Arquivos mensais: agosto 2007

andityas soares de moura

meu amigo andityas acaba de publicar este poema na revista portuguesa oficina de poesia e me mandou por email. também quero compartilhá-lo com vocês.

Língua de fogo do não

Não se pode escrever o poema.

Os tempos são duros, inflexíveis.
Taciturnos até. Dão “bons dias”
por obrigação e recato.

Não se pode sequer ler o poema.

As pessoas andam cabisbaixas,
Riem à toa – como patetas – e morrem.
Morrem como quem nunca quis nada.

Não se pode nem mesmo pensar o poema.

É proibido.
É indecente o poema.

O poema não produz dividendos. Não distribui lucros. Não faz dormir melhor. O poema não sorri nas campanhas eleitorais.

O poema não gosta de telenovela e nem está preocupado em como estacionar no shopping-center.

O poema não quer ter filhos, se casar e planejar férias anuais. Não tem e nem faz economias.

O poema não deixa e não anota recados.

O poema não investe em ações, não paga imposto de renda e não sabe como se portar à mesa com dignidade e fineza.

O poema não acredita na Previdência Social.

O poema não toma banho todos os dias. Não paga a escola das crianças. Sequer ajuda a financiar os cursos de inglês de que elas tanto precisam para subir na vida.

O poema não tem cartão de crédito e nem religião. Jamais freqüenta bailes de debutantes e nunca foi visto nas festas de Natal da empresa.
O poema não vai ao barzinho da moda.

O poema nunca está no escritório.

O poema não faz visitas sociais. Não tem celular e não confia nas urnas eletrônicas. O poema não está deprimido.

O poema falta às sessões ordinárias da Academia de Letras.

O poema não come todas.

O poema não é tributável. Nem atóxico, inodoro ou inquebrável.

O poema não sabe ficar quietinho.

O poema não pode ser preso.

Nem torturado, morto, estuprado, sequestrado, mutilado, roubado, operado, sodomizado, reeducado, dopado, humilhado, bombardeado, conquistado, saqueado, raptado, ameaçado, multado, eletrocutado, queimado, furado, cegado, crucificado, desmembrado, enforcado, guilhotinado, pisado, garroteado, picado, partido, moído, quebrado, cortado, empalado, frito, cozido, assado, esquecido, vencido, lavado, desintoxicado, trucidado, massacrado, escravizado, humanizado, podado, censurado, amarrado, enganado, corrompido, comprado, convencido, julgado, condenado, apenado, difamado, injuriado, caluniado, desacreditado, distorcido, adulterado, anulado ou apagado.

O poema também não pode ser calado.

O poema é um comilão, um vagabundo, um inútil mesmo.

Isso é o que ele é.

………………..

Infame ter de se concentrar para sentir
o pejo de um mundo sem poesia.

lançamento do jornal dez faces

no dia 24 de agosto, acontece o lançamento do jornal dez faces, editado por marcelo dolabela, camilo lara, luciana tonelli e cia. e foi a convite de luciana que colaborei para este número 10 com um poema meu. para quem não puder ler o convite acima, o evento acontece no matriz (terminal turístico jk – bhmg) a partir das 20h. a partir das 22h tem a apresentação das bandas patife band, ballet, herói do mal, los borrachos e caveira, my friend. apareçam. não é todo dia que rola poesia com rock’n roll nesta cidade.

não macule a minha faca


“quem com letícia féres, confere e será querido”.
imperdível. nas terças poéticas: jardins internos do palácio das artes. hilda hilst homenageando letícia féres. letícia féres homenageando hilda hilst. poesia em alta voltagem. samplermusic & videocolagem. julius. frederico pessoa. poesia hoje. queria conseguir dizer mais. mas precisa? vá lá e comente depois aqui comigo, vai.

à amada esquiva

dessem-nos tempo e espaço afora
não fora crime essa esquivez, senhora.
sentar-nos-íamos tranqüilos
a figurar de modos mil os
nossos dias de amor. eu com as águas
do humber choraria minhas mágoas;
tu podias colher rubis à margem
do ganges. que eu me declarasse
dez anos antes do dilúvio! teus
nãos voltar-me-iam a face
até a conversão dos judeus.
meu amor vegetal crescendo vasto,
mais vasto que os impérios, e mais lento,
mil anos para contemplar-te a testa
e os olhos levaria. mais duzentos
para adorar cada peito,
e trinta mil para o resto.
um século para cada parte,
o último para o coração tomar-te.
pois, dama, vales tudo o que ofereço,
nem te amaria por mais baixo preço.
mas ao meu dorso eu ouço o alado
carro do tempo, perto, perto,
e adiante há apenas o deserto
sem fim da eternidade.

tua beleza murchará mais tarde,
teus frios mármores não soarão
com ecos do meu canto: então
os vermes hão de pôr à prova
essa comprida virgindade,
tua fina honra convertendo em pó,
e em cinzas meu desejo. a cova
é ótimo e íntimo recanto. só
que aos amantes não serve de alcova.
agora, enquanto pousa a cor
da juventude em ti como na flor
o orvalho, enquanto por
todo poro teu a alma transpira
com urgentes fogos,
entreguemo-nos aos jogos
do amor e, amantes aves de rapina,
antes de um golpe devoremos nosso tempo
que enlagueçamos em seu lento
queixo. enrolemos nosso alento
e suavidade numa só esfera.
e rasguemos prazeres como feras
pelos portões férreos da vida.
assim, se não sustamos nosso sol,
ao menos o incitamos à corrida.

é do andrew marvell (1621 – 1678) to his coy mistress,
e a tradução é de augusto de campos (verso, reverso, controverso. ed. perspectiva, 1978)