Arquivos mensais: novembro 2012

Poéticas Negras

Foto: Layza Vasconcelos

Gosto quando Octavio Paz desfaz a confusão entre poesia e poema: “A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de liberação interior. (…) Oração, litania, epifania, presença”. Há poesia nas coisas. Há poesia na dança. Mas nem todas as coisas são poesia. Toda dança talvez seja poesia. A dança está para a poesia assim como o poema. “O poema não é uma forma literária, mas o lugar de encontro entre a poesia e o homem.Poema é um organismo verbal que contém, suscita ou emite poesia.”

Poética é palavra de outra natureza: não se trata aqui de uma forma literária, mas de um projeto, um devir, um fazer, conjunto de técnicas, conhecimentos, habilidades para tanger o que chamo aqui de poesia, mas que pode ser chamado também de experiência estética, travessia, encontro.

Poesia, poema, poética.

O Festival Poéticas Negras, do qual tive a honra de acompanhar e participar entre os dias 19 e 21 de novembro em Goiânia, foi um desses momentos em que a poesia se torna o próprio oxigênio do diálogo. Oportunidade única para que o núcleo de participantes pudesse chegar a interlocuções reais e profundas, amizades que prometem permanecer, diálogos que ganharão certamente desdobramentos inesperados.

A programação pequena, mas pulsante, incluindo um ciclo de debates e espetáculos, atraiu um público especialmente interessado no assunto da dança. Goiânia, que ganhou há pouco tempo uma faculdade de Dança, certamente ficará marcada por esse evento.

Merece saudação e agradecimento o trabalho das irmãs Ana Carolina e Waléria Wenceslau. Sua concepção do evento, a produção e a gestão de tudo se deram numa combinação de simplicidade e inteligência, coisa rara nesse meio onde reina um desejo de glamour e outras vaidades vazias.

Na foto acima, eu e minha parceira Kanzelumuka (Franciane de Paula) fazíamos o Poemacumba durante a “Noite das ayabás”. Esperamos que venham outros tantos (cada vez mais e melhores) Poéticas Negras como este.

Um poema de Rui Nogar

XICUEMBO

Eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco

agora eu quer dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer

suruma dos teus ólho Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração

eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração

e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber

que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente

menos meu minhamor.

Rui Nogar (Francisco Moniz Barreto) nasceu eu em Maputo, Moçambique em 1932. A palavra Xicuembo significa, entre outras coisas, “Feitiço” na língua ronga e Suruma quer dizer “Mel”.

Revista Mallarmargens

Dentre as mais interessantes revistas virtuais que tenho lido, a revista Mallarmargens está cada dia mais recheada de bons poemas, textos admiráveis, fotos e muita informação sobre poesia contemporânea. Editada por Alexandre Guarnieri, Andréia Carvalho, Lara Amaral, Marceli Andresa Becker, Nuno Rau e Paula Freitas, se vale das novas maravilhas do blogger, para o design.

Tive a honra de publicar ali um poema meu inédito. Uma festa bacana, meu poema-orgia. Mas indico aos que forem por lá circularem mais.

www.mallarmargens.com

Festival de Danças Poéticas Negras

A próxima parada é Goiânia. Eu e a dançarina Kanzelumuka levaremos o Poemacumba para o Festival de Danças Poéticas Negras, que acontece entre os dias 19 e 21 de novembro.

Para quem quiser saber a programação completa, aí está:

Programação Seminário Corpo Negro: entre saberes, poderes e ancestralidades
Cine Goiânia Ouro – 8h às 11h – Entrada Gratuita

19 de Novembro: Corpo Negro e a Cena Afro-Brasileira: processos criativos e colaborativos.

20 de novembro: Políticas Públicas de fomento às artes e perfomances negras.

21 de Novembro: Dança Afro – Uma dança moderna brasileira. Com exibição do filme: Balé Pé no Chão – a dança afro de Mercedes Baptista, com Marianna Monteiro.

Programação Mostra Artística Poéticas Negras
Teatro Goiânia – 20h – Ingressos: Preço único de R$ 10,00.

19 de Novembro: Objeto Gritante, Maurício de Oliveira & Siameses.

20 de novembro: O Samba do Crioulo Doido de Luiz de Abreu.

21 de Novembro: Noite das Ayábas com as performances:

Luxo de Cu com Corpo Nu – Fafá Carvalho
Paineiras – Grupo Solo de Dança
Poemacumba – Kanzelumuka e Leo Gonçalves
Moringa – Coletivo 22

Palavras de Ronald Augusto

 

Antimanual de instruções para flutuar
Ronald Augusto

 

Prólogo travestido de poema; parapoema; operação duchampiana onde o discurso poético se interessa por sua própria desaparição e toca, portanto, a linha de fronteira da antipoesia; virulento tolicionário aos interessados em conquistar uma vida segura; enfim, o texto que situa o leitor na antessala do conjunto de poemas Use o assento para flutuar de Leo Gonçalves, parece exigir desse leitor que ele “pare à porta e cisme”. Sem recusar a noção de que um poema começa por onde termina, Leo Gonçalves – sabendo que diante da aparente impenetrabilidade do poema o fruidor anseia para que se abram suas portas de modo que ele seja introduzido nesse universo desconhecido – concebe a leitura como suspeição irônica diante dessas portas que estão sempre maliciosamente abertas.

O texto de abertura justapõe uma série de sentenças e enunciados que se constituem numa espécie de manual de instruções de corte paródico cuja observância facultará uma vida de prudência ao cidadão resignado ou ao “homem sem qualidades” do nosso tempo. Cada conselho-advertência desse manual inicia monotonamente com a anáfora “para sua segurança” (em negrito). Os clichês e os lugares-comuns que se seguem reforçam uma crítica mais ao autoengano e à autointerdição do que ao controle externo imposto pela sociedade ao sujeito. Exemplos de tal ambiguidade: “para sua segurança nunca dê uma passo em falso”; “para sua segurança tudo que é difícil cansa”; “para sua segurança mande matar o autor”. “para sua segurança mulheres e crianças primeiro”.

Em Use o assento para flutuar Leo Gonçalves se revela um poeta cujo alento versificatório traz a marca whitmaniana-poundiana dessa discursividade extravagante, desse lance textual que desborda das suas margens toleráveis, fazendo do corpo sonoro uma algaravia de sereias ventríloquas. Ao mesmo tempo, os transes rítmicos vêm de aruanda (do ori), já a imagética deita raízes no alto modernismo e em sua antilira logopaica. No poema mais longo “WTC Babel S. A.” esse convulsivo sincretismo poético se apresenta em toda sua radicalidade infernal. Uma medida de pop; fotogramas de um epos babélico; pornografemas e drogadição estética; sicários políticos postos a nu.

Por fim, um detalhe, uma pequena zona de escape para a prosa se dá a ver em Use o assento para flutuar. Leo Gonçalves experimenta as formas breves na narrativa “A decisão”, esboço de fábula, objeto verbal do absurdo. Kafka o observa do fundo da città dolente. Leo, leitor de Dante, mergulha no reino ínfero das linguagens e constrói seu edifício para o leitor ninguém-ulisseida e, a partir do jogo entre o fortuito e o forçoso, leva a efeito o movimento triádico e reiterativo. Pois, de acordo com os preceitos da cifra 3, se alguma coisa acontece apenas uma vez estamos frente ao acaso; se acontece pela segunda vez, pode ser que indique uma coincidência feliz ou não. Por outro lado, se o evento ocorre uma terceira vez trata-se já de uma confirmação, um signo. Use o assento para flutuar confirma Leo Gonçalves como um poeta atento ao risco e à premeditação, à deriva semântica e à composição intransigente.

Para a sua segurança, prezado leitor, antes de abrir o livro, é essencial deliberar se você vai limpar pés na entrada ou na saída.

(Texto publicado originalmente no www.poesia-pau.blogspot.com.br)