Todos os posts de Leo Gonçalves

Sobre Leo Gonçalves

Leo Gonçalves é poeta, tradutor, curioso de teatro, música, cinema, política, culinária, antropologia, antropofagia, etnopoesia e etnologia, vida, educação, artes plásticas etc.

CAHIER D’UN RETOUR AU PAYS NATAL

E eis que de repente força e vida me assaltam como um touro e a onda de vida circunda a papila do morro, eis que todas as veias e vesículas se apressam ao sangue novo e o enorme pulmão dos ciclones respira e eis o fogo tesaurizado dos vulcões e o gigantesco pulso sísmico batendo agora o compasso de um corpo vivo no meu firme abrasar.

Aimé Césaire
Diário de um retorno ao país natal

O Diário de um retorno ao país natal, nome que ganhou na excelente tradução da brasileira Lilian Pestre de Almeida, publicada em 2012 pela Edusp, é, acima de qualquer dúvida, um dos marcos mais importantes da poesia ocidental no século XX, ao lado (dentre outros) de Waste Land de T.S. Eliot, The Cantos de Ezra Pound e o Howl de Allen Ginsberg. Nada estranho, no entanto, que tenha passado às ocultas para os grandes diálogos sobre literatura nas escolas do Brasil, sempre ocupadas em discutir a poesia feita por autores brancos, sempre ocupadas em negar seu desinteresse pelas produções dos negros, sempre atenta em acordar valor às vanguardas europeias e em esquecer vanguardas de outros rincões do planeta, resumindo: das escolas eurocêntricas daqui que não nos ensinaram que um dos maior poetas do século XX foi um negro da Martinica. Talvez, inclusive, que o grande poeta do surrealismo talvez não tenha sido um poeta do surrealismo, propriamente, mas da Negritude.

Mas não é assim em todo o mundo. Aimé Césaire é tido como um dos maiores entre os maiores autores da língua francesa. Jean-Paul Sartre já declarava isso em 1948, assim como André Breton para quem ele era um negro que maneja a língua francesa como não há um branco capaz de fazê-lo. Sua importância foi crescendo, na medida em que o Cahier se tornou um marco para todas as literaturas do continente africano, obra primordial, lida em todos os idiomas possíveis e em todas as Áfricas possíveis, assim como em países do Caribe, nos Estados Unidos, na Europa e onde quer que se queira conhecer um poeta que, para além de sua riqueza laminar, pode ser considerado aquele que fez literatura anticolonial como ninguém, um rebelde da língua. De tal maneira que, ao falecer em 2008, o racista Nicolas Sarkozy (então presidente da França) não podia fazer menos do que enterrá-lo no Panthéon, honra concedida somente a dois outros escritores antes dele: Paul Valéry e Victor Hugo. Provavelmente por ter levado a língua francesa a limites e lugares onde poucos escritores chegaram.

Faço questão de comentar sobre seus leitores e reconhecimentos em outros ambientes além do já esperado conjunto “negro” justamente para dizer isso: que sua poesia, profundamente marcada por um vocabulário racializado (a Aimé Césaire é atribuída a invenção da palavra Negritude, por exemplo), ocupa também outros espaços e ganha um tal nível de transbordamento que fica impossível reduzi-lo a um gueto, uma seita, um espaço pré-estabelecido dentro da literatura para pessoas negras, tal como é costume no Brasil. Aimé Césaire, para quem a Negritude consistia na retirada das camadas superficiais até que se chegue no mais profundo, que é, segundo ele, o “negro essencial”, era, insisto, um gigante.

E isso se dá porque sua poesia nunca foi uma prestação de contas para o que ele chama de “mundo branco”. Ao contrário, ela assustou esse mesmo mundo branco em sua época, por ser uma conversa entre pessoas não-brancas que não estavam dando a mínima para aqueles leitores que, segundo Sartre (que escreveu o prefácio a uma antologia-manifesto do movimento da Negritude), “gozaram durante 3 mil anos do privilégio de ver sem serem vistos”. Por fundamentar um diálogo de um mundo que dá de ombros para o que esperam dos negros os brancos. “Quando eu digo Negritude”, a fala é de Césaire numa entrevista em 2006, “é justamente para incomodar o branco. Ele me lança o insulto: “negro!”, e nós recolhemos essa palavra. Pois bem, sou negro sim! E isso te chateia, não é mesmo?”

O Cahier é, nas palavras de Lilian Pestre de Almeida, um discurso-serpente, um longo poema de transformação e de autoconhecimento. Relato do reencontro do homem negro com sua “terra natal”, que pode ser a Martinica, a África, sua própria aceitação, ou, indo mais ao fundo, o negro essencial. Está repleto de passagens arrebatadoras, num jogo entre a memória e a iluminação. Entre o grito de revolta e o grito do despertar. Entre a potência do momento primordial de todo poema épico e o lirismo de quem avança para mais adiante clamando a todos os demais que venham junto.

E está de pé a negrada

a negrada arriada
inesperadamente de pé
de pé no porão
de pé nas cabines
de pé na ponte
de pé ao vento
de pé sob o sol
de pé no sangue
de pé
e
livre
de pé e não pobre louca na sua liberdade e seu despojamento marítimos girando na deriva perfeita
ei-la:
mais inesperadamente de pé
de pé nos cordames
de pé junto à barra
de pé junto à bússola
de pé diante do mapa
de pé sob as estrelas

de pé
e
livre

(…)

*

Proposição

Há pouco mais de dez anos que venho lendo, conhecendo e estudando a obra de Aimé Césaire e que perpasso, sempre admirado, as páginas do Cahier (que eu costumava pensar mais como Caderno de um retorno à terra natal). Ao longo desse tempo, vim colecionando textos, livros, poemas que lhe fazem referência, estudos, glossários (extremamente necessários para um poeta de vocabulário gigantesco e que explode com os limites de seu idioma), entrevistas, biografias.

Eu gostaria de compartilhar um pouco dessas leituras com mais pessoas por aqui. Ouvir impressões. Conhecer pontos de vista diferentes do meu e dos dos autores que tenho lido. Por isso, estou organizando um programa que chamo de “Leitura Aberta”. Uma leitura integral do poema, que se abriria, na medida do possível, a um debate na sequência. Não tenho data nem local. Estou aberto a propostas. Para falar comigo, basta clicar em contato, no cabeçalho deste blog ou clicar AQUI.

La medusa dual | Antologia bilingue de poesia mexicana

“Poetas polisexuales, poetas bombas, poetas que brotan como pájaros com cabeza de niños y de niñas, poetas que surfam las ruinas del apocalipsis primaveril. “Me gustas más cuando te sueño… entonces hago de ti lo que quiero”, dice Rulfo, fazendo referencia também al lenguaje. Y es másomenos eso lo que fazem los poetas en esta antologia: usam el propio cuerpo como instrumento musical. Curtem sonhar la poesia y hacer de ella una bomba, una metralleta erótica, uma arma química verbal kontra todas las fuerzas que nos quieren tristes, mezquinos, impotentes, depres y cagones.”

Douglas Diegues na “Lectura previa” a La medusa dual

*

Acaba de ser publicada na Cidade do México a antologia La medusa dual [A medusa dual], da poesia mexicana atual. O livro tem organização de Fernando Reyes, parceiro com quem já publiquei a antologia Tenho tanta palavra meiga, também de poetas mexicanos vivos. Os poemas aparecem em espanhol e em português, com tradução de Leo Gonçalves, este que vos fala.

La medusa dual [A medusa dual] traz poemas de Armando Alanís, Jorge Contreras, Isolda Dosamantes, Jesús Gómez Morán, Antonio Hernandes Villegas, Leticia Luna, Aglae Margalli, Daniel Olivares Viniegra, Guadalupe Sánchez Linares, Lina Zerón, Pedro Emiliano, Arturo Trejo Villafuerte, Uriel Reyes, Patricia García, Andrés Cisneros de la Cruz e Fernando Reyes.

A antologia mostra um pouco da grande diversidade inventiva dos mexicanos, sempre pensando naquela ideia de Fernando, de mostrar que a poesia mexicana “não descansa em Paz”, ou seja, que ela não parou apenas nas aulas do Prêmio Nobel Mexicano, Octavio Paz. Erotismo e tradição. Ficção e trevas. Surrealismo e feminismo.

Quem assina o prefácio da antologia é Douglas Diegues, nosso maestro del portuñol salvaje. O livro aparece pela Cisnegro – Lectores de alto riesgo, capitaneada pelo maestro Andrés Cisneros.

*

Título: La medusa dual / A medusa dual
Compilador: Fernando Reyes
Tradução ao português: Leo Gonçalves
Editora: Cisnegro
Ciudad de México, 2017

É agora como nunca | em Portugal

Está disponível desde maio, para o público português, o livro É agora como nunca: antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira. Organizado por Adriana Calcanhotto, o livro foi inicialmente publicado no Brasil pela Companhia das Letras e deu bastante assunto na virada do ano. Entre críticas e salvas de palmas, foi lançado nas principais cidades do Brasil, sempre com participação dos autores em leituras de poesia.

Dou destaque especial para a manhã de autógrafos em que estive presente em Belo Horizonte, na companhia das poetas Camila Nicácio, Alice Sant’anna, Ana Martins Marques e Simone de Andrade Neves. Também tive o prazer de participar do evento que teve lugar no Tapera Taperá, na região central de São Paulo.

“A reunião dos poetas sabe-se incompleta e é totalmente pessoal, intransferível, autoral, ou o contrário. Um instantâneo da poesia brasileira agora, em volume único para viagem”, afirma a organizadora no prefácio da antologia. Despretensiosa, ela procura fazer uma narrativa à sua maneira das diversas vozes (em seus cantos, se tanto) que perambulam pelas páginas do Brasil atual. “A arrumação do ritmo do livro por inteiro funcionou como um delicioso exercício de composição”, ela comenta.

É para mim uma grande honra estar entre poetas que tanto admiro, e selecionado por uma artista que sempre demonstrou imensa sensibilidade para a poesia como linguagem (o disco “A fábrica do poema” nunca me saiu da cabeça). A edição também é motivo de festa, tomando parte que estamos numa bela coleção de poesia que inclui também Paul Celan, Luis Cernuda, Philip Larkin, Cesare Pavese, Antonio Machado e tantas e tantos outros.

É agora como nunca: antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira
Organização e apresentação de Adriana Calcanhotto
Lisboa: Editora Cotovia, 2017
À venda nas melhores livrarias de Portugal

Mais informações no site da editora:
www.livroscotovia.pt

Retendre la corde vocale: anthologie de la poésie brésilienne vivante

Em outubro de 2016, foi publicada na França a antologia Retendre la corde vocale: anthologie de la poésie brésilienne vivante [Retesar a corda vocal: antologia da poesia brasileira viva]. Organizada e traduzida por Patrick Quillier, a obra reúne autores de sete gerações, de Ferreira Gullar (1930-2016, vivo ainda quando foi lançada) a Reuben da Rocha (1984-). O recorte realizado é especial porque é único e diversificado. A narrativa proposta por Patrick é interessante por estar fora dos vícios típicos da vida intramuros, das fofocas da aldeia, das passáveis histórias para boi dormir que os poetas contam uns aos outros enquanto se lambem ou se cospem. Reúne autores de diversos cantos do país, sem estar à caça necessariamente de representantes de cada estado ou de cada identidade. São ao todo 29 poetas que ele traduz com surpreendente maestria, ele que também traduziu as obras completas de Fernando Pessoa para a Pléiade (aquela do papel bíblia). Patrick é um dos raros (e admiráveis) exemplos de poetas ouvintes. Aqueles que estão à escuta do mundo e também à escuta dos outros poetas, como o vi pessoalmente, nas plateias (ele sendo um dos poetas convidados) de várias das leituras de poesia no Festival Voix Vives de la Méditerranée de 2017.

Apesar de lançada no ano passado, somente agora a tenho em mãos. Trata-se de um alentado bouquin de 264 páginas, em formato 29,5×15 cm, com os poemas impressos apenas em francês, na maioria das vezes sem a disponibilidade de uma página inteira para abrigá-los individualmente.

Tive a alegria de acompanhar uma pequena parte do processo de sua feitura. Ao ficar pronto, recebi e li imediatamente os originais enviados pelo tradutor. Fiquei espantado com a qualidade do feito e, desde então, guardo para mim (e o realizo finalmente agora) o plano de traduzir o “Prelúdio”, para que mais poetas e leitores possam ter acesso no Brasil. Espero ser útil.

Não quero deixar de agradecer, aqui mesmo, o trabalho magistral do Patrick Quillier, a generosidade dos editores Françoise e Pierre, da Maison de la Poésie Rhône-Alpes e a hospitalidade das editoras Sandrine Giraud e Juliette Combes Latour da editora Les Temps des Cerises. Sem falar na carinhosa cessão das obras que ilustram o livro, feitas por Gerard Serrée (que tive o prazer de conhecer pessoalmente em 2016) e do cuidadoso trabalho feito pela designer Chloe Garrigues (não é só a antologia, confiram o catálogo da editora, é coisa fina!). Todas essas, são coisas pelas quais não dá para passar ileso. Merci.

*

PRELÚDIO – por Patrick Quillier

Nas músicas antigas e tradicionais, o prelúdio era esse momento que precedia a música propriamente dita, durante o qual se afinava o instrumento, para que soasse bem, por um lado, para instalar, por outro, aquilo que os gregos chamavam de ethos da música, ou dito de outro modo, a atmosfera ligada à maneira que ela seria empregada. Emprestando de um poema de Leo Gonçalves o verso “retesar a corda vocal”, para fazer dela o título desta antologia, assinalamos a esses propósitos liminares a tarefa perigosa de preludiar várias atmosferas, ou dito de outro modo, ao ethos singular de cada um dos poetas apresentados neste livro. Ora, para tal, dificuldade suplementar, convém antes que este prelúdio dê a ouvir, tanto as razões das escolhas de suas vozes, como as da ausência neste concerto, de outras vozes tão singulares quanto.

De modo puramente arbitrário, como nos propomos desafios, foi decidido receber aqui somente os poetas ainda em vida no momento da confecção do livro. Isso não quer dizer que não está viva a poesia daquelas e daqueles que pertencem às gerações representadas aqui, mas já se foram. Claro que não! Nós ouvimos, tão presentes quanto as dos vivos de hoje, as vozes dos vivos de ontem, por exemplo, para citar apenas alguns desses ausentes, nascidos após os anos 1920, e tão fortemente presentes nos espaços mais preciosos da memória: Hilda Hilst (1930-2004), ela que dizia “O pássaro desenha/em seu voo estranho/um círculo de luz”, ou ainda: “Melhor vale um cachorro vivo que um leão morto.”; Roberto Piva (1937-2010), com suas pernas que sonhavam “suspensas sobre o abismo”; Orides Fontela (1940-1998), ela que dizia “res/pirar/o mais perto/do pássaro”; Paulo Leminski (1944-1989), ele que se dizia “um cachorro louco/que deve ser morto/a pedra a pau a pique”; Torquato Neto (1944-1972), que se dizia “pronome/pessoal intransferível” nascido sob o signo de um “anjo louco”; Adão Ventura (1946-2004), esse negro a quem o câncer minou o sangue, seu sangue entretanto “sempre mais forte/tão forte quanto as imensas pedras/que [seus] ancestrais transportaram/para edificar os palácios dos reis”; Ana Cristina César (1952-1983), ela que dizia, antes do seu suicídio: “tenho uma vida branca/e pura que me espera”; Hilda Machado (1952-2007), cujo suicídio não apagou o eco de sua voz, sua voz “murmúrio de anjo”…

Outras vozes de autores sempre vivos teriam podido tomar lugar neste concerto, pois elas também nos acompanham, mas toda escolha é cruel, principalmente por parte de quem tem que fazê-la. Mil perdões, entre outros a: Adélia Prado (1935-), que confessa que a poesia se apossa dela “com sua roda dentada” para forçá-la “a escutar imóvel/seu discurso esdrúxulo”; Leonardo Fróes (1941-), grande tradutor, e grande amigo dos pássaros como de sua língua, diante do eterno (“no delírio urbano ressoa/sem função social senão deixar/que a boca filosofe assobiando/e o ouvido obediente perceba”); Antonio Cícero (1945-), com seus cantos filosóficos, justamente (“Eis o poeta cego./Abandonou-o seu ego./Abandonou-o seu ser./Por nada ele verseja./Bem antes do amanhecer/em seus versos talvez se veja/diverso de tudo o que seja/tudo o que almeja ser.”); Paulo Henriques Britto (1951-), e sua palavra desprovida de toda grandiloquência, “esfinge estilizada,/sugerida apenas, como convém/a um monumento, ou cenotáfio, ao nada.”; Edson Cruz, (1959-), seus poemas mestiços, sua palavra generosa, sensível e lapidar, cuidadosa “das coisas sem voz/dos seres sem vez”; Carlito Azevedo (1961-) com suas “salvas de arrepio”; Claudia Roquette-Pinto (1963-), tão atenta ao “som de cascos ancestrais”, à “rima lívida nos lábios, à “dor sem voz”; Paula Glenadel (1964-) ventríloqua de sua própria voz “de epifania”; Eliane Marques (1970-), e os batuques de seus poemas negros (“tal seu ofício/ofício negro/hera em cada mano”); Marcelo Sahea (1971-), esse virtuose da poesia verbivocovisual (“por que assim/do útero ao caixão?/por que não/outro percurso?/por que não/na contramão?/por que não/ser inconcluso?”); Veronica Stigger (1973-) e os estouros satíricos de seus poemas breves (“Juro: não queria ter atirado no dragão”.); e, entre os mais jovens, os promissores Victor Heringer (1988-), renovador provável da epopeia em seus poemas narrativos e discursivos; e Italo Diblasi (1988-), poeta áspero e percussivo (“paremos, portanto, de fingir/que Nietzsche estava errado/quando enlouqueceu às portas/de explicar esse caralho”)… E tantos outros, pois o Brasil é rico de numerosas vozes. Seria preciso vários tomos, como o fez outrora, pela poesia francesa do século XX, o caro Pierre Seghers.

Há, portanto, no presente volume, 29 vozes a ouvir. Todas a sua própria maneira, retesaram a corda vocal para afiná-la à singularidade de seu timbre respectivo. O primeiro poeta deste livro faz referência à morte de Oswald de Andrade, no dia 22 de outubro de 1954 e a seu enterro dois dias depois. Ferreira Gullar, o mais velho dos poetas aqui presentes, ao render-lhe homenagens parece, por esse caminho, inaugurar também uma nova era na história da poesia brasileira. Nós lhe oferecemos um lugar de peso, em razão de sua importância e de sua originalidade, tanto em relação a seus predecessores quanto em relação a seus contemporâneos, e está aí a razão pela qual demos integralmente a tradução de seu longo e famoso “Poema sujo”. Quanto a Oswald de Andrade, nascido em 1890, ele foi um dos poetas mais importantes do modernismo brasileiro, autor do Manifesto Antropófago (1928), onde pregava não a rejeição das culturas estrangeiras, em particular as europeias, mas sua apropriação, assimilação e devoração de toda espécie.

No começo de nosso livro, a página desta que notadamente foi chamada de antropofagia é virada. Para tanto, a questão da cultura brasileira, das culturas brasileiras, deveríamos aliás dizer, não está caduca. Ouviremos aqui diversas gerações que colocam essa questão em termos sempre renovados. Vozes como as de Regina Célia Colônia, companheira de estrada do destino de certos povos ameríndios, e de Eliane Potiguara, militante da afirmação pacífica das identidades indígenas pelo viés de sua defesa e ilustração, nos permitem por exemplo compreender o formidável rumor, sempre vivo, das culturas antigas do país. Quanto a Josely Vianna Baptista, ela dá para essas culturas do país um lugar de escolha na fenomenologia de algum modo selvagem, para retomar um conceito de Merleau-Ponty, que ela elabora em sua obra. Quanto a eles, poetas como Cuti, Ricardo Aleixo, Ronald Augusto, Edimilson de Almeida Pereira, Leo Gonçalves, mostram, eles que pertencem a diversas gerações, que as vozes da negritude não cessam de ter que se fazer ouvir nesse país onde o racismo institucional é assassino. Vocês ouvirão as batidas rítmicas dos rituais transmitidos por herança africana ainda vivazes no Brasil, por exemplo, nos poemas-candomblés de Cuti, a homenagem rendida por Ricardo Aleixo aos grandes nomes da Negritude, a evocação das divindades iorubás por Ronald Augusto, a oração chamada de “ofó” balbuciada por Leo Gonçalves…

Ademais, a ressonância de episódios históricos que modelaram a memória coletiva do Brasil marca certos poemas apresentados. Notaremos, por exemplo, a referência recorrente aos bandidos populares do sertão, os cangaceiros, através da evocação de alguns dentre eles como Lucas da Feira (em Sebastião Nunes), Virgulino (Cida Pedrosa) e sua companheira Maria Bonita (Ricardo Domeneck). Nenhuma dessas referências se parece com a outra, uma vez que seus dispositivos nunca são os mesmos, que as conotações diferem e que as senhas que se perfilam em plano de fundo são definidas pelas especificidades próprias a cada geração. Eis aí, aliás, um ponto característico do presente livro: pode ser lido, apesar das ausências, como um levantamento revelador dos traços distintivos de diversas gerações, que vão de Ferreira Gullar, nascido em 1930, a Reuben da Rocha, nascido em 1984, dito de outro modo, exatamente trinta anos após a morte de Oswald de Andrade mais de cinquenta anos após o nascimento do autor do “Poema sujo”. O último poema do livro, escrito por esse jovem autor, pode aliás ser lido como a expressão da incessante renovação operada pelas sucessivas ondas humanas.

Uma primeira geração é representada pelo poeta engajado Ferreira Gullar (1930-), o poeta virtuose Augusto de Campos (1931), e o engraçadíssimo poeta fantasista Zuca Sardan (1933-). Uma segunda geração, tão diversa quanto, é constituída aqui pelo extraordinário poeta satírico Sebastião Nunes (1938-), a poeta de um só livro (mas que livro, esse que contém, cristalizada, toda a cultura ameríndia!), Regina Célia Colônia (1940-), e a excepcional poeta lírica Elisabeth Veiga (1941-). Uma terceira geração se compõe aqui de Lu Menezes (1948-), poeta da cosa mentale escandida no corpo do tempo, Eliane Potiguara (1950-), cujos cantos lancinantes fazem reviver velhos cantos xamânicos, e Cuti (1951-), um dos primeiros grandes cantores da poesia afro-brasileira. Podemos reagrupar numa quarta geração as vozes de Adriano Espínola (1952-), que sintetiza os modernismos e abre a via para o pós-modernismo, de Salgado Maranhão (1954-), autor de uma obra exemplar de sinergia para retomar um termo utilizado a seu tema por Ferreira Gullar, de Regis Bonvicino (1955-), “infatigável renovador”, áspero observador das realidades modernas, e de Josely Vianna Baptista (1957-), cujo trabalho tão original sobre as relações entre linguagem e mundo é de uma grande potência. Uma quinta geração reagruparia aqui os poetas seguintes, todos nascidos nos anos 60: Ricardo Aleixo (1960-), adepto de uma poesia ação instalada no cerne dos interstícios e das interconexões de todas as ordens; Ronald Augusto (1961-), grande ritmista de palavras na forja alquímica do poema; Edimilson de Almeida Pereira (1963-), exemplo brilhante de poeta antropólogo preocupado com a mestiçagem das culturas; Cida Pedrosa (1963-), poeta engajada na cidade e promotora do “poemaponte”; Marcos Siscar (1964-), o poeta da lucidez, o poeta atento “às infinitas semelhanças entre as palavras justapostas e as vidas apagadas”; e Renato Negrão (1968-), poeta da vida urbana, com seu verbo percussivo e revigorante, hábil em desfazer as categorias que atuam nas ideias prontas. Os poetas nascidos na primeira metade dos anos 70 formariam uma sexta geração, ainda mais claramente inscrita no pós-modernismo que ela submete a tensões, torsões, provas. É assim que Angélica Freitas (1973-), Marcus Fabiano Gonçalves (1973-) e Dirceu Villa (1975-) fazem dela uma arma satírica contundente, ela com a mais jubilosa das irreverências, o segundo com a acuidade impiedosa do humor negro, e o último se valendo de todas as fontes que lhe fornecem sua impressionante maestria da língua e sua imensa erudição. Quanto a Leo Gonçalves (1975-), sua forma de retesar a corda vocal é particularmente singular, pois ele insufla a seus poemas-manifestos a grande variedade de sopros herdadas das tradições africanas. A sétima geração de nosso pequeno concerto faz ouvir as vozes de Ricardo Domeneck (1977-), poeta que consegue colocar juntas a ironia e o fervor, narrativa e reflexão, pós-modernismo e atemporalidade, de Marília Garcia (1979-), em quem a autobiografia e a reflexão filosófica formam uma espécie de geografia mental inovadora, de Fabiana Faleiros (1980-), com textos e performances provocadores e faceciosos, de Érica Zíngano (1980-), voz acerba e jubilosa, e de Juliana Krapp (1980-), cujo universo poético denso e estranho poderia parecer operar um ultrapassamento original dos impasses do pós-modernismo. Menção especial a Reuben da Rocha (1984-), anunciador de práticas e de temas novos, talvez em prelúdio a outras publicações.

O mundo da comunicação globalizada veicula sobre o Brasil ora um carregamento de clichês tropicais, ora uma onda infinita de informações trágicas: miséria extrema; violência; principalmente contra ameríndios e negros; desflorestamentos; corrupção endêmica e institucionalizada, etc. Ao mesmo tempo, o Brasil é apresentado como “uma potencia emergente” no concerto econômico mundializado.

Esta antologia pretende apresentar uma outra realidade do Brasil, aquela que fazem viver, em sua diversidade, a própria abundância, mas também sua surpreendente e admirável energia, poetas, mulheres e homens, de várias gerações e vindos dos quatro cantos do país, assim como da diáspora.

Vozes de mulheres, vozes de homens, com timbres, tessituras e ritmos diferentes, nos convidam a escutar neste volume a emocionante e revigorante polifonia de todo um povo, dos quais eles não cessam de “retesar a corda vocal”. A tradução se propõe dar a ouvir em nossa língua esse hino plural à vida que triunfa, apesar de terríveis adversidades.

*Patrick Quillier
Poeta, compositor, tradutor, universitário, nascido em 1953. Publicou dois livros de poemas pela Éditions de la Difference: Office du murmure (1996) e Orifices du murmure (2010). Foi premiado no concurso internacional de composição musical Fernando Pessoa” (Lisboa, 1985) por seu oratório Além da dor (a partir de textos de Fernando Pessoa). Traduziu não somente esse último (sobretudo para as Œuvres poétiques lançadas em 2001 na coleção Pléiade), mas também os portugueses Herberto Helder, Mário Cesariny, Alexandre O’Neill, António Osório, Pedro Tamen, António Franco Alexandre, Helder Moura Pereira, e alguns outros, dentre os quais o angolano Lopito Feijó. Ensina literatura geral e comparada na Universidade de Nice-Sophia Antipolis. Trabalha atualmente num grande afresco épico para a humanidade da qual ele apresenta fragmentos em performances, que ele realiza sozinho ou em colaboração com o músico tradicional Sérgio Morais.

(Tradução de Leo Gonçalves)

RETENDRE LA CORDE VOCALE
Anthologie de la poésie brésilienne vivante
Organisée, traduite et présentée par Patrick Quillier
Bacchanales nº 55 – octobre 2016
Revue de la Maison de la poésie Rhône-Alpes/Le Temps des Cerises.
ISBN: 978-2-37071-036-9
(À venda nas melhores livrarias francesas)

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Saiba mais sobre a revista Bacchanales e a Maison de la Poésie Rhône-Alpes e sobre a a editora Le Temps des Cerises nos endereços:
www.maisondelapoesierhonealpes.com
www.letempsdescerises.net

É agora como nunca

Feliz e em boa companhia, é como me sinto com esse livro cuja capa você pode ver logo acima. A lista dos poetas aparece lá mesmo, então nem precisarei listar. E a festantologia “É agora como nunca”, que sai num par de dias pela Companhia das Letras, já está repleta de atividades. Com dois lançamentos já marcados (dia 22/2 em SP e dia 18/3 em BH), tudo indica que ela agitará a vida do meu prestes a re-sair Use o assento para flutuar. Aguardem novas novas.

Use o assento para flutuar ganha segunda edição

USE O ASSENTO PARA FLUTUAR, 2016 Começaram os preparativos para a segunda edição de Use o assento para flutuar, que agora sairá pela editora Crisálida, em parceria com a Adelante.

Para facilitar o processo editorial, garantir a realização da edição e  definir melhor a tiragem, já disponibilizamos o livro para vendas antecipadas.

A data prevista para o lançamento é 15 de dezembro. O local e a hora serão divulgados em breve.

O Salamalandro manterá, durante todo o processo, uma página específica, destinada às notícias e informações sobre o livro e os dados referentes à aquisição (link na barra ao lado)

Para adquirir antecipadamente seu exemplar, basta seguir as orientações abaixo:

Dados para depósito ou pagamento via Paypal: 

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Ag. 3144
c/c 39146-7, em nome de Livraria Crisálida Ltda
CNPJ [pra quem precisar fazer TED ou DOC]: 03310289/0001-33
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– Se prefere recolher o livro no dia do lançamento, com autógrafo do autor. Neste caso, o valor é R$ 30,00

Uma vez realizado o pagamento, basta avisar à editora através do email: livraria@crisalida.com.br

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Para maiores informações, acesse a página:
http://www.salamalandro.redezero.org/poesia/use-o-assento-para-flutuar/

ou acesse este link para entrar em contato com o autor: http://www.salamalandro.redezero.org/contato/ 

 

Revista Polichinello #17 ─ Por uma vida não-fascista

Revista Polichinello nº 17 - Por uma vida não-fascista [http://revistapolichinello.wixsite.com/poli17]

Esta seria uma edição impressa, mas a direção foi outra, por incompatibilidade com dias tão difíceis. O cenário por aqui, de uma esfera a outra, declina por vias mais e mais sinistras. Efeito do espectro que assombra o país, vertiginoso retrocesso. Com leis e medidas em favor dos interesses mais reacionários, tudo devidamente agenciado por uma política que persegue, sem dissimular, conquistas sociais, e opera com a lógica de subtração e sequestro, com violação e exclusão, que esvaziam possibilidades, como diz o Esposito: «desonerando a vida».

Verdadeiro trabalho de resistência é a permanência desta revista Polichinello, comandada por Nilson de Oliveira. De grande importância na cena literária brasileira, tão carente de publicações do gênero, ela vem sendo mantida pela força da vontade de seus editores. Usualmente, é uma publicação impressa. Sintomático que justo no momento do crescimento de uma mentalidade fascista e conservadora, que obsessivamente se coloca contra iniciativas culturais como esta, o dinheiro necessário para sua realização tenha faltado. Nesse sentido, a coragem de manter de pé seu propósito inicial, ainda que garantindo apenas sua publicação virtual que, ainda assim, é de grande urgência.

Por uma vida não-fascista.
Neste número, se pode ler textos de René Char (com tradução de Contador Borges), Beatriz Preciado (tradução minha), Edmond Jabés (tradução de Eclair Antônio A. Filho). Poemas de Leo Gonçalves, Leonardo Gandolfi, Eduardo Sterzi, Marília Garcia. Ensaios de Élida Lima, Michel Foucault, Carolina Villada Castro. E tantas coisas mais!

Por uma vida não-fascista. Sim, é disso que precisamos. Não deixar que o monstro domine os cérebros vazios.

Quem quiser ler, é lá no: http://revistapolichinello.wixsite.com/poli17