Arquivos mensais: fevereiro 2008

carne viva aos vivos

“carne viva” de marcelo sahea. edição do autor, 2003

a minha ida a brasília no último novembro foi, talvez, a semana mais importante do meu 2007. dentre as muitas coisas boas que fiz (pouco a pouco elas vão aparecendo aqui), destaco um momento, alguns pouquíssimos minutos, em que estivemos na companhia de marcelo sahea, e pudemos trocar presentes. ganhei dois belos livros: “carne viva” e “leve”. dois livros delicados, tão pequenos que quase cabem na palma da mão e com um conteúdo de rasgar o ventre!

pois é. esse sahea, que é um dos melhores poetas da minha geração (e olha que me considero parte de uma geração privilegiada!), tomou uma excelente iniciativa: ele acaba de disponibilizar o seu primeiro livro “carne viva” para baixar. eu recomendo. o processo é simples e barato: basta ir até o site do marcelo (www.sahea.net) e clicar lá no link. quer mamata maior?

bem, se não estiver conseguindo, clique aqui que o marcelo te explica.

mais um poema da série

espreita matreiro entre as folhas de relva
essa caça não é presa fácil
silêncio (a pausa exata
entre o salto da caça
e o gesto do caçador)
o cara que caça
acha a faro
o aro da presa
o arco retesa
se ergue se abaixa
o vento uiva em seus ouvidos
e mesmo de olhos abertos
e mesmo de olhos fechados
a flecha voa e acerta de cheio
uma palavra de carne: mutacalambô*

*mutacalambô: um dos nomes do orixá “oxossi” nos terreiros de angola. segundo a tradição, teria sido no local onde caiu a flecha de oxossi é que se fundou a nação de ketu. grande parte dos terreiros brasileiros de umbanda e de candomblé são consagrados a esse importante orixá. alguns o identificam com são jorge (na bahia especialmente), mas na simbiose afrocristã, o mais recorrente é são sebastião, um santo rebelde.

quando se fala em mutacalambô, o caçador, pensa-se automaticamente nas matas e na fartura. mas numa visita recente ao rio de janeiro, percebi que ele tem uma fortíssima presença, talvez em termos de malandragem, naquela cidade conhecida nos tempos coloniais como cidade de são sebastião.

boca no trombone

revista (in)vejaestá lá no arquivo do luis nassif:

“O maior fenômeno de anti-jornalismo dos últimos anos foi o que ocorreu com a revista Veja. Gradativamente, o maior semanário brasileiro foi se transformando em um pasquim sem compromisso com o jornalismo, recorrendo a ataques desqualificadores contra quem atravessasse seu caminho, envolvendo-se em guerras comerciais e aceitando que suas páginas e sites abrigassem matérias e colunas do mais puro esgoto jornalístico”.

chantagens, lobbys, dossiês falsos, difamações. o colunista econômico da folha de são paulo, resolveu fazer jornalismo de qualidade, mostrando as entrelinhas do maior semanário do país. digamos que não era bem um segredo o fato de que a revista veja vive atolada até o último fio de cabelo com falcatruas para se manter numa espécie de poder. se a política brasileira está como está, sabemos que um dos principais responsáveis por isto é a imprensa – que de uns 20 anos pra cá passou a ser a entidade mais poderosa e dominadora da opinião pública.

para completar, a revista veja (e outras, diga-se de passagem, que seguem a mesma linha editorial) se transformou num divulgador de superficialidades, onde o que mais se procura não é a informação, mas o efeito. digamos que, mesmo que o que foi dito não seja comprovado em investigações posteriores, a difamação já está feita e a opinião pública abalada. não é difícil imaginar o grau de sordidez que rola no dia-a-dia de um tão respeitável estabelecimento.

só que é difícil ficar dizendo as coisas, passando por louco falador. as pessoas por aí dizem: “isso é mania de conspiração”. dizem “mas é você que é um partidário deste ou daquele que a revista fala mal”. dizem que eu falo as coisas só para chocar. pois bem: agora temos relatos de quem convive com o malestar há mais de 15 anos. palavra de quem sabe.

confira com seus próprios olhos: www.luis.nassif.googlepages.com

a deusa das lascivas pompas – um poema de cruz e sousa

Afra

Ressurges dos mistérios da luxúria,
Afra, tentada pelos verdes pomos,
Entre os silvos magnéticos e os gnomos
Maravilhosos da paixão purpúrea.

Carne explosiva em pólvora e fúria
De desejos pagãos, por entre gnomos
Da virgindade — casquinantes momos
Ruído da carne já votada à incúria.

Votada cedo ao lânguido abandono,
Aos mórbidos delíquios como ao sono,
Do gozo haurindo os venenosos sucos,

Sonho-te a deusa das lascivas pompas,
A proclamar, impávida por trompas,
Amores mais estéreis que os eunucos.

(de broquéis, primeiro livro de cruz e sousa)

revista zunai #14

revista zunái #14a nova revista zunai está super legal. repleta de temas interessantes: ensaio sobre waly salomão assinado pelo flávio boaventura (o boave), ensaios sobre william blake, torquato neto, agamben, poemas de armando freitas filho, e. m. de melo e castro, rodrigo garcia lopes, traduções de poemas de jorge luís borges, alejo carpentier, jim morrisson, emily dickinson, tanta coisa. a revista é editada pelos poetas claudio daniel e rodrigo de souza leão e o projeto gráfico quem faz é a ana peluso.

vá lá: www.revistazunai.com.br

revista etcetera #22

revista etcetera #22

queridos, já está no ar a revista etcetera #22. comandada por sandro eduardo saraiva, a revista é para mim um dos mais interessantes acontecimentos da internet. sempre um artigo instigante ou uma invenção divertida dos editores. neste número tem um artigo interessantíssimo do marcelo ikeda sobre o cinema entitulado: do MAM ao emule: as transformações do acesso a filmes e o cinema contemporâneo. além disso, e mais alguns artigos sobre poesia & literatura, um encarte maravilhoso chamado sub (e-zine, inventado pelo sandro) e o especial “os melhores discos de nossas vidas”. vale a pena conferir.

www.revistaetcetera.com.br

 

outro poema

caiaia

cai água
cai água
cai água
ai ai ai
cai água

cai água
que é doce
cai água
que é sal
cai água
cai água

cai água
no mar
cai água
no lá-
crimejar
cai água

cai gota
com gota
cai gota
cai gota
cai gota

me leva na
enchente um
presente
de lírios
e a pele
menina
desliza

cai água
de leve
na escala
cai água
cai água
de leve
que ela é
delicada

e brava
com calma
cai água
da palma
cai água
cai água
cai água

menina
de saia
com mecha
ondulada
regala
de flores
a orla
da praia
cai água
cai água
cai água

*caiaia, caiala, mikaia: são alguns dos nomes banto da divindade afro-brasileira mais amada do brasil, melhor conhecida como iemanjá.