Arquivos mensais: setembro 2008

mestre jonas na stereoteca

quem não conhece ainda o trabalho do mestre jonas, demorou para conhecer. ele é um dos músicos mais ativos e engajados na boa música que rola hoje em belo horizonte (vale lembrar, a boa música em belo horizonte hoje é talvez a melhor movimentação musical do país). parceiro de pessoas queridas como janaína moreno, dudu nicácio, makely ka, zéfere, miguel dos anjos, sílvia gommes e quem sabe, um dia desses, meu parceiro também. já andou tocando por aí com ninguém menos que nei lopes, moacyr luz, hermínio bello de carvalho, titane. além disso, para a sorte dos franceses, ele esteve por lá recentemente e deixou a francesada com peau de poule (de cabelo em pé).

a notícia vai em cima da hora, mas ainda dá tempo: mestre jonas toca amanhã, quarta-feira, na stereoteca com seu show sambêro.

quem quiser ter uma palhinha do som que o cara faz, olha aí:

www.myspace.com/mestrejonas

www.stereoteca.com.br

as aventuras de molière

este ano, nos meses de maio e junho, muitos amigos andaram reclamando do meu sumiço. isso se deu porque eu estava às voltas com a revisão do livro o doente imaginário, de molière*. há tempos eu esperava a chance de uma segunda edição. eu queria, além de rever partes da tradução, reescrever o texto que acompanha a peça. o resultado foi um “posfácio” sobre a época de molière, suas venturas e desventuras, a cosmovisão sua e de seus contemporâneos e como ele colaborou, enquanto artista, para alargar essa cosmovisão.

curiosamente, pouco tempo depois, entrou em cartaz nos cinemas o filme as aventuras de molière (no original ele se chama apenas molière), do francês laurent tirard. não pretendo contar a história do filme, mas um pequeno résumé rola: o filme parte de um desvio na história. da biografia de molière, conta-se que ele, jovem, foi preso por dívidas, dificuldades que enfrentava para administrar sua trupe teatral. tirard imagina, então, a chegada de um burguês chamado jourdain que, desejoso de aprender algumas técnicas de teatro (a fim de conquistar uma preciosa dama), “compra” a dívida do comediante e o leva para uma temporada em sua casa. nessa estada, ocorrem situações cômicas que definirão sua carreira e sua obra mais célebre.

trata-se de uma fantasia, um pouco à moda do shakespeare apaixonado, de john madden. mas o interessante é a excelente pesquisa de época, com personagens falando um francês carregado. outra coisa que gosto muito é a atuação do ator principal, romain duris (que fez albergue espanhol) e da atriz co-adjuvante, laura morante. além disso, o filme é um verdadeiro prefácio à obra de molière. os entendedores reconhecerão diversas passagens tiradas das suas comédias. se eu tivesse visto esse filme antes, muitas passagens do posfácio se tornariam desnecessárias.

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*eu queria agradecer à patrícia mc quade, pela paciência, interlocução, apoio moral e logístico naqueles dois meses (isso tudo sem falar no amor imensurável, constante e atemporal, o carinho cotidiano, a vida partilhada, coisas das quais qualquer agradecimento nunca pode ser suficiente). além de ter sido ela a responsável pela minha reconciliação com o teatro (paixão que tinha se calado ao ver tanta porcaria em cartaz). sem isso, tenho certeza que não teria saído revisão nem posfácio nenhum. não achei espaço no livro para agradecer, agradeço aqui.

o doente imaginário, informe à imprensa

A Editora Crisálida lança segunda edição (bilíngüe) do clássico teatral O doente imaginário, de Molière
Chega às livrarias a 2ª edição da comédia O doente imaginário de Molière, com revisão e posfácio do tradutor Leonardo Gonçalves. A peça, que teve sua primeira edição em 2002, é relançada no momento em que está indicada para o vestibular da UFU (Universidade Federal de Uberlândia).

O doente imaginário é a última comédia escrita e encenada por Molière, no ano de 1673. Segundo relatos da época, na quarta noite da peça, enquanto o autor representava o papel principal, começou a ter crises por causa de uma tuberculose avançada e veio a falecer algumas horas depois em sua casa. Este fato, que tornou-se um marco na história do teatro, é lembrado sempre que se fala em O doente imaginário, a exemplo da encenação feita desde 1996 pelo grupo Galpão desta mesma comédia, que em sua tradução recebeu o título de Um Molière imaginário.

Mestre na arte do riso, Molière é considerado um dos maiores autores teatrais de todos os tempos, ao lado de William Shakespeare e Aristófanes. Escreveu suas peças na época do rei Louis XIV, o grande rei absolutista da França, autor da célebre frase: “O Estado sou eu”. Entretanto, seus personagens e cenas anunciam uma nova forma de ver o mundo: um mundo onde o homem comum é compreendido e onde a aristocracia não é a única agente das decisões políticas de um povo. A mesma visão de mundo que chegaria ao poder com a revolução francesa no final do século XVIII.

Mas O doente imaginário não é um mero registro de uma época histórica. Como toda grande obra de arte, a peça trata de temas que estão sempre na ordem do dia para o ser humano. Em princípios do século XXI, quando se fala na impostura do capitalismo, vendas de placebos, remédios miraculosos para as doenças incuráveis do homem, hipocondria vendida em vitrines e propagandas de televisão, o tema central da peça O doente imaginário (um homem que se orgulha de suas doenças imaginárias resolve dar a mão da filha em casamento para um médico a fim de ter um médico em sua própria casa) é de uma atualidade impressionante.

A segunda edição do livro, revista e com seu posfácio reescrito já era um projeto do tradutor. “Tenho um orgulho especial deste livro, por ter sido minha primeira tradução a se tornar de fato um livro”, afirma Leonardo Gonçalves, “mas esperava uma oportunidade para revisar certas passagens que me pareciam ainda inconsistentes na primeira edição”. Ao longo dos anos, Leonardo vem adquirindo desenvoltura na arte de traduzir, ao mesmo tempo em que aprofunda seus conhecimentos de língua francesa na sala de aula (hoje ele é professor de francês) e na faculdade de letras da UFMG. Além de Molière, Gonçalves vem traduzindo diversos autores (não apenas da língua francesa), tais como o poeta inglês William Blake, o argentino Juan Gelman, o novaiorquino Allen Ginsberg, Gérard de Nerval, Paul Verlaine, Pedro Almodóvar, Léopold Sédar Senghor e Aimé Césaire.

O livro tem obtido boa distinção no cenário cultural brasileiro. Foi adotado algumas vezes na pós-graduação da faculdade de letras UFMG, indicado em 2006 para a prova do T. U. (Teatro Univesitário) e adotado duas vezes no vestibular da UFU (Universidade Federal de Uberlândia) e no supletivo daquela mesma cidade. A tradução de Leonardo Gonçalves também foi montada em Belém do Pará com título adaptado para “O hipocondríaco” pelo grupo “Palhaços trovadores”.

Além das revisões na tradução, o livro traz também um estudo sobre a época e o teatro de Molière. Trata-se de um posfácio rico em documentos literários do século XVII. No texto, assinado pelo tradutor, compreende-se por que um autor que é considerado um clássico por excelência foi em sua época e ainda é, hoje em dia, criador de um conjunto de situações que subvertem as relações de poder dentro da sociedade.

Artista dos costumes e vícios mais delicados do homem, Molière dedicou toda a sua vida ao teatro, renunciando aos privilégios da família e tornando-se um dos maiores símbolos da arte do palco ao longo dos séculos. Foi autor, administrador da sua trupe, encenador, diretor, ator não só em suas peças, mas em dezenas de outras.

Esta comédia fecha com chave de ouro a sua produção e vem somar-se à longa série de obras que satirizam a medicina. O tema é de grande atualidade: faz pensar nos limites da nossa ciência e na arrogância dos detentores de conhecimentos especializados.

Trechos da orelha do livro:
“A tradução de Leonardo Gonçalves evidencia dois dos motivos pelos quais aquela aristocracia foi incapaz de perceber que sofria ataques tão fortes quanto os que, às vésperas da Revolução Francesa, seriam mais tarde desferidos pelo mais autêntico herdeiro de Molière, Beaumarchais (As Bodas de Fígaro). A elegância do estilo, dos jogos de palavras, da musicalidade, obedeciam ao que o público da velha ordem esperava do teatro, mesmo se faziam isso sem perder de vista a compreensão do público plebeu. Ao mesmo tempo, suas peças eram obras-primas do ilusionismo teatral, brincando com permanente entra-e-sai de personagens que fazia com que o público muitas vezes tivesse informações de que nem todas as personagens dispunham. Da soma destes dois jogos, podemos concluir que, deste seu nascimento, O doente imaginário foi autêntica peça “de classes”, apta para ser compreendida de maneira diferente por grupos sociais diferentes, numa antecipação da força estética e política que, no século XX, teriam comediantes do cinema como Carlitos”.
Marcelo Castilho Avellar

“De todas as peças de Molière, O doente imaginário é sem dúvida a que eu prefiro; é ela que me parece a mais nova, a mais ousada. (…) Eu não conheço prosa mais bela. Ela não obedece a nenhuma lei precisa; mas cada frase é tal que não poderíamos mudar nenhuma sem estragá-la. Ela atinge sem cessar uma plenitude admirável; musculosa como os atletas de Pugget ou os escravos de Michelângelo e como que inflada, sem inchaço, de uma espécie de lirismo de vida, de bom humor e de saúde. Não me canso de relê-la”.
André Gide

Livro: O doente imaginário
Autor: Molière (Jean-Baptiste Pocquelin)
Editora: Crisálida
ISBN: 978-85-87961-35-8
Preço: R$ 28,

Contatos:
Editora Crisálida / Oséias Silas Ferraz:
www.crisalidaeditora.blogspot.com

Leonardo Gonçalves:
www.salamalandro.redezero.org

suplemento literário de mg – set/08

reproduzo abaixo a minha colaboração recém publicada no suplemento literário de minas gerais n° 1314, setembro de 2008. o texto que escrevi é sobre o livro algo indecifravelmente veloz de andityas soares de moura, publicado em janeiro deste ano pela edium editores, em portugal. você  pode também ler o texto e todo o jornal (em formato pdf), clicando [aqui].

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O VÔO DESLOCADO DE ALGO INDECIFRAVELMENTE VELOZ

Existem escritores que, nascidos em certo lugar, mereceriam outra nacionalidade. Um caso clássico é Joseph Conrad, um polonês que celebrizou-se com romances escritos em língua inglesa. Outro é T. S. Eliot: um estadunidense de Missouri que tornou-se o poeta mais inglês de seu país. Também passaria facilmente por um inglês, não fosse o idioma, Jorge Luís Borges. E daí para o francês Gérard de Nerval, lembrado pelo filósofo Emil Cioran como um possível poeta alemão. Aliás, o próprio Cioran, um romeno que renunciou ao seu idioma natal para escrever somente na língua de Rousseau, que não era francês, mas suíço. Nem estou falando de autores como Luís de Camões e Gil Vicente, que colaboraram tanto para a literatura portuguesa quanto a castelhana.

Eu ia começar este artigo meio à moda de Juan Gelman: Havia uma vez/um poeta português/ Nascido numa cidade pequena/de Minas Gerais chamada Barbacena. Mas eis que a brincadeira me flagra no susto, exatamente no instante em que tenho em minha frente um exemplar de Algo indecifravelmente veloz, antologia poética de Andityas Soares de Moura publicada no começo de 2008 na cidade de San Mamede de Infesta, Portugal, pela Edium editores. Continue lendo suplemento literário de mg – set/08

sobre um embaraço muito comum

a verdade é que ninguém pode obter de outra pessoa uma confirmação segura do valor daquilo que escreve. é-se poeta a despeito desse fato, ou não se é poeta. (antônio cícero)

não sou um poeta conhecido. não tenho muitos livros de poesia publicados. mesmo assim, muita gente me admira e eu sou muito grato a essas pessoas. muita gente espera de mim certos comentários e respostas sobre a validade dos seus poemas. agradeço muito que me tenham em tão alta conta. às vezes fico embaraçado, não sei o que dizer, mesmo quando estou diante de excelentes poemas. a algumas pessoas eu gostaria de dar uma resposta que ajudasse a deslanchar. às vezes eu até tento. acho arriscado. mas chego a tentar. não sei se devia.

outro dia, passando pelo blogue do antônio cícero, encontrei uma postagem que responde a muito do que eu gostaria de dizer a essas pessoas. sobre poemas enviados a poetas

Um não-poema de Heriberto Yépez

Daniel não curte o latex
diz que com a muralha
de uma única pele
já é mais que o suficiente.

Quanto a mim, acho
que não há invenção
mais fabulosa do que a camisinha:

é o primeiro invento humano
que realmente nos protege
dos terríveis efeitos
e venenos próprios do amor.

(Tradução: Leo Gonçalves)

A Daniel le molesta el látex/dice que con la muralla/de una sola piel/ya es más que suficiente.//A mí, en cambio, me parece/que no hay invención/más fabulosa que el condón://es el primer invento humano/que realmente nos protege/de los terribles efectos/y venenos propios del amor.

Este não-poema é um capítulo do romance 41 closets

41closets

dez faces: uma boa dica para o sábado

ok, eu tinha prometido escrever um comentário sobre o belo projeto do jornal dez faces, que teve sua inauguração em novembro de 2006 e do qual tive a honra de participar em agosto de 2007. não pude fazê-lo ainda. mas enquanto as coisas vão se organizando, deixo a dica para o lançamento da antologia dezfaces, que conta com excelentes os poetas: adriana versiani, álvaro andrade garcia, ana caetano, camilo lara, carlos augusto novaes, luciana tonelli, marcelo dolabela, rogério barbosa da silva, vera casa nova e o artista plástico marcelo kraiser.

o lançamento acontece sábado, na livraria scriptum
rua fernandes tourinho, 99 [(31) 3223 1789]

a partir das 11h.