Arquivos mensais: novembro 2008

lançamento: revista roda nº 6

acho que ainda dá tempo: será lançada hoje a revista roda nº 6, comandada pelo mestre-sala ricardo aleixo. no novo número, uma porção de belezuras: homenagem aos 70 anos de nascimento e 40 de poesia e provocaçãm de sebastião nunes. na homenagem, um dossiê com entrevista, poemas, comentários de caras como bruno brum, glauco mattoso, ademir assunção. além de um poema de affonso ávila com o nome de “são sebastião da bocaiúva”. para quem já conhece a poesia desse cara que já é considerado um mestre de todas as gerações que vieram depois dele. além disso, a revista roda traz poemas do angolano abreu paxe, o cubano nicolás guillén, o mineiro paulo kauim e muito mais.

e em meio a este “muito mais”: o meu ensaio “os sessenta anos da anthologie – um livro inventa o presente“. uma espécie de homenagem aos 60 anos da primeira edição da anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française [antologia da nova poesia negra e malgaxe de língua francesa] organizada em 1948 pelo poeta e (então futuro) presidente do senegal léopold sédar senghor. meu ensaio traz também traduções de alguns poemas presentes na anthologie.

o lançamento acontece hoje, dia 16 de novembro, às 18h, no estande do Lira, instalado no 9º encontro das literaturas, no chevrolet hall.

um poema de joão cabral

a sevilhana que é de córdoba

essa sevilhana de fora
tem outra dimensão por dentro.
não é sevilhana, é cordobesa,
cidade de imóvel silêncio.

bem cordobês foi “lagartijo”
foram “guerrita” e “manolete”
que toureavam como sêneca,
cordobês, tinha o pensamento.

podia ser de santa marina
ou nascer na praça do potro,
em qualquer dos bairros de córdoba,
de atmosfera funda de poço.

não sei por onde nasceu sêneca,
em que bairro, em que quarteirão,
mas vi tourear “manolete”,
sua severa resignação.

a sevilhana que é de córdoba
dos toureiros não teve a lição,
mas aprendeu em sêneca mesmo
o rigor denso da expressão.

sevilha e córdoba: andaluzia
que se expressa por fora ou é dentro,
como a sevilhana de quem falo,
cujo andaluzismo eu me invento.

(do livro sevilha andando)

 

 

maiakovski – liubliu [amo]

o adulto tem os seus assuntos.
enche os bolsos de rublos.
fazer amor?
faça, então!
pela bagatela de cem rublos.
e eu,
sem prumo nem rumo,
as mãos
no bolso
com furos,
eu passava, de olhos bem abertos.
à noite,
você sai em pano puro.
procura repouso nas esposas, nas viúvas.
mas eu,
moscou me sufocava me apertava
nos penduricalhos de seus bulevars-rios.
nos peitos,
nos relógios,
os amantes fazem tic-tac.
no leito de amor, as parceiras estão em êxtase.
eu, na praça da paixão,
eu escutava
as selvagens pulsações do coração das capitais.
bem aberto —
com o coração semi-descoberto —
eu me ofereço ao grande sol e à poça d’água.
entrem com as suas paixões!
entrem com os seus amores!
doravante não sou mais dono do meu coração.
sei  nos outros onde fica o coração.
no peito – todo mundo sabe.
comigo
a anatomia perdeu a razão.
meu corpo é todo coração-
ele bate em toda parte.
quantos forem eles
durante vinte anos nesse ser
de apenas primaveras levadas na sua erupção.
seu peso acumulado é muito para carregar.
pesadão não
para o verso
mas no que os olhos podem ver.

Traduzi este trecho do poema “liubliu” [amo] de vladímir maiakovski, assim, de improviso, a partir de uma tradução francesa que tenho, feita por Christian David. por enquanto. Um dia traduzirei direto do russo.

pode chorar que o choro é livre

festival do choro livre

começa no próximo dia 08, sábado, o festival do choro livre, em bh. a programação está transbordando: muita música boa, rodas de choro nos principais mercados, oficinas, debates e trocas de idéias. quer uma listinha de participantes? não cabe todo mundo aqui, mas dou uma deixa: maurício carrillo, paulo moura, gabriel guedes, rodrigo torino, mestre jonas, seu mozart, os grupos pedacinho do céu, sarau brasileiro, flor de abacate, corta jaca, gafieira senta a pua, dois do samba. agora se quer saber mais e melhor, olha aí o site e o blogue do projeto. e pode chorar, que o choro é livre:

www.chorolivrebh.blogspot.com

www.chorolivre.com.br

canção do amor impossível – um poema de antônio cícero

como não te perderia
se te amei perdidamente
se em teus lábios eu sorvia
néctar quando sorrias
se quando estavas presente
era eu que não me achava
e quando tu não estavas
eu também ficava ausente
se eras minha fantasia
elevada a poesia
se nasceste em meu poente
como não te perderia?

este poema de antônio cícero está no livro a cidade e os livros. rj: record, 2002

revista roda nº 6 + um poema de léon gontram damas

vem aí a 6ª edição da revista roda repleta de intensas pulsações. já posso noticiar aqui que assino um dos textos que virão. um artigo repleto de poemas sobre os 60 anos da anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française [antologia da nova poesia negra e malgaxe de língua francesa], organizada em 1948 por léopold sédar senghor, uma antologia manifesto – um marco na história do movimento literário-cultural que ficou mundialmente conhecido como “negritude”. enquanto esperamos pela benvinda chegada da publicação, uma oferenda: o poema “saldo” de léon gontram damas (que não aparecerá na roda):

saldo

tenho a impressão do ridículo
quando estou nesses sapatos nesse smoking
nessa gravatas nesses colarinhos
nesses seus monóculos nesse chapéu-coco

tenho a impressão do ridículo
com meus artelhos que não foram feitos para
transpirar da manhã até a noite que despe
com tanta malha me enfraquecendo os membros
e arrebata de meu corpo sua beleza de tapa-sexo

tenho a impressão do ridículo
com meu pescoço em chaminé de usina
com essas enxaquecas que cessam
cada vez que saúdo alguém

tenho a impressão do ridículo
em seus salões em seus modos
suas reverências suas fórmulas
sua múltipla necessidade de macaquices

tenho a impressão do ridículo
em tudo o que eles contam
até que te servem à tarde um pouco de água quente
e docinhos resfriados

tenho a impressão do ridículo
com as teorias que eles temperam
ao gosto de suas necessidades de suas paixões
de seus instintos abertos à noite em forma de esteira

tenho a impressão do ridículo
entre eles cúmplice entre eles gigolô
entre eles degolador as mãos temerosamente vermelhas
do sangue de sua civilização

solde
j’ai l’impression d’être ridicule/dans leurs souliers dans leur smoking/dans leur plastron dans leur faux col/dans leur monocle dans leur melon//j’ai l’impression d’être ridicule/avec mes orteils qui ne sont pas faits pour/transpirer du matin jusqu’au soir qui déshabille/avec l’emmaillotage quim’affaiblit les membres/et enlève à mon corps sa beauté de cache-sexe//j’ai l’impression d’être ridicule/avec mon cou en cheminée d’usine/avec ces maux de tête qui cessent/chaque fois que je salue quelqu’un//j’ai l’impression d’être ridicule/dans leurs salons dans leurs manières/dans leurs courbettes dans leurs formules/dans leur multiple besoin de singeries//j’ai l’impression d’être ridicule/avec tout ce qu’ils racontent/jusqu’à ce qu’ils vous servent l’après-midi un peu d’eau chaude/et des gâteaux enrhumés//j’ai l’impression d’être ridicule/avec les théories qu’ils assaisonnent/au goût de leurs besoins de leurs passions/de leurs instincts ouverts la nuit en forme de paillasson.//j’ai l’impression d’être ridicule/parmi eux complice parmi eux souteneur/parmi eux égorgeur les mains effroyablements rouges/du sang de leur civilisation/

zunái – revista de poesia & debates

revista zunái xvi

a revista zunái [www.revistazunai.com] está novamente matando a pau. vermelhinha e repleta de boa poesia, como sempre. para esta edição, além de paul éluard, charles baudelaire e vielimir khliébnikov – diversão garantida – tem também haroldo de campos em hebraico, oriki de neuza pinheiro, ensaio sobre joan brossa, sobre artaud, e muito mais. vou deixar aqui uma palhinha:

trevas

quando não aguento mais o tédio,
saio para o sol em disparada,
asa esvoaçando pelo éter,
a virtude e o vício misturados.
morro, eu morro, o sangue escorre a cântaros
na couraça do meu corpo.
caio em mim – e então, de novo,
só enxergo a guerra em teu olhar.

khliébnikov
1907 – 1914