A fala, o melhor espetáculo

 

“Whorf dizia que a fala é o melhor espetáculo encenado pelo ser humano. (…) É que a fala – mediando, entremeando e trespassando todas as nossas atividades cotidianas, inclusive os delírios oníricos – aqui e ali se configura de modo distinto, notável, superando a visada meramente pragmática da comunicação técnica imediata. São pontos luminosos, cristalizações sígnicas diferenciadas em meio ao conjunto total das condutas verbais. E assim podemos nos aproximar do – e talvez flagrar o – momento em que a palavra poética brota da palavra prática, desenhando um torneio digno de nota pelo arranjo dos elementos que o constituem. Desse ponto de vista, se a fala é o melhor espetáculo encenado pelo ser humano, ela às vezes apresenta um espetáculo dentro do espetáculo: a poesia. Mas não se pode, por outro lado, reduzir o poético ao poema. o poético pode se encarnar num poema tanto quanto no futebol, em tiradas que ressoam nas ruas, no paleio mais inconseqüente. Ou seja: há um espetáculo dentro do espetáculo, mas que não coincide necessariamente com os limites do objeto “poema”. Ele pode repontar em qualquer comportamento lingüístico, embora seja a marca registrada das artes da palavra.

Em suma, esses jogos verbais – e poesia é isto, para desespero dos “conteudistas”: jogo verbal – permeiam a nossa vida.”

 

Antônio Risério em Oriki Orixá.

4 comentários sobre “A fala, o melhor espetáculo

  1. Deixo-te isto, que penso, faz “eco” ao teu post:‎

    “… a voz é uma subversão ou uma ruptura da clausura do corpo. Mas ela atravessa o limite do corpo sem rompê-lo; ela significa o lugar de um sujeito que não se reduz à localização pessoal. Nesse sentido, a voz desaloja o homem do seu corpo. Enquanto falo, minha voz me faz habitar a minha linguagem. Ao mesmo tempo me revela um limite e me libera dele.”

    [Paul Zumhtor]

    Beijos.

  2. adorei o que o Whorf fala da fala, mas se fosse possível gostaria de saber de onde foi retirado essa citação? (referência), pois eu tenho interesse em estudar as “falabilidades” em todas as áreas.
    Zumthor é um dos pensadores que tem me ajudado muito a entender várias questões que envolvem oralidade e vocalidades.
    Também adorei o post deixado pela Katyuscia.
    Parabéns pela escolha do tema: a fala.
    Sugestão de leitura: “Performance, recepção, leitura”, de Paul Zumthor.
    Um abraço, Lia Testa

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