Arquivos mensais: maio 2008

sociedades do espetáculo

o livro “la societé du spectacle” teve sua primeira edição em 1967, o ano em que a terra estava em transe. nos anos seguintes, guy debord, seu autor, pôde confirmar muitas das coisas que ali estavam profetizadas (fico imaginando o que ele diria hoje, depois do espetáculo do world trade center, das campanhas eleitorais de países como o brasil e os estados unidos ou da espetacularização do assassinato de crianças, transformando os criminosos em verdadeiros astros pop às avessas).

em 1988, pensando nisso, ele escreveu os “comentários à sociedade do espetáculo”. foi por essa época que saiu na itália o livro “la societá dello spetacolo”, com posfácio entitulado “Glosas marginais aos “Comentários sobre a sociedade do espetáculo”” de giorgio agamben. texto inédito em livro no brasil. agora traduzido por joão gabriel e disponível no blogue dele: l’autre nom.

no texto, o filósofo italiano comenta coisas como o acontecimento de timisoara, à época do fim do regime comunista na romênia (“pela primeira vez na história da humanidade, cadáveres recentemente enterrados ou alinhados sobre as mesas dos necrotérios foram exumados rapidamente e torturados para simular diante das câmeras o genocídio que deveria legitimar o novo regime”.) e a legitimação de um estado espetacular (ou democracia-espetacular). deixo com vocês uma palhinha:

pela primeira vez na história do século, as duas grandes potências mundiais são dirigidas por duas emanações dos serviços secretos: bush (antigo chefe da CIA) e gorbatchov (o homem de andropov); e mais eles concentram o poder em suas mãos, mais isto é saudado, pelo novo ciclo do espetáculo, como uma vitória da democracia. a despeito das aparências, a organização democrática espetacular mundial que se desenha assim corre o risco de ser, na realidade, a pior tirania que jamais foi conhecida na história da humanidade, por relação a qual toda resistência e oposição se tornarão mais difíceis, visto que assim ela terá por tarefa administrar a sobrevivência da humanidade para um mundo habitável pelo homem.

giorgio agamben, 1991

zunái – um caleidoscópio de maravilhas

ESCRITO NO MEU SONHO POR W. C. WILLIAMS

“Já que você
carrega

uma
conhecida

verdade
Mais

conhecida como
Desejo

Pra quê
vesti-la de

adornos
ou torcê-la até

ficar
sob medida

para ser
entendida?

Arrisque-se –
Nariz

olhos orelhas
língua

sexo e
cérebro

atirados ao
público

Confie
no seu

próprio
taco

Escute
você mesmo

Fale com
você mesmo

e outros
o farão

felizes,
aliviados

de um fardo –
seu próprio

pensar
e pesar.

O que era
Desejo

terá ainda
mais brilho.”

Allen Ginsberg
23 de Novembro, 1984

quem traduziu foi reuben da cunha rocha. essa belíssima tradução do poema “WRITTEN IN MY DREAM BY W. C. WILLIAMS” do Ginsberg, está aqui para ilustrar, exemplificar e anunciar o novo número da revista zunái, que está “em cartaz” no endereço: www.revistazunai.com.br. o novo número está lindo, com uma primeira página amarelinha kandinskyana super-convidativa. além de uma coleção do Ginsberg, tem também poemas de odete semedo, ademir demarchi, august stramm, os haicais da japonesa chiyo-ni (traduzidos por alice ruiz), césar vallejo (em forma transdobrante, tradução de claudio daniel, videotradução de antônio moura e sonorização de maria alzira brum de lemos).

o caleidoscópio de maravilhas não acaba por aí. na sessão de contos você encontra, entre outros, o magnífico baiano joão filho. na galeria, se você for curioso, vai ficar instigado para ver de perto o trabalho de marcelo silveira, com suas instalações-esculturas-objetos. e tem mais. ricardo aleixo, sylvio back, ademir assunção, ricardo corona, rodrigo garcia lopes, frederico barbosa com poemas e delírios apontados para o cinema. ensaios sobre haroldo de campos, roberto piva. a lista não para.

com um time desses, você ainda vai duvidar? então vá lá.

aviso aos nautas

há poucos dias, escrevi aqui um texto chamado polemizar ou não polemizar. disse o que pensava, mas de repente, começo a receber certos comentários que me deixam com o pé atrás. como eu disse aquele dia: as pessoas confundem muito. por isso, quero deixar claro que:

1. não sou um pregador de verdades. tenho minhas opiniões. dou importância a algumas delas. não todas. gosto de me afirmar e assumir aquilo que faço. ficar em cima do muro não é a minha praia. mas fique claro que aqui não tem nenhuma verdade à venda.

2. embora a discussão tenha tido o seu começo no blogue da letícia féres, isso não quer dizer que discordo dela. pelo contrário. letícia é uma das pessoas mais criativas e ativas da minha geração, além de uma grande parceira. admiro muito a poesia dela, o humor que ela tem e a paixão com que propõe as coisas que faz. o texto “poesia e mercadoria“, me pôs para pensar. reconheci entre as frases dela, algo que eu tinha escrito aqui no salamalandro. respeito o que faço. achei que era um ato de lealdade, poder escrever o que penso ao meu bel prazer.

3. acredito na força transmutadora de algumas polêmicas. se bem que, na verdade, pensar que o meu prolixo texto causaria alguma polêmica me pareceu quase uma piada, pois não falo nada de polêmico ali. mas eu sei que as coisas não são tão pacíficas assim. propor um diálogo com os escritos dela é para mim uma forma de dar continuidade a uma conversa inteligente. por isso, peço aos comentaristas que não abaixem o nível da conversa com vulgaridades e ataques pessoais.

4. já que é pra citar leminski:

a quem me queima
e queimando reina, valha essa teima:
um dia melhor me queira

navegar é precioso

esteve bom ontem o saravá de celebração dos 120 anos da abolição. um passeio pelo mar de castro alves através das execuções vocálico-sonoras de ricardo aleixo, gabriela pilati, waldemar euzébio, gil amâncio, tatu e gabriela guerra, benedikt wiertz e minha, em homenagem ao poeta aimé césaire, com os poemas “palavra-macumba” e uma seleção de fragmentos do “caderno de retorno à terra natal”.

o evento correu por conta, como eu já disse anteriormente, do lançamento da belíssima edição tipográfica do poema de castro alves, aproveitando o ensejo da data. a concepção do projeto é de flávio vignoli e laura bastos, e já publicou em versão anterior o poema “tabacaria” de fernando pessoa. estava presente também um personagem interessantíssimo: o tipógrafo ademir matias, artesão de uma técnica em extinção. gostaria de reproduzir aqui a edição. mas acho que jamais teria aquele saborzinho que dá, ao folheá-la: um verdadeiro elogio aos cinco sentidos.

saravá de celebração dos 120 anos da extinção da escravatura no Brasil

na próxima terça-feira, 13 de maio, a partir das 19h, o projeto escrituras TIPOgráficas lança seu segundo número, com o poema navio negreiro, de castro alves. o lançamento, que comemora a passagem dos 120 anos da abolição da escravatura no brasil, faz parte da programação de reabertura do recém-ampliado bar balaio de gato.

a nova edição de navio negreiro será apresentada ao público com performance especialmente concebida por ricardo aleixo, com as participações especiais do músico e ator gil amâncio, do músico benedikt wiertz, do poeta e compositor waldemar euzébio, da cantora gabriela pilati e do poeta e tradutor leo gonçalves (este que vos fala) homenageando o poeta antilhano aimé césaire, recentemente falecido.

programa:

terça-feira, dia 13 de maio de 2008 a partir das 19h

no bar balaio de gato
rua piauí, 1052
navio negreiro estará à venda com preço especial de lançamento, tira-gosto afro e drink-cortesia.

entrada franca

(para mais informações: jaguadarte)

às vésperas do dia 13 de maio


o próximo dia 13, é data cívica importante para o brasil por dois motivos: 1) em 1888, a princesa isabel assinou um decreto que abolia a escravidão em todo o território do país. 2) embora a lei “extingüisse” a escravidão, isso não significava que ela estava “libertando” os escravos. mas uma vez soltos, era preciso reencontrar o seu lugar de dignidade no planeta. por isso, o dia 13 é um dia de reflexão.

passados 120 anos da lei áurea, temos diante de nossos olhos uma realidade: o racismo existe e faz com que uma imensa massa de pessoas com pele escura seja mais pobre e tenha menos oportunidade que a maioria das pessoas de pele clara. mas somos todos mestiços. no final das contas, como se costuma dizer, racistamente ou não, todos nós temos um pezinho na áfrica.

por isso, às vésperas do 13 de maio, quero lembrar dois dizeres que me parecem iluminadores. o primeiro é o do meu amigo amadou abdoulaye diop, que numa conversa em 2006, às vésperas da semana cultural do senegal, me disse: “já vi muitos brasileiros dizendo que são descendentes de escravos. é um erro. eles são descendentes de um homem livre lá na áfrica”. ir mais além. ultrapassar as fronteiras da dor.

a outra fala é o trecho de um discurso de léopold sédar senghor na ocasião de um sommet de países africanos:

o que nos liga está para além da história. está enraizado na pré-história. reporta à geografia, à etnia e, portanto, à cultura. é anterior ao cristianismo. é anterior ao islã. é anterior a toda colonização. é esta a comunidade cultural que eu chamo: africanidade. e eu a definirei como o conjunto de valores africanos de civilização. que ela apareça sob seu aspecto arabo-berbere, ou sob seu aspecto negro-africano, a africanidade apresenta sempre o mesmo caráter de paixão no sentimento de vigor na expressão.

eu sei que nossas línguas vernaculares são diversas de norte a sul, do árabe ao hotentote. ela apresenta, entretento, uma série de caminhos que as religam uma à outra. nossas raças são diversas. desde a pré-história elas se miscigenaram. a consciência de nossa comunidade cultural, de nossa africanidade, é um pré-requisito a todo progresso no caminho da unidade. sem ela não é possível haver vontade, e ainda menos esforço de eficácia e de unidade.

eu não nego que temos também, em comum, nossa situação de países sub-desenvolvidos que se caracteriza por um certo número de traços que eu resumirei assim: sub-alimentação e sub-produtividade devido à insuficiência de capital e de técnicos preparados. mas para sair precisamente dessa situação material e técnica, precisamos apelar para uma energia espritual. precisamos, juntos, forjar para nós uma arma comum. nós temos esta arma, que se encarna na africanidade. basta reconhecê-la e assumi-la corajosamente. o que supõe que nós comecemos por rejeitar todo fanatismo racial, lingüístico e religioso. então, mas somente então, poderemos definir decididamente o nosso objetivo. (L. S. Senghor)

o rei da vela

você acredita que new york teria aquelas babéis vivas de arranha-céus e as vinte mil pernas mais bonitas da terra se não se trabalhasse para wall street de ribeirão preto a cingapura, de manaus à libéria?

oswald de andrade

o rei da vela

há algum tempo, a peça “o rei da vela” do oswald de andrade me espreita da prateleira. já a conhecia de vista. sabia passagens praticamente de cór. já tinha visto cenas bem e mal interpretadas. mas nunca tinha lido na íntegra. não tenho vergonha de dizer que não li ainda alguns dos livros mais indicados e indicáveis. talvez algum dia eu os leia. fazer o quê?

“o rei da vela” me espreitava lá da prateleira da estante. resolvi encará-lo. e me surpreendi. é uma das coisas mais interessantes que já li. uma radiografia do brasil e das relações inter-sociais que rolam aqui, escrita em 1933. extremamente atual.

uma peça de teatro engraçada não é necessariamente uma peça de humor. o humor aceita a fantasia. faz rir através da imaginação. a piadinha. o lugar comum. a maioria das “comédias” que se assistem hoje são peças de humor. ironia é diferente. você joga com o real. escancara as entranhas, as feridas do discurso. se as aparências enganam, a ironia caçoa das aparências. e o rei da vela é assim.

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