andityas soares de moura

meu amigo andityas acaba de publicar este poema na revista portuguesa oficina de poesia e me mandou por email. também quero compartilhá-lo com vocês.

Língua de fogo do não

Não se pode escrever o poema.

Os tempos são duros, inflexíveis.
Taciturnos até. Dão “bons dias”
por obrigação e recato.

Não se pode sequer ler o poema.

As pessoas andam cabisbaixas,
Riem à toa – como patetas – e morrem.
Morrem como quem nunca quis nada.

Não se pode nem mesmo pensar o poema.

É proibido.
É indecente o poema.

O poema não produz dividendos. Não distribui lucros. Não faz dormir melhor. O poema não sorri nas campanhas eleitorais.

O poema não gosta de telenovela e nem está preocupado em como estacionar no shopping-center.

O poema não quer ter filhos, se casar e planejar férias anuais. Não tem e nem faz economias.

O poema não deixa e não anota recados.

O poema não investe em ações, não paga imposto de renda e não sabe como se portar à mesa com dignidade e fineza.

O poema não acredita na Previdência Social.

O poema não toma banho todos os dias. Não paga a escola das crianças. Sequer ajuda a financiar os cursos de inglês de que elas tanto precisam para subir na vida.

O poema não tem cartão de crédito e nem religião. Jamais freqüenta bailes de debutantes e nunca foi visto nas festas de Natal da empresa.
O poema não vai ao barzinho da moda.

O poema nunca está no escritório.

O poema não faz visitas sociais. Não tem celular e não confia nas urnas eletrônicas. O poema não está deprimido.

O poema falta às sessões ordinárias da Academia de Letras.

O poema não come todas.

O poema não é tributável. Nem atóxico, inodoro ou inquebrável.

O poema não sabe ficar quietinho.

O poema não pode ser preso.

Nem torturado, morto, estuprado, sequestrado, mutilado, roubado, operado, sodomizado, reeducado, dopado, humilhado, bombardeado, conquistado, saqueado, raptado, ameaçado, multado, eletrocutado, queimado, furado, cegado, crucificado, desmembrado, enforcado, guilhotinado, pisado, garroteado, picado, partido, moído, quebrado, cortado, empalado, frito, cozido, assado, esquecido, vencido, lavado, desintoxicado, trucidado, massacrado, escravizado, humanizado, podado, censurado, amarrado, enganado, corrompido, comprado, convencido, julgado, condenado, apenado, difamado, injuriado, caluniado, desacreditado, distorcido, adulterado, anulado ou apagado.

O poema também não pode ser calado.

O poema é um comilão, um vagabundo, um inútil mesmo.

Isso é o que ele é.

………………..

Infame ter de se concentrar para sentir
o pejo de um mundo sem poesia.

2 comentários sobre “andityas soares de moura

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *