Arquivos mensais: junho 2012

A Césaire o que é de Césaire

O garoto da foto é Aimé Césaire, que neste dia 25 de junho, se estivesse vivo, completaria 99 anos. Embora seja um dos principais frequentadores da sala deste malandro que vos fala, Césaire é pouco conhecido no Brasil e poucos dos que o conhecem, fazem ideia do poder de fogo de suas palavras. Esperto até o dia 18 de abril de 2008, quando se despediu deste mundo que ele mudou e viu mudar, deixando órfãos os habitantes de Fort-de-France (a cidade em que viveu e foi prefeito durante 56 anos e de onde praticamente não saía) era muito pouco afeito a louros e elogios, rebelde até o último dia de vida, atento às coisas do mundo e profundamente antilhano. A ele é atribuída a invenção do vocábulo Negritude.

Se é pouco conhecido, também veio poucas vezes ao Brasil. Se incomodava com o aspecto assimilacionista da nossa cultura, o que não o impediu de escrever uma bela “Lettre de Bahia de Tous les Saints”. Era interlocutor e admirador de Abdias do Nascimento, o criador do TEN – Teatro Experimental do Negro. Esteve no Brasil por ocasião de um Colóquio Afro Latino Americano, em 1963 onde apresentou a comunicação “A filosofia vitalista dos bantos e sua influência na América Latina”. Sua vinda passou desapercebida para quase todos, mas não para o poeta Carlos Drummond de Andrade que, para registrar o fato, publicou um pequeno texto em que dizia: “Aimé Césaire esteve no Rio e quem soube?” Comentou um pouco sobre a obra dele (“um dos poetas mais representativos de nosso tempo”, disse) e lembrou André Breton que via em Césaire “um negro que maneja a língua francesa como não há um francês para manejá-la”. Aproveitou também para traduzir o poema “Batuque” (uma das poucas traduções existentes de sua poesia no Brasil, e publicada recentemente numa bela antologia da Poesia traduzida por Drummond organizada por Augusto Massi e Julio Castañon Guimarães para a Cosac Naif):

batuque
quando o mundo ficar mais nu e ruivo
que nem a matriz calcinada pelos grandes sóis do amor
batuque
quando, sem sindicância, for o mundo
um coração maravilhoso onde se imprima o cenário
dos olhares em cintilante fragmentação
pela primeira vez
quando os magnetismos pegarem as estrelas na ratoeira
quando amor e morte forem
a mesma conbra-coral restaurada em volta do braço sem joias
sem defesa
sem picumã
batuque do rio engrossado com lágrimas de jacaré e chicotes à deriva
batuque das árvores das serpentes, de dançarinos de campina
rosas de Pensilvânia olham os olhos, o nariz, os ouvidos, as janelas da cabeça serrada
de supliciado
batuque da mulher de braços de mar, de cabelos de fonte submarina
a rigidez cadavérica transforma os corpos
em pranto de aço
(…)

Reproduzo abaixo um vídeo feito pelos slammeurs Lunik, Seisma et Säb em homenagem ao poeta mais vulcânico da língua francesa no dia seguinte à sua morte.

Centenário de Léon-Gontram Damas

2012 é o ano do centenário do poeta guianense Léon-Gontram Damas, um dos fundadores do movimento da Negritude. Autor menos conhecido e evocado que os seus dois colegas Léopold Sédar Senghor e Aimé Césaire, Damas foi uma figura diferente no grupo. Boêmio, articulado, chegou a Paris antes dos outros dois e por lá perambulava livremente. Se aproximou dos surrealistas no final dos 1920, especialmente de Robert Desnos, com quem parecia se identificar mais.

Antes ainda do surgimento da Negritude, fez parte do grupo Légitime Défense, ao lado do poeta antilhano Étienne Léro, tendo assinado um dos textos da revista que trazia o nome do grupo em 1931. Por lá também conheceu os poetas da Harlem Renaissance, especialmente Langston Hughes e Claude McKay, que frequentavam os salões das irmãs Nardal, ponto de encontro dos negros presentes na Paris de então.

Césaire se refere a ele com grande admiração como um homem dotado de toda a alegria, a intuição e a atitude vivazes de um negro órfão de sua terra natal, a Guiana, assim como de uma África perdida e dilacerada na memória da pele.

Seu livro Pigments (“batimentos cardíacos rumo a altas nevralgias”, segundo Desnos), publicado em 1937, é considerado a obra fundadora da Negritude. Ganhou enorme destaque na época, especialmente para os que assistiam com temor o triunfo dos fascismos.

Reproduzo abaixo um dos poemas de Léon-Gontram Damas em tradução minha.

LOGO MAIS

Logo mais
não terei apenas dançado
logo mais
não terei apenas cantado
logo mais
não terei apenas roçado
logo mais
não terei apenas suado
logo mais
não terei apenas dançado
cantado
roçado
suado
roçado
suado
roçado
cantado
dançado

Logo mais

***

BiENTÔT

Bientôt
je n’aurai pas que dansé
bientôt
je n’aurai pas que chanté
bientôt
je n’aurai pas que frotté
bientôt
je n’aurai pas que trempé
bientôt
je n’aurai pas que dansé
chanté
frotté
trempé
frotté
trempé
frotté
chanté
dansé

Bientôt

Revista Coyote #23

Demorou, mas graças ao aparecimento da Rô Candel, uma nova amiga, tenho finalmente em mãos a Revista Coyote número 23. Como sempre, ela está repleta de coisas boas. Dou destaque especial para o poema “Discurso por ocasião de um congresso internacional de pessoas jurídicas”, do Bruno Brum, que tive a honra de ver nascer e para as traduções do meu camarada Reuben da Cunha Rocha, dos poemas de Gregory Corso, dentre os quais me divirto em reproduzir um aqui. Mas tem mais: Moacir Scliar, Bernardo Vilhena, Márcia Tiburi, Beatriz Bracher e por aí vai. Para adquirir seu exemplar, é só encomendar no Sebo do Bac ou no site da editora Iluminuras.

Céu de Cambridge

Olho pra cima
e milhares de recém-nascidos
sangram da vela dos meus olhos;
filhos e filhas de cera derretida
sangrados do útero dos olhos.
Ah esta é a mais lenta das horas
nuvens das nuvens qual flores que demoram
até uma nuvem tornar-se todas
e eu ficar cego.

A última coisa que enxergo
é um pássaro no alto cantar destemido
e ainda ouvirei no céu seu último bramido
antes que a rajada arebente a asa.

[Gregory Corso traduzido por Reuben da Cunha Rocha]