Arquivos mensais: Março 2006

pranto para comover jonathan

os diamantes são indestrutíveis?
mais é meu amor.
o mar é imenso?
meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
ama e nem sabe mais o que ama.

é um poema da adélia prado e está no livro “bagagem”. para ser comido com broa de fubá e cafezinho no final da tarde.

30 anos do golpe militar na argentina

no último dia 24 de março, 10 mil argentinos foram às ruas em protesto pelos 30 anos do golpe militar no país. a ditadura sangrenta (mas não menos que as outras ditaduras latinoamericanas financiadas pelos estados unidos) deixou milhares de mortos, desvalidos e desaparecidos. juan gelman, uma das vítimas mais célebres, teve filhos e neta desaparecida, além da filha torturada e da mãe atormentada.
o exemplo dos argentinos na rua no último dia 24 me deixou pensativo. agora, no próximo dia primeiro de abril completam 42 anos do golpe militar no brasil, e a ditadura que daí decorreu durou ainda mais tempo do que a ditadura argentina. os números que nos chegam e a nossa apatia faz com que tenhamos a impressão de que a ditadura argentina foi muito pior, mas ainda hoje colhemos frutos abundantes-envenenados desse período de pobreza espiritual. cito, apenas a título de exemplo, a ditadura da burrice e a insistência na falta de educação (em todos os campos possíveis).

Roda – Arte e Cultura do Atlântico Negro

para quem não foi no lançamento no dia 21 de março, apenas o toque: esteve belíssima a festa, com grandes apresentações. destaque para a performance dadaísta de renato negrão e o mini-espetáculo-fetichista de benjamin abras. grande brinde: ricardo aleixo e rui moreira lendo alguns dos poemas de léopold sédar senghor traduzidos por mim e publicados na revista. saravá!
agora, aos vivos: a revista está circulando. para conseguir, é necessário contactar a fundação municipal de cultura. Roda – Arte e Cultura do Atlântico Negro é uma das revistas mais interessantes que tive em mãos nos últimos tempos. a considero um importante marco na cultura belorizontina. uma revista futurista. parabéns para os editores. tomara que não chegue ao fim depois do fan. e re-saravá!

saravá, malandro

na próxima terça, dia 21 de março, acontece o saravá de celebração do dia mundial da poesia e do dia internacional de combate à discriminação racial, como mais um episódio do 3º FAN – Festival de Arte Negra. conforme nos explica o jaguadarte, saravá é o nome que haroldo de campos dava aos saraus que ele freqüentava. no palco: grupoPOESIAhoje, benjamin abras, ricardo aleixo, maurício tizumba, renato negrão & mônica aquino, rui moreira.

após o saravá, haverá o lançamento da revista Roda – Arte e Cultura do Atlântico Negro. o salamalandro colabora com uma homenagem ao centenário do poeta senegalês Léopold Sédar Senghor. na revista, ainda: entrevista exclusiva com Moniz Sodré, dossiê do artista plástico Antônio Sérgio Moreira, reportagem sobre a presença das mulheres no funk e no hip-hop.

dia: 21 de março (terça-feira) às 20h

local: centro cultural ufmg – av. santos dumont, 174 – centro

e saravá!

revista etcetera #19 já está no ar

está no ar a revista etcetera#19. belíssima como sempre, traz artigos, poemas, contos e entrevistas sempre de ótima qualidade. para acessá-la, o endereço é www.revistaetcetera.com.br. em outros números, o salamalandro colaborou com poemas. desta vez, tem o artigo “william blake hoje”. mas a revista traz muito mais: artigo sobre o “new journalism”, entevista com o cineasta sérgio bianchi e mais e mais.

notas sobre a realidade

podem dizer o que quiserem, aconteça o que acontecer, a realidade vai continuar sendo o maior enigma da humanidade. por isso, nunca entendo bem o que querem dizer quando falam “cai na real!” ou o famigerado “sejamos realistas!”

daí fui procurar uma meia dúzia de escritores pra tentar entender melhor. encontrei o cioran, que diz: “somente um monstro pode se permitir o luxo de ver as coisas tais como são. mas uma coletividade só subsiste na medida em que cria para si ficções”.

o julio cortázar falou numa entrevista que é completamente apaixonado pela realidade, e isso é bastante significativo, em se tratando da fala de um cronópio. allen ginsberg achava que os seus escritos eram “sanduíches de realidades” e que ninguém estranhe o uso de alucinógenos para se enxergar melhor o tal do mundo, pois um sujeito que se achava mais sério já tinha tentado isso antes, o walter benjamin.

camille paglia, a contro(di)vertida filósofa norteamericana faz dessas palavras de george eliot as suas: “se tivéssemos uma aguda visão e sensação de toda vida humana comum, seria como ouvir a relva crescer e o coração do esquilo bater, e morreríamos desse rugido que está do outro lado do silêncio. na verdade, mesmo os mais rápidos de nós andam por aí bem acolchoados de bastante estupidez”.

será por isso que shakespeare acha que “há mais coisas entre o céu e a terra do que vossa vã filosofia possa imaginar”? e o t.s.eliot, aquele inglês americano, em seu primeiro dos quatro quartetos acrescenta:

“vai vai vai disse o pássaro

o gênero humano não pode suportar

tanta realidade”

será que ele está falando da mesma coisa que a sua xará de sobrenome?

eu ouvi dizer que o freud, o nietzsche e o marx fizeram uma teorias bastante engenhosas sobre o assunto. se ninguém tivesse falado em realismo, ninguém falaria em surrealismo nem em realismo fantástico e nem em realismo mágico.

tudo bem, mas aqui no brasil, realidade quer dizer (pode perguntar para o senso comum) “aquilo que se lê nos jornais. e alguns se crêem informados sobre a “realidade” quando se dizem pessimistas ou mesmo quando falam de política.

mas o jogo da imprensa é tão ridículo como qualquer novela da globo: sem querer, ou às vezes querendo, a imprensa canoniza idéias mal-formuladas que se tornam grandes preconceitos para o populacho. populacho que, aliás, não está quase nunca preparado para assimilar conceitos, mas quase sempre está em ponto de bala para proferi-los como quem sabe da “realidade” (afinal, eu leio a veja toda semana)

dizem que a poesia é delírio. mas em meados do século xx, em lugares mais precários do nordeste onde não chegava a imprensa escrita (ou o povo não sabia ler) e mesmo o rádio só chegava cheio de chiado, ninguém acreditava em nada enquanto não vinha o cordelista com a sua rabeca e versejava as notícias tintim por tintim.

o conceito de realidade está muito ligado a seus inversos: ficção (que é a vida) e auto-engano. e eis que aparece eduardo giannetti dizendo “só engana a si mesmo quem não quer fazer isso.” e é por esse meio que acabamos por nos esquecermos de que a origem da incapacidade brasileira para falar de política não está na decepção, como supõe a maioria, mas por causa do medo (essa droga pesada): “se cumpade fala mau do patrão, o patrão vem e ouve e mata, sô!”

e assim a teoria da realidade acaba por engolir o próprio rabo, nos colocando de novo e sempre diante das velhas questões: o que é? quem é? como é? de onde emana? para que serve? somos nefelibatas então? é esse o enigma? a realidade é o jardim dos sendeiros que se bifurcam?