Arquivos mensais: Janeiro 2011

A vertigem – Fedon, príncipe insigne

No último sábado, numa passagem rápida por BH, fui ver a peça A vertigem, com o grupo A Patela. Com texto de Patrícia Mc Quade, conta a história de Fedon, príncipe insigne que nos meandros da vida tornou-se escravo e filósofo, personagem de Platão, interlocutor de Sócrates. O monólogo traz à cena Robson Vieira. Num difícil trabalho corporal em meio à elocução do texto ricamente poético, Robson baila seu corpo mestiço em movimentos que nos remetem à Grécia, os discóbolos e a ideia da academia antiga. O espetáculo é dirigido por Claudio Márcio e teve curta temporada na Campanha de Popularização de Teatro. Em breve, pelo que sei, haverá uma outra temporada. Quando houver, deixo a dica e aviso aos desavisados.

Revista Coyote nº. 21

“A partir de um certo ponto não há mais retorno.
Esse é o ponto que deve ser alcançado.”
[Von einen gewissen Punkt an gibt es keine Rückkehr mehr.
Diser Punkt ist zu erreichen.]

Franz Kafka traduzido por Silveira de Souza.

O que gosto na Revista Coyote, editada a cada estação por Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e Ademir Assunção, é que elas estão sempre cheias de novidades. Não são como a maioria dos periódicos e círculos literários brasileiros que pairam circularmente sobre os mesmos problemas ou os mesmos vícios. A Coyote é inventiva sem ser concretista, rebelde sem ser porralouca, contemporânea sem se enfiar em classificações predefinidas. É uma das poucas revistas de poesia impressas sobreviventes no Brasil com alguma longevidade. “News that stays news”. Novidade que permanece novidade. Notícia que permanece notícia.
Ao longo dos 5 anos e pouco de Coyote, já passaram alguns dos melhores por aquelas páginas: Antonin Artaud, Raymond Queneau, Marcelo Sahea, Julio Cortázar, José Lino Grunewald, Douglas Diegues, Heriberto Yépez, Phillip Larkin, Chacal, e. e. cummings, João Filho, Paulo Leminski, Wilson Bueno, Frank O’hara, José Agripino de Paula, Georges Bataille, Luiz Roberto Guedes. Ah, uma lista tão rica e surpreendente. Entre conhecidos e desconhecidos, éditos e inéditos. Tenho pena do que seria a poesia brasileira hoje sem esta revista. Depois de tantos anos e esforços, a Coyote deveria ganhar um mecenas.
Escrevo isso enquanto folheio o espetacular número 21, publicado no inverno de 2010. O número traz uma seleção de aforismos de Franz Kafka, uma seleção-homenagem ao escritor curitibano recém-falecido Wilson Bueno, autor da primeira novela escrita em portunhol no Brasil, poemas de Leopoldo María Panero, Ivan Justen Santana, Mariana Ianelli. E uma entrevista com Marjorie Perloff, boa para aclarar pequenas dúvidas nessa época de incertezas e muita dispersão.

hoje eu decidi fazer um soneto

hoje eu decidi fazer um soneto.
do meu jeito, não tenho pretensões
de ser vinicius, mattoso ou camões.
hoje eu decidi fazer um soneto.

em segredo: vai que surgem espiões
da cia ou qualquer serviço secreto
ou mesmo um escritor analfabeto
querendo engalobar meus palavrões.

ou pior: vai que um crítico perverso
depois de escarafunchar o meu verso
encontre mensagens subliminares.

não. por isso eu o fiz e logo
deletei dei logout lancei fogo
e fui pra rua ver os malabares.

(leo gonçalves)