Arquivos mensais: agosto 2013

Antes da criação do mundo e notícias de minha mãe

Yeats

Dois poemas de W. B. Yeats que falam da passagem do tempo, espécie de carpe diem às avessas. “Antes da criação do mundo” é a voz de uma mulher que se embeleza, não porque seja vaidosa, mas porque vive em busca do arquirrosto, da arquibeleza, da imagem mítica de si mesma, como quem buscasse a língua original da comunicação olho-no-olho. Sua amargura (“E se ao olhar um homem/Ainda que seja meu amado,/Meu sangue se congela/E meu peito fica estagnado?”), lembra um pouco a impenetrabilidade das femmes-fatales tão caras à geração simbolista, especialmente as que aparecem em poetas como Swinburne e Pierre Louÿs. Algo lá no fundo, os ovidianos “medicamina faciei femineae”, talvez, dizem: o tempo há de seguir em frente, mas continuarei buscando aquela que fui “antes da criação do mundo”.

A “well-beloved” do poeta é a vítima dos consoladores de rapina que chegam para dizer que não há problema em ver que a juventude aos poucos desaparece no seu rosto, ao que o poeta protesta. A fascinação daquilo que é difícil, tema de um outro poema de Yeats, também parece atuar aqui. O rosto da mulher amada se faz mais belo com o passar do tempo, diz o coração do poeta. O tempo só faz o belo mais belo.

Esses dois poemas que eu e Clarice Goulart traduzimos (nossa primeira parceria, preparem-se que aí vêm muitas outras!), ganharam morada apropriadíssima num site chamado “Musa rara”. Afinal, não seriam musas raras essas mulheres de Yeats?

Em tempo: participei na semana passada do Menu de Poesia, sarau que acontece no CCSP a cada mês organizado por Maria Alice Vasconcelos. Na abertura do evento, ouvimos em grande deleite o texto do Edson Cruz (editor do Musa Rara) sobre sua afroascendência afirmativa. Frases como “Sim, os argumentos que livram o negro das armadilhas do discurso colonial podem se constituir em uma nova forma de idealização do negro”, ou “Sim, as expressões “escritor negro”, “literatura negra” ou “literatura afro-brasileira” podem rotular e aprisionar mais ainda, mas instauraram e ainda instauram um debate necessário e urgente”, ou ainda “Sim, o opositor não é o brasileiro branco, mas o brasileiro preconceituoso”, ficaram ecoando em minha mente nos dias seguintes. Fico feliz que ele tenha decidido tornar públicas num sentido mais amplo as palavras que ele proferiu.

Leia os dois poemas de William Butler Yeats aqui:
http://www.musarara.com.br/antes-da-criacao-do-mundo

E o texto “Afroascendente afirmativo” de Edson Cruz aqui:
http://www.musarara.com.br/afroascendente-afirmativo

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Na Modo de Usar e Co.
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Aproveitando este segundo tema, na semana passada apareceu na franquia virtual da revista Modo de Usar e Co., mais um poema congolês traduzido por mim. Desta vez, se trata de “Notícias de minha mãe” (Nouvelles de ma mère) de Jean-Baptiste Tati Loutard.

Para lê-lo, é no:
www.revistamododeusar.blogspot.com.br

Poetas afrolusófonos no CCSP

Na foto: o poeta angolano Abreu Paxe (Fotógrafo não identificado)
Na foto: o poeta angolano Abreu Paxe (Fotógrafo não identificado)

 

Para quem estiver em São Paulo, hoje, dia 08/08, quinta-feira – das 20h15 às 22h30, me apresento no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000 – Paraiso) no Menu de Poesia, evento mensal organizado por Maria Alice Vasconcelos.

O recital de hoje será dedicado a poetas afrolusófonos (dos dois lados do Atlântico). Haverá uma breve palestra do Edson Cruz, e leitura de poemas por Abreu Paxe, Célia Ábila, Charles Gentil, Diogo Cardoso, Fabiano Fernandes Garcez, Ivan Carlos Regina, José Geraldo Neres, Leo Gonçalves, Luiz Ariston Dantas, Maria Fátima Araújo Vieira, Rita Alves.

Conforme combinado, o que será para mim uma honra, falarei poemas do meu amigo Anelito de Oliveira, poeta mineiro que atualmente vive em Montes Claros. O acaso da escolha (não minha), me trouxe à lembrança o fato de ter sido ele, quando editor do Suplemento Literário de Minas Gerais, o primeiro a publicar uma tradução minha no papel impresso. No caso, um poema de Julio Cortázar, “A fogueira onde arde uma”. Foi em 2001.

Para homenageá-lo, falarei também alguns poemas meus.

Durante o evento, haverá a participação especial da Faculdade Zumbi dos Palmares com a presença de uma turma de alunos e breve palestra sobre literatura africana pelo Reitor José Vicente e pela Profa Ma. Ellen de Lima Souza.

Entrada franca – sem necessidade de retirada de ingressos.

Uma antologia da poesia mexicana

tenho tanta palavra

Acabam de chegar às minhas mãos os esperadíssimos exemplares de Tenho tanta palavra meiga: alguns poetas mexicanos, antologia organizada pelo meu amigo Fernando Reyes e traduzida por mim. A edição é uma parceria entre a mexicana Ediciones Libera e a Anome Livros.

São ao todo 32 poetas contemporâneos que perambulam pelo México. Os traduzi com alegria, mas tenho também que confessar a estranheza do trabalho: pensar que duas línguas tão vizinhas, que duas culturas tão parecidas (a mexicana e a brasileira) necessitam de tradução em pleno século XXI, essa era de nomadismos e convívios de diversidade, foi algo que me deixou um tanto confuso.

O título da antologia é tirado de um poema (“A bruxa”) de Carlos Drummond de Andrade. Com poemas publicados apenas em português (grande responsa para mim), a antologia reúne um pouco do mistério e do erotismo que permeiam o imaginário linguístico dos mexicanos de hoje. Num esforço de renascimento após uma ironia cruel do Fernando Reyes no prefácio do livro (e que ouvi de sua própria boca enquanto caminhávamos pela Paulista), esta antologia demonstra que a poesia mexicana não descansa em Paz.