Arquivos mensais: julho 2005

] ao meu redor [ andityas soares de moura

o estudo me fez espirituoso

E todos os dias parecem reclamar
seu quinhão de sombra e de desassossego,
enquanto nós, com o silêncio de gestos
muitas vezes repetidos, construímos o
torpor, a catatonia de um mundo que se entrega.

(Andityas Soares de Moura, no livro FOMEFORTE)

tem um comentário do poeta irlandês w. b. yeats sobre pound, onde ele diz: “esse é um poeta de cuja teoria eu discordo completamente, mas que a ele estou ligado por questões que ultrapassam a estética” (estou citando de cabeça). agora já deve ter passado uns oitenta anos desde que yeats escreveu isso, e olhando de outro continente, em outro contexto histórico (livre dos fascismos que iludiram os dois grandes camaradas de que eu falei), posso agora brincar de gente grande e falar o mesmo sobre este meu parceiro. e falarei em forma de relato.

andityas soares de moura é um poeta português, filho de pais brasileiros e nascido em barbacena, interior de minas gerais, estado onde sempre viveu. como estrangeiro que é, onde quer que esteja, vive assumindo em sua poesia uma persona nova, que inclui uma língua e uma forma específicas. mas que ninguém se engane: todas elas transitam num mesmo espaço, onde a realidade é apenas um elemento em meio aos diferentes artifícios aos que ele se apega para os seus versos.

certa vez, num sarau que fizemos numa livraria onde trabalhei há muitos anos atrás, o andityas, tendo lido alguns dos meus poemas, me veio com a seguinte resposta: “estás compromissado com a modernidade”. pouco depois, pude ler o seu primeiro “poemário” (como ele o chama), Ofuscações. achei, e ainda acho, extremamente romântico, deslumbrado com rimbaudismos, traklismos, vangogoghismos, delírio verbal sem artifício, um tanto quanto retórico. pensei: “esse cara está compromissado com o passado.”

lentus in umbra

quando o reencontrei, anos depois, ele tinha nas mãos o seu mais novo livro, cujo título confirmava a minha suposição: lentus in umbra (imagina! se fosse dos meus, não pensaria duas vezes em meter o título em língua brasileira. brasileiríssima, aliás: tranqüilo na sombra. mas o fato é que gosto do livro, e talvez não gostasse se tivesse o título que sugiro). o título, tirado da écloga I das bucólicas de virgílio. nesse livro, aparecia algo de novo: o elemento ezra pound, make it new. lentus in umbra foi logo traduzido na espanha e publicado pela prestigiosa editora trea. havia-se acrescentado ao caldo, uma imensa paixão pelos cantares d’amigo medievais em todos os seus desdobramentos: galaico-português, provençal, francês, catalão, castelhano e o que daí surgiu em termos de poesia nas línguas neo-latinas.

PAX ROMANA

Tu, deitada no templo, decifrando as
escuras pilastras da casa, ouve
minhas palavras metálicas. Ainda
hoje saborearei teu corpo, quer
m’ofereças, quer não. Jasmins
tenho em minha carroça para
impressionar teus gostos arrojados;
serei um afável salteador, roubando-te
as mais pecaminosas
excitações cerebrais. Ainda hoje tu
te deitarás comigo no prado.
Afastemo-nos da cidade. Então
apresentar-te-ei vários elixires, temperos
raríssimos.

Os milênios serão nossos confessores.

(de lentus in umbra)

OS enCANTOS

daí, em 2002 conspiramos e acenamos com uma possibilidade (hoje concretizada): publicar pelo selo in vento o seu livreto outsider OS enCANTOS. como leitor, considero este livro uma grande homenagem ao mestre pound (andityas é hoje um dos poucos poetas, talvez o único, que puderam se arriscar na empreitada de ser poundiano em terras brasileiras, o que só é possível com muita erudição).

OS enCANTOS é o livro dele pelo qual tenho maior simpatia. é que nele a ousadia é deslavada. faz jus ao verso de um poema de lentus in umbra: “o estudo me fez espirituoso”. fica numa fronteira idiomática própria de momentos sociais de tensão. guerra. festa. fresta. fantasmagoria. carnaval. é a veia janequiniana do andityas.

daí pra frente, estreitamos a amizade. tive a honra de revisar ponto por ponto a sua inventiva tradução da poeta galega rosalía de castro, o recém publicado a rosa dos claustros (crisálida, 2004). pouco depois, fizemos contínuos trabalhos em torno à poesia de um argentino que ambos admiramos muito (todo mundo já o sabe), juan gelman, grande parceria! o a.s.m. publicou ainda o livreto à boa teta, com poemas licenciosos do século XVI francês.

continua…

FOMEFORTE

“um homem fica muito aterrorizado por uma fome forte;
e esse terror é a raiz de toda crueldade.”
(d.h.lawrence)

tudo isso pra dizer que acaba de chegar o mais novo livro da imensa prole de andityas: FOMEFORTE. também faz parte do selo in vento e esta edição tem a parceria da editora crisálida. a palavra dele amadureceu, as ilusões se acalmaram no peito, as amizades se firmaram. t.s.eliot, rûmi, laforgue, molière. o verso duro é saudado por ninguém menos que glauco mattoso e o nosso grande mestre: juan gelman, que assinam orelha e contra-capa.

a dureza dos poemas é um contrapeso diante de uma coisa incerta que cerceia todo o “poemário”, a insegurança causadora de tensão. como o andityas é um poeta partidário da razão, dá uma puta tentação de enfileirá-lo na turma dos limpinhos e higiênicos poetas da minha geração (não vou citar nomes aqui). mas a verdade é que a poesia desse português das minas (lembrem-se da fama de barbacena torno aos hospícios) respira a uma vivacidade incomodante, misturada com o pedantismo próprio das línguas românicas. pensamento conciliador, o demônio das coisas concluídas e bem arranjadas, a voz dos ofendidos na guerra. vida atual. tempo atual. em cumplicidade com o tempo insistentemente obsoletizante, desobsoletizando-o. contra uma mera moral. a favor de outro tipo de bons costumes.

não é um poeta para escolinhas de adolescentes. não é nenhum partidário da certeza, como tantos. é um cara vivo e atento. antenas viradas para um outro lado sem o grande bocejo da vida dita “real”.

quem quiser encontrar as obras de a.s.m na internet, está fácil: OS enCANTOS e lentus in umbra estão disponíveis na web. leia os livros do andityas aqui.

3 poemas do livro FOMEFORTE

AUDIÇÃO PARTICULAR 2
Violin-Sonate nr: 9 in A-Dur [Opus 47]

já te disse:
lambuza-te de
mel
e terás minha atenção

e t’encontrava
nas plácidas
horas digestivas
(após o almoço)

nada poderia
ferir mais que
a ponta dos joelhos

talvez somente o
1° movimento
da sonata Kreutzer

e tu soavas
a cada gemido

as molas: piano
o gozo: violino

A CAPA DO CRITÉRIO (ESTUDO 2)

mulheres de plástico
é do que precisamos

com seus dedos de plástico
cheiroso transparente (vítreo)
lustroso (vinil) virgem
pisariam as
ruas

haveria delírio frenesi
ruptura

Tiradentes

3.
(excursus)

cravei a memória
do meu sono
neste sino
e perguntei:
é 1 real a entrada?

não, não,
fio,
só si a
pessoa quisé
ajudá
explicit canto

telesur

entrou no ar no último domingo a telesur. a belíssima iniciativa tem sua base na venezuela e estará no ar em toda a américa latina. incluindo o brasil, é claro. o objetivo é uma emissora de tv para uma integração entre todos esses países, facilitando o contato e a irmandade. uma emissora assim já vinha sendo idealizada há muitos anos por intelectuais de grande importância como eduardo galeano (uruguai) e fernando solanas (Argentina). entre os organizadores, tem também o walter salles e o fernado morais. o canal promete. para se ter uma noção melhor da iniciativa, clique aqui.

o endereço do site da emissora é www.telesurtv.net

descoberto uso do valerioduto por eduardo azeredo

deu ontem na primeira página do “o globo” mais um furo jornalístico: encontraram documentos que informam sobre o uso do valerioduto na campanha de 1998 para governador do atual senador eduardo azeredo. a notícia não circulou em minas gerais. os jornalistas mineiros têm medo de noticiar qualquer informação que possa denegrir a imagem do atual governador, o nosso queridíssimo aécio neves que tem o displante de conseguir a demissão de qualquer um que se aventurar a fazer isso.

piores poemas

essas traduções ganharam “menção honrorosa” na bienal dos piores poemas, em 2004. parabéns. os autores? claro, eu, a letícia féres e o anderson almeida.

O Mar Português

Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

……………..

Omar, Português

Mar Morto, Mar Mita, Mar Mota

Omar Salgado, quanto do teu sal
Veio salgar meu bacalhau!
Por nos cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantas noivas na mão ficaram!
Quantas moças estão a navegar
Para que fosses o meu Omar!

Foi bom pra você? Se a sardinha não for pequena
Ainda vale a pena!
Quem quer passar a mão no beijador
Tem que pegar no trovador.
Dei, Omar, para o Pedrinho e pro Francisco dei,
Mas como você jamais provei.

…………………..

Alma minha gentil, que te partiste

Luiz Vaz de Camões

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alg?a cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

…………………

Ó maminha gentil, que te partiste

Para Glauco Mattoso

Cecil B. DeMilus, Sophia DuLoren, Laurinha Trifil

Ó maminha gentil, que te partiste
Tão cedo deste corpo adolescente,
Lembra da tua irmã, discretamente,
E viva eu aqui, sem ti, em riste.

Se lá no lado esquerdo já caíste
E sonhas em voltar aqui pra frente,
E com vergonha a sua dona, deprimente,
Não tem como esconder e fica triste.

E se ainda quiseres reerguer-te
Pois arranjes reforçado sutiã.
Dou-te com bondade esse macete.

É de graça. Mas já sei, caída irmã,
Que por enquanto só vou ver-te
Indo à puta-que-pariu de rolimã.

Poesia aqui e agora

Estado de Minas, Caderno Pensar (19/02/2005)

por Mário Alves Coutinho

Leo Gonçalves, em idade cronológica, é um poeta novo; mas como as vias e os caminhos da poesia são mágicos (mas não só; a poesia é magia, mas realismo também), ele tem um conhecimento e uma sabedoria do mundo que vão além dos anos vividos. Quando ele escreve, num de seus poemas de das infimidades que “um poema bonito/ seria assim assim como um poema conflito”, ele já intuiu, mas provavelmente já deve ter vivenciado, algo que William Blake, já sabia: “Sem opostos não há progresso. Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio, são necessários para a existência humana” (O casamento do céu e do inferno).

Para ele, a beleza não existe somente no ideal, no etéreo, no excepcional, mas na realidade, no cotidiano, no dia-a-dia. Leo Gonçalves é daqueles poetas que procuram pensar e falar da sua experiência, por mais pequena e ínfima que seja, e daí extrair conhecimento, sabedoria, música, quer dizer, poesia. Do etéreo, ele também trata, só que com ironia: “Até gosto às vezes/ de brincar de anjo/ do que não gosto/ é da tremenda dor/ que me fica depois/ nas asas”.

Assim é a poesia de Leonardo Gonçalves: minimalista, reduzida ao essencial, preocupado em extrair beleza (e conhecimento) da vida mesma que ele leva, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Pois, como escreveu Octavio Paz, em O arco e a lira, “o poeta escuta o que o tempo diz, ainda que ele diga: nada”. O tempo pode dizer o amor (“deve ter algo no céu/ da sua boca/ que me faz brilhar”, que lembra outro poema em prosa de Blake, “aquele cuja face não ilumina, nunca se tornará uma estrela”) ou, talvez, o desespero (um poema em que repete os refrões, “e você ria”, “você não vinha”, “você mentia”). Mas o tempo, através de Leonardo Gonçalves, está sempre dizendo que a vida é horror e delícia, claridade e escuridão, noite e dia, tudo junto, inseparável (e é isto que, finalmente, faz a sua beleza): “Quando eu morrer/ favor anotar no final da minha paixão:/ morreu de tanto viver”.

Aí está toda a magia da poesia, em sua beleza e completude: até mesmo o ato de morrer, pode ser, contradição suprema, uma afirmação, na verdade e ainda um ato de vida. Pois, como escreveu William Blake, “tudo que vive é Sagrado”. Ou, como afirmou Octavio Paz, “poesia, momentânea reconciliação: ontem, hoje, amanhã; aqui e ali; tu, eu, ele, nós”. Poesia, como bem sabe Leo Gonçalves, é conflito, mas também reconciliação.