A revolta do vinagre ou “não temos tempo de temer a morte”

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Muita gente anda dizendo que não está entendendo nada. Da coluna do Antonio Prata na Folha ao pronunciamento da presidente sobre as manifestações de segunda-feira, todos parecem querer dizer a mesma coisa: “não estou entendendo nada”. O poeta Carlito Azevedo postou numa rede social: “Quem não estiver confuso não está bem informado”. A frase, que ele encontrou num dos cartazes da manifestação, foi originalmente dita pelo detestável Delfim Neto por ocasião da crise mundial. Como lembrou minha amiga Fabiana Motroni no twitter, nada mais apropriado para ambos os casos.

Mas será realmente tão difícil compreender o texto e o subtexto de todas as falas e gritos de revolta pelas ruas do país? Vinte centavos foram a gota d’água de uma série de abusos que vêm nos acompanhando incessantemente há mais ou menos uns 500 anos. Um dia o caldo entorna, e vinte centavos passam a ser uma fortuna incontornável.  Muito sobre isso já foi dito. Que não é esse o primeiro protesto decorrente de um aumento nos preços das passagens. Que o movimento pelo passe livre não é novo.

O que talvez não tenha sido dito ainda em palavras explícitas e reunidas num canto só é:

“Nesses vinte centavos, vocês querem mais uma vez nos fazer de otários. Não aceitaremos isso mais.”

E eis o texto que acompanha:

“Há tempos estamos saindo às ruas. São inúmeras as marchas. Marcha contra Belo Monte. Marcha das vadias. Marcha contra Marcos Feliciano. Marcha contra Renan Calheiros. Marcha contra a corrupção. Marcha contra a Pec 37. Marcha contra o genocídio de índios. Marcha pela melhoria da educação. Marcha contra a desapropriação da Aldeia Maracanã. Marcha disso, marcha daquilo.

Mas vocês não ouvem. Gritamos e vocês fazem ouvidos moucos, fingem-se de surdos. Fingem que não é com vocês.

Disseram e sustentam que esta é uma democracia. Mas sabemos que para vocês o país só é democrático na época das eleições. Somos obrigados a ir às urnas para escolher entre o ruim e o pior. Não bastasse isso, não se sentindo satisfeitos com a democracia de aparências, vocês procuram os desfavorecidos para comprar seus votos. Vocês já têm as cartas marcadas e nos querem usar para validar a sua democracia.

Então um dia, saímos para reclamar e vocês nos jogam na cara suas bombas de gás lacrimogênio, seus sprays de pimenta, suas balas de borracha, seus militares-cães-de-guarda e pensaram que iríamos nos acovardar. Mas nós nos cansamos, caros políticos. Não nos acovardamos desta vez. Saímos aos milhares e vocês fizeram suas demonstrações de guerra contra nós. Provaram que estão mentindo. Nós não queremos  a sua truculência. E por isso agora já somos milhões.

Podem usar a mídia para confundir os confusos, mas vocês não conseguirão conter a fúria de um povo abusado. Como diz um verso do Chico Science: “um homem roubado nunca se engana”. Estamos cansados.

Estamos cansados dessa política que é definida pelas empresas privadas, pelos capitalistas interessados, pelos altos lucros das megaempresas.

Estamos cansados de política tratada como negócio.

Estamos cansados de manipulação das informações.

Não somos crianças. Não somos idiotas. Chega de abusar da nossa paciência.

Presidente, você não tem coragem para admitir que seu país está iniciando uma insurreição e quer tratar os protestos apenas como mais uma onda de “marchas”. Você se finge de tola, mas sabe muito bem que seus panos quentes não resolverão. Queremos que você ouça as lideranças do seu país. Queremos que você converse com os índios, as mulheres, os negros, os representantes das classes. Não queremos que você seja só uma gerentona. Queremos alguém capaz de enxergar a vida para além da economia. Se quiséssemos só uma gerente, teríamos eleito um ministro da economia e não uma presidente.

Governadores, não queremos que sua polícia militar garanta a segurança de outro que não nós. Avisamos que se continuarem soltando seus cães contra nós, vocês correm o risco de que eles também se unam à nossa causa. Porque a nossa causa é também a deles. Vocês também os exploram. Os treinaram para serem cães, mas mesmo os cães quando maltratados um dia se voltam contra seus donos.

Prefeitos, não queremos que vocês vivam com as calças abaixadas para as oligarquias do transporte. Não queremos nosso dinheiro investido na Copa do Mundo quando milhões de pessoas morrem de fome, de pobreza e de falta de educação. Não queremos a cidade vendida e loteada para que só alguns ricaços apodreçam de tanto ganhar dinheiro às nossas custas.

Senadores, deputados, vereadores, não queremos que vocês votem mais leis contra nós mesmos. Não queremos Cura Gay. Não queremos Ato Médico. Não queremos impunidade. Não queremos, sobretudo, pagar tantos milhões ao ano para sustentar vocês.

Estamos cansados!”

 

É isso que dizem os cartazes. Quem não entendeu, ou é porque é mais conveniente, ou é porque não quer ver, ou é, ainda, porque preferem ter esperanças numa possível burrice dos participantes. O que talvez dê no mesmo.

5 comentários sobre “A revolta do vinagre ou “não temos tempo de temer a morte”

  1. Rena, neste momento eu seria a pessoa mais apática e insensível do mundo se não tivesse prestado bem atenção no que estava sendo dito: eles passam todos os dias debaixo da minha janela e me sinto obrigado a juntar-se a eles. Vi as demonstrações de guerra da polícia com meus próprios olhos, a Paulista sitiada, os soldados correndo na direção do vazio e lançando tiros em qualquer pessoa que viesse pela frente, metralhadoras apontadas para pessoas que se escondiam umas atrás das outras com medo de serem atingidas. Vi cenas que nunca vou esquecer na vida.

    Ah, e obrigado pela foto. A encontrei no seu blog. Não vi meios de dar os créditos.

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