Arquivos mensais: janeiro 2013

Um poema de Cruz e Sousa

Lubricidade

Quizéra ser a serpe venenosa
que dá-te medo e dá-te pesadelos
para envolver-me, ó Flor maravilhosa,
nos flavos turbilhões dos teus cabelos.

Quizéra ser a serpe veludosa
para, enroscada em múltiplos novelos,
saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
e babujá-los e depois mordê-los…

Talvez que o sangue impuro e flamejante
do teu languido corpo de bacante,
da langue ondulação de águas do Rheno

estranhamente se purificasse…
pois que um veneno de aspide vorace
deve ser morto com igual veneno…

*

Esse poema-angorô, sonata serpeante em ‘s’ e ‘z’, é um dos poemas de que mais gosto do Cruz e Sousa.

De cara, me encanta o jogo das tônicas entre abertas e fechadas “quiZERa SER a SERpe venenosa” que faz movimentos de cobra ao nos introduzir no poema. Ele faz com que o leitor ganhe um devir serpente e chupe com vontade cada curva do lânguido corpo dessa bacante que ele “quizera” abocanhar. Nenhuma palavra, sequer os adjetivos aparecem em vão. Tudo pulsa. Tudo flameja.

(Repito este post de 2006 para comemorar a disponibilização das obras completas do Cruz: http://fcc.sc.gov.br/cruzesousa/)

Palavras de Carlos Ávila

Resenha publicada em 15 de setembro de 2012
para o caderno de Cultura do jornal Hoje Em Dia

Leo Gonçalves – linguagem intensa e provocante

FOTO: RAQUEL DINIZ
FOTO: RAQUEL DINIZ

 

Leo Gonçalves parte para um voo experimental não isento de perigos, sob a inspiração de Santos Dumont na epígrafe de seu livro (“fácil é, pois, compreender que, se as válvulas recusam funcionar bem, o perigo de arrebentamento existe”). Já de saída, sua poética é colocada sob o signo da tensão e da vertigem. O poeta parece querer explodir e expandir a linguagem em várias direções: “eu sou aquele que transforma-se em morte/o destruidor de mundos”.

Há vários registros na poesia de Leo, ressonâncias poéticas díspares e até opostas, conflitantes. Trata-se de uma lírica que se atrita, propositalmente, com a violenta e confusa realidade circundante. Há também certa urgência o seu “falar”, muitas vezes transbordante, com algo do surrealismo e também da poesia de Walt Whitman e dos poetas beats norte-americanos. Em geral seus poemas são longos e sem uma configuração convencional, com versos cortantes e contundentes.

Leo é autor também de “das infimidades”, e vem se apresentando em performances e leituras de textos, unindo de forma criativa voz, corpo e poesia – levando seu trabalho além da página impressa. Isto, certamente em sintonia com sua dicção poética neste provocante “Use o assento para flutuar”, onde ele procura “desinventar a língua/em cada fala”.