Arquivos mensais: novembro 2009

Retour au pays de Patrick Acogny

Este ano o FAN – Festival de Arte Negra aconteceu em situação mais ou menos periférica. Digo mais ou menos porque a programação estava bonita, com convidados ilustres e competentes. As instalações bem feitas e bem organizadas, com dois grandes palcos e um Ojá (mercado em yorubá). Periférica porque foi empurrado para a orla da Lagoa da Pampulha. Embora bonito, um lugar fora de mão, com poucos ônibus. Difícil para quem não estivesse de carro e quisesse acompanhar a festa até mais tarde. Todo o mérito para os organizadores, o Rui Moreira e o Adyr Assumpção que, pelo jeito, levaram na cara e na coragem. Uma pena o novo prefeito não haver percebido que o FAN é a menina dos olhos dos festivais belorizontinos.

No vídeo acima, feito pela rádio Ojá, alguns momentos do espetáculo “Retorno ao país natal”, apresentado pelo Coletivo FAN da Dança (criado especialmente para o evento) e dirigido pelo coreógrafo senegalês Patrick Acogny. Quem acompanha é o grupo Uakti em colaboração com o griot Oumar Fandi Diop. Leo Gonçalves acabou colaborando um pouco também, enviando as traduções dos poemas de Léopold Sédar Senghor, Aimé Césaire e Léon Gontram Damas que são recitados pelas dançarinas durante o espetáculo.

palavra macumba no FORUMDOC 2009

forumdoc 2009

A programação do 13º FORUMDOC.BH.2009 – está uma delícia, com destaque especial para a Mostra Cineastas Africanos que me faz brilhar os olhos. Quem quiser dar uma olhada, sugiro conhecer a página do Festival, com seu projeto visual deslumbrante.

De quebra, no catálogo, o leitor encontrará a tradução de um poema de Aimé Césaire feita por mim, o “palavra macumba“. Que, diga-se de passagem, é um dos meus favoritos.

www.forumdoc.org.br/2009/

nossos beijos costurados bilíngue

pliegues

Este ano tive a honra de participar da coleção Pliegues Despliegues, a convite de Gabriela Carrión. A proposta, que já divulguei por aqui, consistia em distribuir durante quinze quinzenas quinze folhetos de quinze poetas nascidos na Argentina, na Espanha, Venezela e Brasil. O Pliegue correspondente à minha pessoa teve ainda a honra de ser traduzido para o espanhol del Mar del Plata pela Gabriela e junto com os outros foi lido em rádios, fotografado, filmado. Ficou fino! Muchas gracias, Gabi.

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para patricia mc quade

nossos beijos costurados sobre a camiseta
tão inquietos os beijinhos
que caminham rebeldes pela pele
e se agarram como manchas no pescoço

eu brinco a beça com a sua cabeça
tem piolhos tem caprichos muitos grilos
pelos loiros coloridos
eu colo no seu colo a minha boca
e você se perde

porque agora tem um mar de cheiros
o amargo mar de onde arde o nardo
e cresce entre as pernas da menina
com meu ramo mirrado e uma rosa uma rosa
uma rosa sob a minha mira

sei os beijos na palma da mão
e palmas para o movimento gostoso
da palmeira no vento e sua palma
magrinha como o visgo do dendê

os beijos sobre os beijos pela pele
derramam bálsamos a cântaros
e perfumam qual o cedro o seu ciúme
a casa não tem varanda a que se preste
a sacanagem santa desses nossos beijos

que correm cosidos pela camiseta
tão inquietos os beijinhos
passeando rebeldes pela pele
& te adornando no pescoço nas orelhas

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nuestros besos cosidos en la camiseta
tan inquietos los besitos
caminan rebeldes por la piel
y se cuelgan cual lunares en tu cuello

juego a darte vuelta la cabeza
hay piojos, hay caprichos, tantos grillos
pelos rubios coloridos
dejo mi boca en tu regazo
y te perdés

porque ahora hay un mar de olores
un mar amargo donde arde el nardo
y crece entre tus piernas, nena
con mi ramo de mirra una rosa una rosa
una rosa en mi punto de mira.

senos besos en la palma de la mano
y las palmas para el movimiento sabroso
de la palmera al viento y su palma
delgada como aceite de dendê

besos sobre besos por la piel
derraman bálsamos a cántaros
y perfuman como el cedro tu celo
la casa no tiene balcón que se preste
a la travesura santa de estos nuestros besos

que corren cosidos en la camiseta
tan inquietos los besitos
paseando rebeldes por la piel
adornándote el cuello las orejas

Poema de Leo Gonçalves (Belo Horizonte – Brasil)
Traducción: Gabriela Carrión

Novo site da Livraria e Editora Crisálida

livraria e editora crisálida: novo site

Uma editora não é apenas uma empresa que publica livros. Se o propósito é publicar livros voltados para o humano, uma editora precisa ser mais que uma publicadora: é necessário ser um local de debates, de conversas, interlocuções e formação. Local de fervuras.

Quem me conhece sabe o quanto devo à Crisálida, enquanto formadora, do bom que tenho em mim hoje em dia. Oséias Silas Ferraz foi quem primeiro me abriu as portas para o mundo editorial, publicando pela primeira vez uma tradução minha (a saber: O doente imaginário de Molière, em 2002) e que depois me convidou para publicar Canções da Inocência e da Experiência, traduções que me ensinaram mais do que todas as disciplinas de literatura na UFMG.

É com essa alegria e essa gratidão que dou aqui a notícia do seu novo site. É um espaço dinâmico, onde o leitor poderá obter obras tanto do acervo da livraria (que trabalha com novos e usados) quanto da editora. É claro que visitar o site nem se compara com o prazer de pisar lá na sobreloja do Edifício Maletta, bater um papo com os livreiros, encontrar as obras que você tanto queria ver guardadinhas lá na estante sem nenhuma virtualidade. Mas não é todo mundo que pode. Então o negócio é aproveitar e clicar aí:

www.crisalida.com.br

Da delicadeza ou o anel que tu me deste

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Mário de Andrade, lá no Losango Cáqui, dizia: “a máquina de escrever do meu mano foi roubada/isso também entra na poesia/porque ele não tinha dinheiro para comprar outra.

No dia 16 de outubro, minha amiga Cinthia Mendonça teve sua mochila roubada. O conteúdo: uma câmera fotográfica, um laptop, dois celulares que o fabricante havia cedido a título de empréstimo para a realização do projeto no qual está atualmente envolvida, além de outros objetos pessoais. Levaram objetos de valor financeiro contável, mas a memória contida ali dentro era de valor inestimável.

Viajante assumida, pode-se dizer que a mochila da Cinthia continha uma parte bem considerável de seus pertences. Sua chegada a BH inclui um certo desejo de pousar uns tempos por aqui. Chegou de Recife em julho deste ano. Participava do programa Interações Estéticas da Funarte, em colaboração com a lendária Lia de Itamaracá. Em agosto participou da MIP2 e performou o Sobreabismos numa das calçadas do viaduto Santa Tereza (ironia que a tenham roubado justamente embaixo desse viaduto, ressaltando ainda mais o abismo). Tudo ela ia registrando, transformando em novos projetos. Bons tempos os do Mário, em que o ladrão roubava a máquina de escrever mas não levava o que saía dela.

Foi a Cinthia quem me relatou do incêndio sobre as obras do Hélio Oiticica. Fiquei abismado, é claro, com tudo. Hélio Oiticia incendiado era para mim, à primeira vista, uma espécie de contra-revolução. Uma chacina. Tudo isso já foi muito dito. Quem soube do incêndio e recebeu a primeira informação, vinda do irmão do Hélio, de que 90% havia se perdido e depois não soube mais, lamentou a grosseria da cultura brasileira, despreocupada em manter vivas as descobertas e invenções dos seus melhores artistas. E, como sempre, é preciso lembrar do prestígio que gozam suas obras em outras partes do mundo, evocar o reconhecimento vindo de outros lugares que teriam de certa forma um poder de melhor legitimar a originalidade do nosso quase heliogábalo. E eu aqui pensando: “que pena que não são capazes de reconhecer por si mesmos o que está evidente diante de seus próprios olhos”. Conversando com a Cinthia, a gente concluía que um trabalho de arte, neste mundo em que vivemos, é muito delicado e pode ir para os ares como mera fumacinha, prestes a desaparecer na memória dos viventes.

Apesar da perda irreparável das obras de Oiticica (por mais que reformem), acabamos por achar que tudo não teria passado de uma auto combustão. Estamos falando de um artista que não queria inventar uma obra-artefato. Suas criações possuíam o caráter de projeto e ele propunha que elas fossem reproduzidas, refeitas, copiadas. A idéia foi mais ou menos comprovada quando, logo depois, César Oiticica encontrou os metaesquemas praticamente intactos.

Hélio é o deus sol do fogo e da justiça, um xangô grego: pode queimar o que bem entender. Mas acredito que o Oiticica quereria incendiar as mentes. Dar às artes uma dimensão menos estagnada e menos arraigada às leis do mercado e da academia. O incêndio (e o roubo dos objetos da Cinthia) não terão sido em vão se tiverem acendido o fogo dos questionamentos sobre arte, vida e memória. Se os artistas voltarem a querer entrar em todas as estruturas e explodir com elas. Agora, começam a aparecer aqui e ali pela web afora os vídeos realizados por e em torno à obra de HO (procurem no google). Se for este o rescaldo final do incêndio, agradecerei aos deuses sempre que puderem incendiar uma obra mais.