Arquivos mensais: abril 2008

saudades do movimento literatura urgente

tenho sentido muita falta das discussões em torno às políticas públicas de fomento à literatura. o movimento literatura urgente eclodiu em meados de 2004, exatamente na época que saía o meu “das infimidades” e a minha tradução de “isso”. lembro que a provocação começou nos blogues do ricardo aleixo e do ademir assunção, logo ganhando visibilidade e se transformando num conjunto de ações reais. houve um grande debate repleto de propostas e a adesão de quase duzentos escritores. os integrantes do movimento entregaram solenemente ao ministro gilberto gil e ao então coordenador nacional do livro, galeno amorim, o manifesto “temos fome de literatura”. lembro-me de ter participado de algumas reuniões, aqui, em belo horizonte, onde havia um grupo bem alentado de pessoas interessadas.

a discussão ganhou bastante espaço entre 2004 e 2005. tenho a nítida impressão que a inclusão do item produção literária no programa petrobrás cultural (veja o texto abaixo) é um efeito positivo dessas discussões. o efeito negativo correu por conta da triste postura da veja, que quis sabotar a idéia -o que já era de se esperar, uma vez que a revista é a porta voz de todos os oligopólios culturais, políticos e industriais do brasil e tem um cuidado todo especial para com os potenciais best-sellers das grandes editoras e faz questão de defender qualquer um que ameace esses oligopólios.

eu estava extasiado, há pouco, relendo o manifesto e fiquei pensando: por que essas coisas nunca ganham um lugar ao sol por aqui? eu penso isso, lembrando o tempo todo do velho sábio darcy ribeiro dizendo: “então, o maior desafio é decidir qual o brasil que nós queremos inventar”.

difícil isso, num país tão imaturo.

para ler o manifesto com suas excelentes propostas que continuam atuais, clique aqui: [manifesto “temos fome de literatura”]

programa petrobrás cultural

de acordo com o prometido, a petrobrás lançou hoje notícias sobre o programa, que está passando por uma profunda reformulação, fruto da experiência de várias edições e das diversas críticas que andaram circulando nos últimos cinco anos. mas aviso aos navegantes: eu disse notícias, e não o edital. este sairá em alguns dias, depois da aprovação dos integrantes do conselho.

As inscrições para o PPC 2008/2009 serão abertas no dia 15 de outubro. Publicaremos os Regulamentos com excepcional antecedência, uma vez que, a partir desta nova Edição, o PPC passa a exigir, no momento da inscrição, a prévia aprovação do projeto na Lei Federal de Incentivo à Cultura.

(www2.petrobras.com.br/cultura/ppc/index.asp)

mcluhan

confusões inumeráveis e um profundo sentimento de desespero emergem invariavelmente nos períodos de grandes transições tecnológicas e culturais. a nossa “idade da angústia” é, em grande parte, o resultado de se tentar cumprir as tarefas de hoje com as ferramentas de ontem – com os conceitos de ontem.

marshall mcluhan. os meios são as massa-gens (um inventário de efeitos). rj: record, 1969

polemizar o não polemizar?

o esquema montado por ricardo silveira para resumir a polêmica

há alguns dias eu li um texto no blogue da letícia (poesia e mercadoria) que me deixou bem pensativo. pensei em comentar ou publicar algo aqui neste blogue, mas não me dei o trabalho. somente alguns dias depois, o bruno, no seu bloguetour se deparou com o texto e resolveu comentar lá, no sabor graxa.

faço um pequeno resumo: letícia acha que poesia não é mercadoria e que é um absurdo pensar que alguém queira preencher “poeta” nos dados pessoais. bruno também não gosta desse papo sobre “dados pessoais”, mas discorda quanto à forma de se discutir se poesia vende ou não vende. o assunto reverberou: e outro amigo, o marcelo sahea deixou lá no poesilha o seu comentário. teve também o ricardo silveira (veja o esquema inventado por ele, acima) e o makely que deram as suas beliscadinhas.

se o assunto fosse novo e não provocasse ninguém, o papo teria se encerrado lá no blogue da letícia, mas como todo poeta tem que arranjar um jeito de sobreviver sem deixar de empregar uma imensa parte do seu tempo em poesia, a questão deu pano pra manga. e acho que deveria dar ainda mais. portanto, segue a minha colaboração:

1. dizer que um poeta tem a pretensão de escrever “poeta” nos dados pessoais é um disparate, que eu mesmo já disparei por aí muitas vezes, apenas para causar efeito. isso está na cara. a pretensa profissão “poeta”, embora uma das mais antigas (quase tão antiga quanto a prostituição), não entrou para o capitalismo. e nem poderia. já que a lógica inventada no mundo da grana é diametralmente oposta à idéia de se gastar o tempo com algo sem mais valia. citando a letícia: “acredito que o trecho do leminski tenha relação com a idéia de que a finalidade da poesia não é o mercado.”

gosto de contar histórias: já perguntei a muito poeta sobre essa questão que diz respeito à sua colocação diante de uma sociedade que te quer sempre um especificialista. o antônio cícero me disse que às vezes (em algumas raras vezes) preenche lá, um pouco sem graça (ele é bem reservado), não a palavra “poeta, mas “escritor”. segundo ele, as pessoas normalmente olham de lado, entre admirativas e desconfiadas. mas ele também me contou que joan brossa, mais para o final da vida, recebia uma espécie de salário vitalício da prefeitura de barcelona, apenas por ser o que ele era. hoje eu fico pensando o que poetas como allen ginsberg e waly salomão respondiam quando eram perguntados sobre o assunto.

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obras para obrar

uma editora espanhola acaba de lançar seus livros em formato papel higiênico. a excelente idéia já está repleta de adeptos e interessados, inclusive aqui, no hemisfério sul. um dos argumentos da editora em favor do novo formato, é a citação de Rubén: “a literatura se recicla nas mentes, e não na estante”. confira o catálogo completo no site da editora: www.literaturaenpapelhigienico.com

notícia colhida nos blogues: lâmpada e poesilha.

Homenagem a Aimé Césaire

negro spirituals
a aimé césaire

que a sua alma vibre sua cor
no cortejo que a leve
leve segundo eguns
num retorno à terra natal

vestiremos nosso luto branco
iremos celebrar a sua nova coorte
elelelê epababá amigo aimé
o seu novo lugar

que a alma cante malandra
numa língua de aruanda
o negro spirituals
acompanhando sua travessia

comming for to care you
at home

povo se despede de aimé césaire na martinica

segue abaixo, uma das poucas notícias da morte de césaire em língua portuguesa. na chamada, não encontrei o nome do jornalista que a escreveu. em todo caso, parece ser uma tradução de letra a letra de um texto que saiu, se não me engano na rfi (radio france internationale).

FORT-DE-FRANCE (AFP) — Uma multidão compareceu neste sábado ao velório do poeta Aimé Césaire na Martinica, no estádio de Dillon, em Fort-de-France, onde no domingo serão realizadas as homenagens nacionais.

O caixão percorreu a cidade na sexta-feira, sob aplausos de milhares de pessoas que acompanharam o cortejo fúnebre para dar o último adeus ao pai do movimento “negritude” e principal figura política da ilha durante mais de meio século. Césaire faleceu na quinta-feira, aos 94 anos.

O presidente francês Nicolas Sarkozy irá à Martinica para assistir à cerimônia de enterro do escritor, poeta, autor teatral, ensaísta e homem político de esquerda.

Sarkozy saudou Aimé Césaire como um “símbolo de esperança para os povos oprimidos”.

O velório popular continuará até domingo, quando o poeta será sepultado com honras de Estado, privilégio concedido até hoje na França apenas aos escritores Victor Hugo, Paul Valéry, em 1945, e Colette, em 1954.

meu comentário fica por conta do silêncio brasileiro em torno a este acontecimento, tendo em vista ter sido este um dos personagens decisivos do século xx, não apenas por sua atuação como poeta e ensaísta, mas também como político e como rebelde. o poeta, que foi saudado por andré breton e por jean-paul sartre, morreu como um dos homens mais ilustres e influentes do planeta, um personagem tão importante quanto um nelson mandela da vida.

a existência dele no mundo nos fazia lembrar que a poesia pode, sim, ser instrumento de transformação. e que um poeta vivo mantém viva com ele a memória de tempos imemoriais. tempos que antecedem não só a idéia de mercadoria, dinheiro e exploração do homem pelo homem. tempos que antecedem a própria idéia de poesia.

leia também o comentário de marcelo coelho (da folha de são paulo) e sua tradução do poema “soleil serpent“. [ aqui ]

aimé césaire, um negro essencial

fuçando no youtube, encontrei este vídeo curtinho que mostra um pouco do universo de césaire, sua martinica. segue abaixo a transcrição, a título de legenda.

quem é este homem franzino que foge da mídia mas que todos os grandes do mundo vêm saudá-lo na sua ilha da martinica?

ao um tempo poeta, escritor, homem político, aimé césaire é antes de tudo um pioneiro que teve a coragem de defender orgulhosamente sua cor negra e deixar também a sua marca no século xx.

ardente defensor dos valores de esquerda, césaire se define como um socialista conseqüente. o que significa para ele, manter-se permanentemente à escuta de seu povo.

hoje, com mais de 90 anos, aimé césaire continua a receber todo dia no seu escritório na antiga prefeitura de fort-de-france, as personalidades do mundo inteiro, mas também, e principalmente: os simples habitantes da martinica.