Arquivos mensais: julho 2007

um poema de antonio cicero

guardar

guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
em cofre não se guarda coisa alguma.
em cofre perde-se a coisa à vista.

guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela,
isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.

por isso melhor se guarda um vôo de um pássaro
do que um pássaro sem vôos.

por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
para guardá-lo:
para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
guarde o que quer que guarda um poema:
por isso o lance do poema:
por guardar-se o que se quer guardar.

belvedere bonito de ver

de vez em quando, aparecem estrelas no meio da rua. demorou para verem que o chacal está na área. há 35 anos atrás, o torquato neto avisava na sua geléia geral que tinha um cara na área. hoje, passada muita zoação, muita festa, muito baco, muito cep20000 e tontas coisas… já era hora.

o belvedere do chacal tá lindão. da coleção ás de colete, da parceria 7letras/cosacnaify. uma capa verdona e um adendo chamado quamperios pra dar o clima da época do mimeógrafo.

chacal explica:

belvedere é um lugar que você vai para ver a vista. tinha um no final da serra das araras, na rio-são paulo, onde eu parava sempre que ia para Mendes com a minha família nas férias. naquele tempo, as viagens de carro eram custosas. depois de algumas horas rodando, chegávamos ao belvedere. era a festa. comer, beber, correr. assim é que eu me sinto aqui neste livro. depois de 36 anos de exercício poético e 13 livros publicados, dou essa parada estratégica para ver a vista. espero que você, leitor, possa se alimentar e se divertir, possa ler, ver e ouvir.

saravá! evoé!

acho que cai bem pra ocasião, o penúltimo poema do primeiro livro dele: o muito prazer.

sorte

hoje deu meu número na roleta da vida

programa petrobrás cultural

no último dia 11 saiu o resultado do programa petrobrás cultural. detalhe interessante: nesta edição a petrobrás resolveu destinar uma parte do seu investimento em literatura. uma antiga demanda do setor, dizia num parêntesis o edital de dezembro/2006. ficava implícita a atuação do movimento literatura urgente nesse sentido. e logo, essa abertura gerou de imediato uma séria discussão sobre as condições do programa. a empresa se propunha investir naqueles escritores “que já mostraram anteriormente a importância do seu trabalho”. assim, o autor deveria ter em seu currículo pelo menos 1 livro publicado e com isbn, além de um contrato já fechado com alguma editora com registro legal.

marcelo sahea, ricardo aleixo e ademir assunção levantaram em seus respectivos blogues as melhores questões e foram em cheio: qualquer um sabe que poetas no brasil sempre publicam “às próprias custas s. a.” apenas alguns poucos se deram o trabalho de correr atrás de editora e de registro na biblioteca nacional. partindo desses princípios, quem sairia em primazia seria a ficção.

tratavam-se de discussões interessantes surgidas num momento inoportuno, na minha opinião. e fiquei calado. afinal, era a primeira vez que um programa como esses surgia no cenário nacional, já tão carente de boas iniciativas. a minha reação foi me deparar com um outro problema que colocava já em crise a exigência da petrobrás: como vocês podem ver aí ao lado, meus livros publicados são em sua maioria tradução de poesia e meu único livro de poemas passa muito longe de um registro comercial. para falar verdade, não penso nem sequer em me dar a tal trabalho por razão nenhuma. por outro lado, considero esses trabalhos de tradução tão importantes quanto meu trabalho criativo, pois me abre uma porta pouco freqüentada por quem escreve que é a do intercâmbio de idéias (e de poéticas) no ato de criação.

decidi então que inscreveria o meu “tratado de pequenos crimes”. de certa forma já sabia que não seria contemplado, mas achava necessário fazê-lo. politicamente mesmo. para que a questão se fizesse um problema real no ato da escolha. para criar um pouco de dúvidas quanto às regras.

não posso negar que cultivei uma certa expectativa. mas também, não posso deixar de ficar contente pelos poetas que alcançaram a distinção: ricardo aleixo, chacal (o livro dele é uma ficção!), sérgio alcides, rodrigo de souza leão, josely vianna baptista…

recebi a seguinte mensagem da petrobrás na manhã do dia 11:

a grande quantidade de projetos inscritos, a excelente qualidade apresentada e a limitação dos recursos disponíveis para atendê-los tornou extremamente difícil a escolha final. por essa razão, caso seu projeto não tenha sido contemplado, gostaríamos de esclarecer que a abertura de inscrições de projetos para a edição 2007/2008 será anunciada em breve no site da empresa, não havendo qualquer impedimento de re-inscrição de seu projeto.

bem, não sei se re-inscreverei o meu tratado. mas acho que o saldo é positivo. fico sonhando que outras empresas também tomem iniciativas desse tipo.

slow food brasil

você sabe o que é fast-food? se não sabe, pelo menos faz uso. o rango rápido é a comida mais consumida nas cidades do mundo. sanduba, pizza pedaço, coxinha, esfirra a $0,59, refri lata, pão de queijo, restaurante self-service. quem é adepto assumido sabe que há um certo prazer tosco de se estar caminhando pela rua e de repente, parar numa lanchonete para pegar um misto quente e ainda por cima sair andando pela rua comendo com a mão esquerda e bebendo uma soda limonada na mão direita.
um prazer tosco, eu disse. típico de gente que corre o dia inteiro. um prazer nada gustativo. pura aventura.
a alternativa a isso se chama slow food. o rango lento. trata-se de um movimento pelo prazer de se saborear não apenas a comida, mas tudo aquilo que se pode gozar calmamente. um jeito simples de trazer de volta o ato de comer à vida. afinal, uma das 9 musas era cozinheira.
e agora acaba de entrar no ar o site do slow food brasil. eles sempre capricham no projeto gráfico e o site não podia ser diferente. quem fez foi meu amigo: o marcelo terça-nada! deguste lentamente.

mais notícias pela bloguesfera afora

chacal lança na flip o livro belvedere, que reune a poesia dele até aqui.

comentário: a notícia de que saiu essa reunião dos 36 anos de criatividade do chacal me deixou letrelétrico e me trouxe muito prazer. afinal, é tão difícil achar os livros dele. e a vida é curta para ser pequena. (www.chacalog.zip.net)
marcelo sahea, inventor de uma coisa divertida chamada poegifs, lança o seu novo site. visceral. está ainda em construção, mas já dá para passear por lá.
comentário: o site está lindão. marcelo sahea não é só um poeta em carne viva, mas um puta artista gráfico. passa lá: www.sahea.net (www.poesilha.blogspot.com)

marcelo terça-nada! criou há alguns dias uma coisa bacana: um centro de informações bloguísticas chamado vizinhança. comentário: de idéias boas é que o mundo vive. leio jornais e acho uma merda. só consigo me ver realmente informado quando dou uma passada pelos blogues. (www.virgulaimagem.redezero.org)

renato negrão, makely ka e chico de paula vão a ouro preto dar a oficina de “desespecialização artística”. de 16 a 20 de julho. comentário: grande sacada essa. a proposta vai na contramão do capitalismo atual onde o mais bonito é sempre ser cada vez mais especialista. saber cada vez mais sobre cada vez menos. (www.nocalo.blogspot.com)
lenise regina retoma a sua palavra sem nome, dando a palavra ao poeta-repórter especial julius cesar, que está cobrindo a flip – festa literária de parati. lá também você tem mais notícias sobre o belonovo livro do chacal. comentário: regina é palavra latina e quer dizer rainha. ela e seu césar. não é à toa que a letícia, a rainha do trocadilho chama ela de primeira dama. êh lindeza! (www.poesiahoje.art.br/palavrasemnome)

a morte de josé agrippino de paula

1967 foi um ano chave. glauber rocha lançava terra em transe. zé celso martinez entrava em cartaz no teatro oficina com o rei da vela de oswald de andrade. a tropicália a toda. na literatura: josé agripino de paula lançava o seu panamérica. caetano na vitrola: “panaméricas de áfricas utópicas/túmulo do samba mais possível/novo kilombo de zumbi”

passaram-se 40 anos. o teatro oficina do zé celso continua sua luta pela sobrevivência num país que é ainda o túmulo do samba mais possível. e do samba menos possível também.

passaram-se 40 anos e josé agrippino passa dessa para uma melhor. falecido em 04 de julho. sem louros, sem reconhecimento que valha os 40 anos de sua panamérica. silencioso. uma pena. me faz pensar em pound:

“os artistas são as antenas; um animal que negligencia os avisos de suas percepções necessita de enormes poderes de resistência para sobreviver.

os nossos mais delicados sentidos estão protegidos, o olho por um alvéolo ósseo, etc.

uma nação que negligencia as percepções de seus artistas entra em declínio. depois de um certo tempo ela cessa de agir e apenas sobrevive”.

daqui eu vejo ademir assunção esbravejando de sua espelunca. compartilho da sua ira.
boa viagem, agrippino.

Um título não é um livro

Não gosto muito do título desta tradução. No original ele se chama ABC of reading. Mas não é por isso que eu não gosto, não é por causa da pretensa “fidelidade” ao original. Até acho que Abc da leitura não ficaria tão elegante. O Brasil é um país de analfabetos. Se deixassem assim, Abc da leitura, poderia acontecer de um político metido a besta querer obrigar as escolas de ensino fundamental a adotá-lo como cartilha básica para alfabetizar a criançada.

Mas um título não é um livro.
Li na segunda passada no blogue do Ademir Assunção:

“Pound, aliás, me salvou do infortúnio de ter que ler vários chatos. Me serviu o filé minhon, num livro básico chamado Abc da literatura“.

Acho que ele salvou a mim também. Se hoje me sinto capaz de dar alguma opinião sincera e independente sobre qualquer texto, devo isto a Ezra Pound.

O li pela primeira vez quando tinha apenas 18 anos e, na época, não pude assimilar tão bem as coisas que ele diz. Recentemente, preparando a palestra “Sobre a poesia: Juan Gelman”, que apresentei em uma universidade do interior de Minas, percebi o quanto Pound contribui para o que se faz hoje.

Acho que os mestres da faculdade deveriam dar a este livro o seu devido valor. Pound faz nada menos que devolver sentido às coisas. Tarefa simples quanto às pretensões, difícil quanto à importância e a responsa.

Parece que a única coisa que realmente vale a pena enquanto crítica, a meu ver, é isto: devolver sentido às coisas que o vão perdendo com o tempo, as chuvas e as tempestades. Elaborar é dar um ponto de partida, chute inicial.

Por exemplo: todos os dias eu vejo uma menina que me deixa de cabeça virada. No entanto, eu nunca pensei a fundo sobre isto. Um dia, ela passa com outro. Ou seja, sobrei. Daí, surge a importância de se elaborar.

A menina passa por mim. Decido pensar sobre isto para que eu tenha algo a lhe dizer. Pronto. Ela pode até me dizer que não quer nada comigo, mas pelo menos terei pensado e feito algo a respeito.

O poeta é a antena: mas não basta apenas perceber. É necessário elaborar e tornar palpável aquilo que a percepção anuncia. Daí que na poesia se encontre muito mais realidade do que em qualquer Flaubert. A poesia exige olhos atentos para o real. Por isso é que Pound tem todo um cuidado, um apego pelos termos bem colocados. Para que funcionem. Sendo assim, ele é um pouco contra a literatura. Diz que poesia não é literatura, pois está mais perto das artes plásticas e da música. E tem razão.

Acho que é por isso que não gosto do título deste livro em português. Mas não proponho solução possível. Um título não é o livro.