontrada no site da Patrícia Miranda (onde você encontra também toda a lista do elenco (https://patriciamiranda.com.br/channel/corpo-quilombo-GAH5170/)

Gravado no Rio de Janeiro e São Paulo, o longa-metragem CORPO QUILOMBO é um filme independente produzido de forma colaborativa. A narrativa é estruturada a partir de dois pontos: fragmentos biográficos de personagens históricos brasileiros recriados de forma livre e personagens fictícios em um dia de reflexões e decisões que definirão rumos importantes em suas vidas.

Resistir e escapar da lógica predatória do racismo, do machismo e da homofobia é o ponto comum entre as trajetórias de cada um.

E, é claro, o link da Mostra Tiradentes de Cinema: http://mostratiradentes.com.br/programacao/filme/2404

Guinée Fagni – La trajectoire d’une femme africaine

Chegou esta semana para mim o pdf do livro Guinée Fagni – La trajectoire d’une femme africaine, de Andrea Silveira. Se trata da biografia de Maimouna Diallo, uma ativista pelos direitos das pessoas portadoras de HIV em seu país, a Guinée Conakry. O livro foi escrito em português e eu tive a honra de vertê-lo para o francês. A publicação é da editora Eureka.

Saiba mais no site da editora: https://www.editoraeureka.com.br/site/produto/guinee-fagni/
Ou baixe o pdf em francês diretamente: http://editoraeureka.com.br/midia/guinee_fagni_fra.pdf

Poema inédito

TUDO BEM

está tudo bem, meu bem
eu sei porque eu vi na tv

está tudo legal a nível nacional
eu sei porque eu vi no jornal

a vida é bagatela, minha bela
eu sei porque eu vi na novela

está tudo como sempre esteve
eu sei porque não teve greve

está tudo perfeito
eu sei, votei pra prefeito

está tudo bem com a gente, minha gente
você sabe, vamos votar pra presidente

está tudo bem não se preocupe
digo isso pra que você não se culpe

está tudo conforme os planos
não faz mal, a gente sempre passa um pano

eu sei que você tem passado fome
fome é vida, não reclame

não faz assim, tá querendo colo?
está tudo dentro do protocolo

eu sei que você tem passado por crises
não pense em crise, take it easy

porque está tudo bem, meu bem
eu sei, eu vi na tv

está tudo legal a nível nacional
eu sei, passou no jornal

e amanhã há de ser outro dia
é carnaval, pessoal

o país vai acordar de repente
numa chuva de confetes

você não pressente?
você não pressente?

vai dar tudo certo, Maria
esse país vai despertar

na mais serpentina harmonia

*
Leo Gonçalves

(publicado dia desses em A voz pública da poesia)

Roda BH de Poesia 4

A cada edição, a Roda reúne dez poetas e artistas. Sentados ao redor de uma grande mesa de bar, a cada momento uma poeta levanta-se e apresenta seu poema, música, texto ou performance, e assim segue os outros, com o giro da roda.

Na próxima sexta-feira, dia 19 de julho, participo da Roda BH de Poesia IV, ao lado dessas pessoas lindas e admiradas que aparecem no flyer acima:

Ohana HoHo
Nívea Sabino
Claudia Manzo
Fabiana Soares
Bruna Kalil Othero
Leandro Zere
Pedro Bomba
Denilson Tourinho
Leo Gonçalves
Edelson Pantera

Tá bom de anotar na agenda para não perder.
Vai ser no 1000tons (Rua Mármore, 825 – Santa Tereza)

Como traduzir um rosto | oficina de tradução poética

“traduzir é inumano. nenhuma língua ou rosto se deixa traduzir.”
Juan Gelman

A arte da tradução é a arte do impossível. Cada língua e cada lugar possuem suas particularidades, seus próprios recortes da matéria viva chamada “realidade”. Se traduzir é um desafio já no ponto de partida, o desafio da tradução poética e suas correlatas em prosa se avizinha às artes do impossível.

A proposta desta oficina é, portanto, a de realizar experimentos com tradução de poesia, explorando, no ato tradutório, as subjetividades e os elementos de linguagem próprios da poesia. A experiência com a tradução nos permite explorar, para além da própria tradução em si, as inúmeras possibilidades e técnicas de criação poética, bem como as reflexões sobre o que pode um poema.

*

Os tempos atuais requerem uma percepção que ultrapasse os limites do que está ofertado para os observadores que somos, sempre muito passivos diante das notícias e informações que nos chegam do mundo. Adotamos visões superficiais e descarnadas sobre outros povos e outros lugares. A relação que cada indivíduo do planeta estabelece com os outros lugares e povos liga-se sobretudo, às paisagens. Compreender o que ocorre no ver e no sentir de um povo diferente é abrir-se para o novo, tal como o é também a leitura do poema.

Cada poema numa língua estrangeira é como um rosto distante que nos olha sem que compreendamos o que ele quer nos dizer. Trazer para a nossa língua o dito e o não dito de um poema, é parte dos grandes desafios do mundo atual. É pensando nisto que o filósofo martinicano Édouard Glissant desenvolve seu conceito de plurilinguismo: não se trata de saber vários idiomas, mas de “escrever em presença de todas as línguas”. A consciência de que o poeta habita um mundo onde também existem incontáveis línguas diferentes da sua compõe também o poema, nesses tempos de mundialização que é também massacrante, mas não só: é também a oportunidade do encontro e de um diálogo inédito entre os povos do planeta.

Traduzir poesia é também, por outro lado, momento de lazer. Despreocupar-se dos problemas do mundo para debruçar-se sobre as palavras, seus ritmos, seus jogos, seus interstícios. Buscar compreender o que ela diz e o que não diz. Mas também: dizer o que se compreende e o que não se compreende.

José Paulo Paes, um dos melhores e mais profícuos tradutores brasileiros em seu tempo, dizia traduzir porque não entende o original. Traduzir é o melhor modo de descobrir o que está oculto por trás das palavras de um poema escrito em outro idioma. Outro tradutor fundador, Augusto de Campos, declarou certa vez que traduzir é um modo de tornar-se outro, como fazia Fernando Pessoa com seus heterônimos. Sentir pelas palavras do outro, trazendo-as para a língua portuguesa. Guimarães Rosa dizia que toda escrita é uma espécie de tradução: quem escreve traduz de um lugar inaudito coisas sem nome. Mas para Robert Frost, “poesia é o que se perde na tradução”. Eis o desafio.

Grandes poetas traduziram: de Gonçalves Dias a Haroldo de Campos. De Machado de Assis a Clarice Lispector. De Álvares de Azevedo a Manuel Bandeira. De Carlos Drummond de Andrade a Sebastião Uchoa Leite. E a lista não tem fim.

Traduzir poesia é (pode ser) um modo de experimentar. Um modo de dar respiro às palavras de um autor. Seguindo o pensamento de Juan Gelman: “Traduzir é inumano. Nenhuma palavra ou rosto se deixa traduzir. É preciso deixar essa beleza intacta e colocar outra para acompanhá-la: sua perdida unidade está adiante.”

A proposta de “Como traduzir um rosto” seria, portanto, esta outra forma de se fazer poesia. Um processo. Um procedimento.

*

Há tempos espero o momento de realizar esta oficina. Estou contente com a oportunidade oferecida pela PBH. “Como Traduzir um Rosto” acontecerá na próxima semana, entre os dias 10 e 13 de julho. As inscrições são gratuitas, mas as vagas são limitadas.

Quem quiser se inscrever ou obter mais informações, pode entrar em contato.

telefone: 31 3277 8658
email: bpij.fmc@pbh.gov.br

Revista Olympio | Literatura e Arte

Já está circulando desde maio a revista literária independente Olympio. O projeto foi idealizado por Maria Esther Maciel, que formou com José Eduardo Gonçalves, Julio Abreu e Maurício Meirelles. A ideia é de fortalecer a transversalidade, publicando (como aparece neste primeiro número) o trabalho ensaístico, poético, ficcional, bem como trabalhos em artes visuais. Merece destaque especial o “Retrato”, escrito por Joselia Aguilar sobre a obra fotográfica de Maureen Bisilliat. Também aparecem, entre as artes visuais, os trabalhos de Eustáquio Neves, Leonora Weissmann e Julia Panadès.

O número está belíssimo, com poemas de Edimilson de Almeida Pereira, Letícia Féres, Simone de Andrade Neves. Ensaios de Iris Monteiro, Maria Angélica Melendi, Eliane Robert Moraes e Douglas Diegues. E mauita coisa mais que não vou citar aqui a exaustão.

Colaboro neste número também. Neste caso, com a tradução de um delicioso texto de Georges Perec, com o título: “Notas referentes aos objetos que estão sobre a minha mesa de trabalho”.

A revista está sendo distribuída pela Autêntica. Querendo saber mais informações sobre como adquiri-la, o link é aqui: Revista Olympio | Literatura e Arte – 01

Pesado demais para a ventania

Sábado próximo, dia 21/04, tem lançamento de Pesado demais para a ventania, antologia de poemas de Ricardo Aleixo. O livro sai pela Todavia, editora paulistana que já tem um catálogo bonito. O livro do Ricardo chega em boa hora. Festejemo-lo.

O que: lançamento do livro Pesado demais para a ventania, de Ricardo Aleixo.
Quando: Sábado, dia 21 de abril de 2018 a partir das 16h
Onde: Livraria Crisálida – Avenida Augusto de Lima, 233 sobreloja 25 (Edifício Maletta, segundo piso).