Arquivos mensais: junho 2008

Fahrenheit 451

Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho-quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio. (…) Beatty, o capitão dos bombeiros em meu romance Farenheit 451, explicou como os livros foram queimados primeiros pelas minorias, cada um rasgando uma página ou parágrafo desse livro e depois daquele, até que chegou o dia em que os livros estavam vazios e as mentes caladas e as bibliotecas para sempre fechadas.

os blogues e o inconformismo

é uma grande alegria poder de vez em quando folhear o blogue de caetano veloso, obra em progresso. como eu disse numa postagem anterior, ele lança lá algumas pérolas-bomba muito felizes. há algum tempo atrás, eu costumava ouvir pessoas reclamarem que caetano é genial quando compõe e um fiasco quando abre a boca. de duas uma: ou caetano mudou ou aquelas pessoas estavam equivocadas. o que vemos lá no blogue dele é um cara polêmico, engraçado e mordaz – com um olho clínico-crítico para o fino de problemas mundiais muito contemporâneos e eternos como o racismo e a opressão. como é o caso da querela que podemos ler exatamente no obra em progresso em torno à canção “base guantânamo”, composta recentemente por ele.

nos últimos dias, caetano chamou a atenção para dois outros blogues, talvez não tão charmosos quanto o dele, mas ainda mais interessantes: são os blogues do casal cubano yoani sánchez (que ganhou com o seu blogue generación y o prêmio ortega y gasset de jornalismo digital) e reinaldo escobar (a foto acima foi colhida no blogue dele). é lá que ficamos sabendo que o excelentíssimo ex-ditador fidel castro, depois de ter deixado o poder passou a dedicar-se à escrita (uma pena que ele não quis aprender a escrever poemas ou conhecer a etnopoesia de jerome rothenberg para aplicar em seus escritos). parece que a despedida do poder, deu aos cubanos (incluindo o fidel) o desejo de botar a boca no tombone. e no rol dos protestos sobra pra todo mundo, incluindo o caetano. acho que palavras podem ser usadas para fazer voar ou para oprimir. para saber quem usa como, a dica é espiar lá. in loco. nos devidos blogues.

www.obraemprogresso.com.br
www.desdecuba.com/generaciony
www.desdecuba.com/reinaldoescobar

miguel dos anjos na stereoteca

a próxima quarta-feira, dia 25 de junho, é noite de samba bom na stereoteca. quem toca é ninguém menos que miguel dos anjos, um dos maiores bambas, fina flor do samba que sacode essa cidade. ele vai lá pra lançar seu primeiro cd “esse samba é todo nosso”. para ouvir uma deliciosa palhinha, é só clicar aqui. duvido que alguém vai conseguir ficar sentado.

anote pra não esquecer:
miguel dos anjos lança o disco “esse samba é todo nosso”
dia: 25/06, quarta-feira às 20h30
local: teatro da biblioteca pública luís de bessa
(praça da liberdade – belo horizonte – mg)

saiba mais: www.stereoteca.com.br

discutindo futebol

eu estava trocando idéias com meu amigo anderson almeida sobre um capítulo de a utopia brasileira e os movimentos negros, em que antônio risério fala apaixonadamente do futebol brasileiro. lá, ele cita um trecho de nelson rodrigues e o anderson veio sugerir que suprimisse a palavra jogador. boa idéia:

A pura, a santa verdade é a seguinte: qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: temos dons em excesso. (nelson rodrigues)

comentário do anderson: “conclusão: não precisamos de mais criatividade, precisamos de menos inibição”. sábias palavras.

Gérard de Nerval

Eu estava aqui lendo um texto do Claudio Willer na Revista Agulha n° 63 sobre um dos poetas de que mais gosto. Um cara estranho, escuro, gnóstico, desdichado, deserdado, simbolista avant la lettre, que foi considerado louco duas vezes enquanto ainda era lúcido e que suicidou aos 46 anos. O texto do Willer se chama “Gérard de Nerval aos 200 anos“. Eu estava aqui me deliciando com ensaio e me deu uma puta vontade de dar a minha versão brasileira para o poema El desdichado, livre e interessado em ouvir pitacos a fim de melhorá-la. É um poema bem hermético. Mas quem quiser esclarecer alguns pontos, palavras como Posilipo, Lusignam, Febo, Biron, e sol negro, sugiro que dê uma lida no artigo do Willer.

El Desdichado

Eu Sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,
O Duque de Aquitânia em sua abolida Torre:
Morreu minha Estrela – e meu lude constelado
Traz o Sol negro, onde a Melancolia acorre.

Na noite Tumular, Tu que me hás consolado
Dá-me o Posílipo e o mar que na Itália corre,
A flor que tanto apraz meu peito desolado,
E a parreira de onde Pâmpano e Rosa escorrem.

Serei Amor ou Febo?… Lusignam ou Biron ?
Tenho a testa ainda rubra do beijo da Rainha;
Sonhei na Gruta onde minha Sereia brinca…

Duas vezes vencedor atravessei o Aqueronte
Modulando aos bocados na lira de Orpheu
Os suspiros da Santa e os ais que a Fada deu.

Je suis le Ténébreux, – le Veuf, – l’Inconsolé,/Le Prince d’Aquitaine à la Tour abolie :/Ma seule Étoile est morte, – et mon luth constellé/Porte le Soleil noir de la Mélancolie.//Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m’as consolé,/Rends-moi le Pausilippe et la mer d’Italie,/La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,/Et la treille où le Pampre à la Rose s’allie.//Suis-je Amour ou Phoebus ?… Lusignam ou Biron ?/Mon front est rouge encor du baiser de la Reine ;/J’ai rêvé dans la Grotte où nage la Sirène…//Et j’ai deux fois vainqueur traversé l’Achéron :/Modulant tour à tour sur la lyre d’Orphée/Les soupirs de la Sainte et les cris de la Fée.

black or white, totem, tabu e algumas palavras do caetano veloso

“eu não gosto dessa vontade desesperada de ser americano”. é o que diz o caetano veloso, que está lá no obra em progresso lançando belas bombas. (dica surpreendente do ric)

eu também não gosto, caetano: oswald de andrade, quando lançou o manifesto antropófago, falou: a transformação constante do tabu em totem. quer dizer, pegar a palavra-tabu “antropofagia” (a vergonha indígena nacional tupiniquim) e transformá-la num totem, num objeto de adoração, culto e respeito.

depois vieram os negros francófonos, léopold sédar senghor e aimé césaire, pegaram as palavras “negritude” e “mestiçagem”, que eram usadas para oprimi-los e criaram um movimento literário-político-cultural que abalou as centenárias estruturas do poder franco-europeu, além de inspirar milhões de jovens negros a se afirmarem como o que eles realmente são.

não sei para quê ter medo das palavras. se eu disser que sou negro, se eu disser que sou preto, tudo é poesia. mas se eu disser que negro (ou preto ou black ou nigro ou nigger ou nègre ou négro ou negger ou noir) é politicamente incorreto, eu estou estigmatizando a cor. e é isso que estão fazendo agora, quando mandam a gente falar “afrodescendente”. se eu disser isso, vou ter que falar também que sou eurodescendente? indiodescendente? nipodescendente? arabodescendente?!

não dava para aprender a lição dos mestres?

leonardo costa braga: photo-poesia

leonardo costa braga, além de um grande amigo, sempre foi o meu fotógrafo favorito. ele participou, no último ano do 14º. salão da bahia, no mam, além de ter mandado suas fotografias para ser vistas na eslovênia, espanha, brasília, portugal e porto alegre, alemanha e rio de janeiro. há algum tempo atrás, ele publicou na revista caros amigos esse texto abaixo. e eu o reproduzo aqui com banzo das nossas antigas conversas nonsense enquanto assaltávamos o mundo com poesia em plena quarta-feira. saravá-evohé, leo!

TEMPO VIVO
por Leonardo Costa Braga

O Walter Firmo me pediu que escrevesse sobre a ilusão do meu olhar (falou isso como se estivesse me fotografando). Então confirmo o que ele viu, no ato e na palavra: photo-grafien (luz-escrita). Por isso, a criança e sua luz acusando a vida no corpo, alegria da célula dançando, explosão que nem a bomba de Hiroxima conseguiu apagar. Por isso, o velho e sua luz de dentro, seiva tão bela de tristezas que faz a árvore crescer, a delicadeza da compaixão de ainda estar junto de alguém. Por isso, a mãe que dá à luz, manuscrita do grito de amor que repercute na escravidão do universo. Sendo assim, fica muito difícil photo-grafar o adulto. Não está acordado nem dormindo, parece que está sonhando, como nos filmes do Kurosawa. Mas tento tirar uma photo, que geralmente vira um xerox. Uma cópia da realidade. Uma falsificação. Não brilha. E a photo-grafien, ao contrário do que se diz, não é uma imagem estática, é a certeza de que o tempo está sempre vivo, te olhando e esperando ser olhado. Com isso, lembro quando tinha 7 anos de idade, correndo na casa da minha tia e parando em frente a uma grande photo-grafien na parede: uma cadeira de balanço, um velho negro sentado, um saxofone, uma árvore. Um instante depois: um velho negro chorrindo baixinho e uma árvore deixando cair sua primeira semente no meio da sala onde me encontrava. A luz. A escrita. Minha ilusão.

e uma boa notícia

o outro toque também vale a pena, e encontrei no blogue da cidinha: é que a nossa querida ex-ministra marina silva acaba de inaugurar sua coluna na folha de são paulo. acredito, numa boa, que com esse espaço ela pode nos oferecer discussões que ultrapassem a rasura típica da imprensa brasileira, que quer tratar de assuntos sérios sempre com superficialidade e desinteresse.

INICIO MINHA participação neste espaço com enorme sentido de responsabilidade. Tenho a oportunidade diferenciada de usar um dos bens culturais mais preciosos: a exposição de idéias, base para o diálogo. Gostaria de compartilhá-la com os leitores e de, juntos, pensarmos o Brasil e reunirmos forças para ajudar a transformá-lo. Para começo de conversa, trato de um entrave para o crescimento do país: a postura ambígua do Estado frente ao nosso incomparável patrimônio natural.

endereço:
www.cidinhadasilva.blogspot.com