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Sobre Leo Gonçalves

Leo Gonçalves é poeta, tradutor, curioso de teatro, música, cinema, política, culinária, antropologia, antropofagia, etnopoesia e etnologia, vida, educação, artes plásticas etc.

La medusa dual | Antologia bilingue de poesia mexicana

“Poetas polisexuales, poetas bombas, poetas que brotan como pájaros com cabeza de niños y de niñas, poetas que surfam las ruinas del apocalipsis primaveril. “Me gustas más cuando te sueño… entonces hago de ti lo que quiero”, dice Rulfo, fazendo referencia também al lenguaje. Y es másomenos eso lo que fazem los poetas en esta antologia: usam el propio cuerpo como instrumento musical. Curtem sonhar la poesia y hacer de ella una bomba, una metralleta erótica, uma arma química verbal kontra todas las fuerzas que nos quieren tristes, mezquinos, impotentes, depres y cagones.”

Douglas Diegues na “Lectura previa” a La medusa dual

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Acaba de ser publicada na Cidade do México a antologia La medusa dual [A medusa dual], da poesia mexicana atual. O livro tem organização de Fernando Reyes, parceiro com quem já publiquei a antologia Tenho tanta palavra meiga, também de poetas mexicanos vivos. Os poemas aparecem em espanhol e em português, com tradução de Leo Gonçalves, este que vos fala.

La medusa dual [A medusa dual] traz poemas de Armando Alanís, Jorge Contreras, Isolda Dosamantes, Jesús Gómez Morán, Antonio Hernandes Villegas, Leticia Luna, Aglae Margalli, Daniel Olivares Viniegra, Guadalupe Sánchez Linares, Lina Zerón, Pedro Emiliano, Arturo Trejo Villafuerte, Uriel Reyes, Patricia García, Andrés Cisneros de la Cruz e Fernando Reyes.

A antologia mostra um pouco da grande diversidade inventiva dos mexicanos, sempre pensando naquela ideia de Fernando, de mostrar que a poesia mexicana “não descansa em Paz”, ou seja, que ela não parou apenas nas aulas do Prêmio Nobel Mexicano, Octavio Paz. Erotismo e tradição. Ficção e trevas. Surrealismo e feminismo.

Quem assina o prefácio da antologia é Douglas Diegues, nosso maestro del portuñol salvaje. O livro aparece pela Cisnegro – Lectores de alto riesgo, capitaneada pelo maestro Andrés Cisneros.

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Título: La medusa dual / A medusa dual
Compilador: Fernando Reyes
Tradução ao português: Leo Gonçalves
Editora: Cisnegro
Ciudad de México, 2017

É agora como nunca | em Portugal

Está disponível desde maio, para o público português, o livro É agora como nunca: antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira. Organizado por Adriana Calcanhotto, o livro foi inicialmente publicado no Brasil pela Companhia das Letras e deu bastante assunto na virada do ano. Entre críticas e salvas de palmas, foi lançado nas principais cidades do Brasil, sempre com participação dos autores em leituras de poesia.

Dou destaque especial para a manhã de autógrafos em que estive presente em Belo Horizonte, na companhia das poetas Camila Nicácio, Alice Sant’anna, Ana Martins Marques e Simone de Andrade Neves. Também tive o prazer de participar do evento que teve lugar no Tapera Taperá, na região central de São Paulo.

“A reunião dos poetas sabe-se incompleta e é totalmente pessoal, intransferível, autoral, ou o contrário. Um instantâneo da poesia brasileira agora, em volume único para viagem”, afirma a organizadora no prefácio da antologia. Despretensiosa, ela procura fazer uma narrativa à sua maneira das diversas vozes (em seus cantos, se tanto) que perambulam pelas páginas do Brasil atual. “A arrumação do ritmo do livro por inteiro funcionou como um delicioso exercício de composição”, ela comenta.

É para mim uma grande honra estar entre poetas que tanto admiro, e selecionado por uma artista que sempre demonstrou imensa sensibilidade para a poesia como linguagem (o disco “A fábrica do poema” nunca me saiu da cabeça). A edição também é motivo de festa, tomando parte que estamos numa bela coleção de poesia que inclui também Paul Celan, Luis Cernuda, Philip Larkin, Cesare Pavese, Antonio Machado e tantas e tantos outros.

É agora como nunca: antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira
Organização e apresentação de Adriana Calcanhotto
Lisboa: Editora Cotovia, 2017
À venda nas melhores livrarias de Portugal

Mais informações no site da editora:
www.livroscotovia.pt

Retendre la corde vocale: anthologie de la poésie brésilienne vivante

Em outubro de 2016, foi publicada na França a antologia Retendre la corde vocale: anthologie de la poésie brésilienne vivante [Retesar a corda vocal: antologia da poesia brasileira viva]. Organizada e traduzida por Patrick Quillier, a obra reúne autores de sete gerações, de Ferreira Gullar (1930-2016, vivo ainda quando foi lançada) a Reuben da Rocha (1984-). O recorte realizado é especial porque é único e diversificado. A narrativa proposta por Patrick é interessante por estar fora dos vícios típicos da vida intramuros, das fofocas da aldeia, das passáveis histórias para boi dormir que os poetas contam uns aos outros enquanto se lambem ou se cospem. Reúne autores de diversos cantos do país, sem estar à caça necessariamente de representantes de cada estado ou de cada identidade. São ao todo 29 poetas que ele traduz com surpreendente maestria, ele que também traduziu as obras completas de Fernando Pessoa para a Pléiade (aquela do papel bíblia). Patrick é um dos raros (e admiráveis) exemplos de poetas ouvintes. Aqueles que estão à escuta do mundo e também à escuta dos outros poetas, como o vi pessoalmente, nas plateias (ele sendo um dos poetas convidados) de várias das leituras de poesia no Festival Voix Vives de la Méditerranée de 2017.

Apesar de lançada no ano passado, somente agora a tenho em mãos. Trata-se de um alentado bouquin de 264 páginas, em formato 29,5×15 cm, com os poemas impressos apenas em francês, na maioria das vezes sem a disponibilidade de uma página inteira para abrigá-los individualmente.

Tive a alegria de acompanhar uma pequena parte do processo de sua feitura. Ao ficar pronto, recebi e li imediatamente os originais enviados pelo tradutor. Fiquei espantado com a qualidade do feito e, desde então, guardo para mim (e o realizo finalmente agora) o plano de traduzir o “Prelúdio”, para que mais poetas e leitores possam ter acesso no Brasil. Espero ser útil.

Não quero deixar de agradecer, aqui mesmo, o trabalho magistral do Patrick Quillier, a generosidade dos editores Françoise e Pierre, da Maison de la Poésie Rhône-Alpes e a hospitalidade das editoras Sandrine Giraud e Juliette Combes Latour da editora Les Temps des Cerises. Sem falar na carinhosa cessão das obras que ilustram o livro, feitas por Gerard Serrée (que tive o prazer de conhecer pessoalmente em 2016) e do cuidadoso trabalho feito pela designer Chloe Garrigues (não é só a antologia, confiram o catálogo da editora, é coisa fina!). Todas essas, são coisas pelas quais não dá para passar ileso. Merci.

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PRELÚDIO – por Patrick Quillier

Nas músicas antigas e tradicionais, o prelúdio era esse momento que precedia a música propriamente dita, durante o qual se afinava o instrumento, para que soasse bem, por um lado, para instalar, por outro, aquilo que os gregos chamavam de ethos da música, ou dito de outro modo, a atmosfera ligada à maneira que ela seria empregada. Emprestando de um poema de Leo Gonçalves o verso “retesar a corda vocal”, para fazer dela o título desta antologia, assinalamos a esses propósitos liminares a tarefa perigosa de preludiar várias atmosferas, ou dito de outro modo, ao ethos singular de cada um dos poetas apresentados neste livro. Ora, para tal, dificuldade suplementar, convém antes que este prelúdio dê a ouvir, tanto as razões das escolhas de suas vozes, como as da ausência neste concerto, de outras vozes tão singulares quanto.

De modo puramente arbitrário, como nos propomos desafios, foi decidido receber aqui somente os poetas ainda em vida no momento da confecção do livro. Isso não quer dizer que não está viva a poesia daquelas e daqueles que pertencem às gerações representadas aqui, mas já se foram. Claro que não! Nós ouvimos, tão presentes quanto as dos vivos de hoje, as vozes dos vivos de ontem, por exemplo, para citar apenas alguns desses ausentes, nascidos após os anos 1920, e tão fortemente presentes nos espaços mais preciosos da memória: Hilda Hilst (1930-2004), ela que dizia “O pássaro desenha/em seu voo estranho/um círculo de luz”, ou ainda: “Melhor vale um cachorro vivo que um leão morto.”; Roberto Piva (1937-2010), com suas pernas que sonhavam “suspensas sobre o abismo”; Orides Fontela (1940-1998), ela que dizia “res/pirar/o mais perto/do pássaro”; Paulo Leminski (1944-1989), ele que se dizia “um cachorro louco/que deve ser morto/a pedra a pau a pique”; Torquato Neto (1944-1972), que se dizia “pronome/pessoal intransferível” nascido sob o signo de um “anjo louco”; Adão Ventura (1946-2004), esse negro a quem o câncer minou o sangue, seu sangue entretanto “sempre mais forte/tão forte quanto as imensas pedras/que [seus] ancestrais transportaram/para edificar os palácios dos reis”; Ana Cristina César (1952-1983), ela que dizia, antes do seu suicídio: “tenho uma vida branca/e pura que me espera”; Hilda Machado (1952-2007), cujo suicídio não apagou o eco de sua voz, sua voz “murmúrio de anjo”…

Outras vozes de autores sempre vivos teriam podido tomar lugar neste concerto, pois elas também nos acompanham, mas toda escolha é cruel, principalmente por parte de quem tem que fazê-la. Mil perdões, entre outros a: Adélia Prado (1935-), que confessa que a poesia se apossa dela “com sua roda dentada” para forçá-la “a escutar imóvel/seu discurso esdrúxulo”; Leonardo Fróes (1941-), grande tradutor, e grande amigo dos pássaros como de sua língua, diante do eterno (“no delírio urbano ressoa/sem função social senão deixar/que a boca filosofe assobiando/e o ouvido obediente perceba”); Antonio Cícero (1945-), com seus cantos filosóficos, justamente (“Eis o poeta cego./Abandonou-o seu ego./Abandonou-o seu ser./Por nada ele verseja./Bem antes do amanhecer/em seus versos talvez se veja/diverso de tudo o que seja/tudo o que almeja ser.”); Paulo Henriques Britto (1951-), e sua palavra desprovida de toda grandiloquência, “esfinge estilizada,/sugerida apenas, como convém/a um monumento, ou cenotáfio, ao nada.”; Edson Cruz, (1959-), seus poemas mestiços, sua palavra generosa, sensível e lapidar, cuidadosa “das coisas sem voz/dos seres sem vez”; Carlito Azevedo (1961-) com suas “salvas de arrepio”; Claudia Roquette-Pinto (1963-), tão atenta ao “som de cascos ancestrais”, à “rima lívida nos lábios, à “dor sem voz”; Paula Glenadel (1964-) ventríloqua de sua própria voz “de epifania”; Eliane Marques (1970-), e os batuques de seus poemas negros (“tal seu ofício/ofício negro/hera em cada mano”); Marcelo Sahea (1971-), esse virtuose da poesia verbivocovisual (“por que assim/do útero ao caixão?/por que não/outro percurso?/por que não/na contramão?/por que não/ser inconcluso?”); Veronica Stigger (1973-) e os estouros satíricos de seus poemas breves (“Juro: não queria ter atirado no dragão”.); e, entre os mais jovens, os promissores Victor Heringer (1988-), renovador provável da epopeia em seus poemas narrativos e discursivos; e Italo Diblasi (1988-), poeta áspero e percussivo (“paremos, portanto, de fingir/que Nietzsche estava errado/quando enlouqueceu às portas/de explicar esse caralho”)… E tantos outros, pois o Brasil é rico de numerosas vozes. Seria preciso vários tomos, como o fez outrora, pela poesia francesa do século XX, o caro Pierre Seghers.

Há, portanto, no presente volume, 29 vozes a ouvir. Todas a sua própria maneira, retesaram a corda vocal para afiná-la à singularidade de seu timbre respectivo. O primeiro poeta deste livro faz referência à morte de Oswald de Andrade, no dia 22 de outubro de 1954 e a seu enterro dois dias depois. Ferreira Gullar, o mais velho dos poetas aqui presentes, ao render-lhe homenagens parece, por esse caminho, inaugurar também uma nova era na história da poesia brasileira. Nós lhe oferecemos um lugar de peso, em razão de sua importância e de sua originalidade, tanto em relação a seus predecessores quanto em relação a seus contemporâneos, e está aí a razão pela qual demos integralmente a tradução de seu longo e famoso “Poema sujo”. Quanto a Oswald de Andrade, nascido em 1890, ele foi um dos poetas mais importantes do modernismo brasileiro, autor do Manifesto Antropófago (1928), onde pregava não a rejeição das culturas estrangeiras, em particular as europeias, mas sua apropriação, assimilação e devoração de toda espécie.

No começo de nosso livro, a página desta que notadamente foi chamada de antropofagia é virada. Para tanto, a questão da cultura brasileira, das culturas brasileiras, deveríamos aliás dizer, não está caduca. Ouviremos aqui diversas gerações que colocam essa questão em termos sempre renovados. Vozes como as de Regina Célia Colônia, companheira de estrada do destino de certos povos ameríndios, e de Eliane Potiguara, militante da afirmação pacífica das identidades indígenas pelo viés de sua defesa e ilustração, nos permitem por exemplo compreender o formidável rumor, sempre vivo, das culturas antigas do país. Quanto a Josely Vianna Baptista, ela dá para essas culturas do país um lugar de escolha na fenomenologia de algum modo selvagem, para retomar um conceito de Merleau-Ponty, que ela elabora em sua obra. Quanto a eles, poetas como Cuti, Ricardo Aleixo, Ronald Augusto, Edimilson de Almeida Pereira, Leo Gonçalves, mostram, eles que pertencem a diversas gerações, que as vozes da negritude não cessam de ter que se fazer ouvir nesse país onde o racismo institucional é assassino. Vocês ouvirão as batidas rítmicas dos rituais transmitidos por herança africana ainda vivazes no Brasil, por exemplo, nos poemas-candomblés de Cuti, a homenagem rendida por Ricardo Aleixo aos grandes nomes da Negritude, a evocação das divindades iorubás por Ronald Augusto, a oração chamada de “ofó” balbuciada por Leo Gonçalves…

Ademais, a ressonância de episódios históricos que modelaram a memória coletiva do Brasil marca certos poemas apresentados. Notaremos, por exemplo, a referência recorrente aos bandidos populares do sertão, os cangaceiros, através da evocação de alguns dentre eles como Lucas da Feira (em Sebastião Nunes), Virgulino (Cida Pedrosa) e sua companheira Maria Bonita (Ricardo Domeneck). Nenhuma dessas referências se parece com a outra, uma vez que seus dispositivos nunca são os mesmos, que as conotações diferem e que as senhas que se perfilam em plano de fundo são definidas pelas especificidades próprias a cada geração. Eis aí, aliás, um ponto característico do presente livro: pode ser lido, apesar das ausências, como um levantamento revelador dos traços distintivos de diversas gerações, que vão de Ferreira Gullar, nascido em 1930, a Reuben da Rocha, nascido em 1984, dito de outro modo, exatamente trinta anos após a morte de Oswald de Andrade mais de cinquenta anos após o nascimento do autor do “Poema sujo”. O último poema do livro, escrito por esse jovem autor, pode aliás ser lido como a expressão da incessante renovação operada pelas sucessivas ondas humanas.

Uma primeira geração é representada pelo poeta engajado Ferreira Gullar (1930-), o poeta virtuose Augusto de Campos (1931), e o engraçadíssimo poeta fantasista Zuca Sardan (1933-). Uma segunda geração, tão diversa quanto, é constituída aqui pelo extraordinário poeta satírico Sebastião Nunes (1938-), a poeta de um só livro (mas que livro, esse que contém, cristalizada, toda a cultura ameríndia!), Regina Célia Colônia (1940-), e a excepcional poeta lírica Elisabeth Veiga (1941-). Uma terceira geração se compõe aqui de Lu Menezes (1948-), poeta da cosa mentale escandida no corpo do tempo, Eliane Potiguara (1950-), cujos cantos lancinantes fazem reviver velhos cantos xamânicos, e Cuti (1951-), um dos primeiros grandes cantores da poesia afro-brasileira. Podemos reagrupar numa quarta geração as vozes de Adriano Espínola (1952-), que sintetiza os modernismos e abre a via para o pós-modernismo, de Salgado Maranhão (1954-), autor de uma obra exemplar de sinergia para retomar um termo utilizado a seu tema por Ferreira Gullar, de Regis Bonvicino (1955-), “infatigável renovador”, áspero observador das realidades modernas, e de Josely Vianna Baptista (1957-), cujo trabalho tão original sobre as relações entre linguagem e mundo é de uma grande potência. Uma quinta geração reagruparia aqui os poetas seguintes, todos nascidos nos anos 60: Ricardo Aleixo (1960-), adepto de uma poesia ação instalada no cerne dos interstícios e das interconexões de todas as ordens; Ronald Augusto (1961-), grande ritmista de palavras na forja alquímica do poema; Edimilson de Almeida Pereira (1963-), exemplo brilhante de poeta antropólogo preocupado com a mestiçagem das culturas; Cida Pedrosa (1963-), poeta engajada na cidade e promotora do “poemaponte”; Marcos Siscar (1964-), o poeta da lucidez, o poeta atento “às infinitas semelhanças entre as palavras justapostas e as vidas apagadas”; e Renato Negrão (1968-), poeta da vida urbana, com seu verbo percussivo e revigorante, hábil em desfazer as categorias que atuam nas ideias prontas. Os poetas nascidos na primeira metade dos anos 70 formariam uma sexta geração, ainda mais claramente inscrita no pós-modernismo que ela submete a tensões, torsões, provas. É assim que Angélica Freitas (1973-), Marcus Fabiano Gonçalves (1973-) e Dirceu Villa (1975-) fazem dela uma arma satírica contundente, ela com a mais jubilosa das irreverências, o segundo com a acuidade impiedosa do humor negro, e o último se valendo de todas as fontes que lhe fornecem sua impressionante maestria da língua e sua imensa erudição. Quanto a Leo Gonçalves (1975-), sua forma de retesar a corda vocal é particularmente singular, pois ele insufla a seus poemas-manifestos a grande variedade de sopros herdadas das tradições africanas. A sétima geração de nosso pequeno concerto faz ouvir as vozes de Ricardo Domeneck (1977-), poeta que consegue colocar juntas a ironia e o fervor, narrativa e reflexão, pós-modernismo e atemporalidade, de Marília Garcia (1979-), em quem a autobiografia e a reflexão filosófica formam uma espécie de geografia mental inovadora, de Fabiana Faleiros (1980-), com textos e performances provocadores e faceciosos, de Érica Zíngano (1980-), voz acerba e jubilosa, e de Juliana Krapp (1980-), cujo universo poético denso e estranho poderia parecer operar um ultrapassamento original dos impasses do pós-modernismo. Menção especial a Reuben da Rocha (1984-), anunciador de práticas e de temas novos, talvez em prelúdio a outras publicações.

O mundo da comunicação globalizada veicula sobre o Brasil ora um carregamento de clichês tropicais, ora uma onda infinita de informações trágicas: miséria extrema; violência; principalmente contra ameríndios e negros; desflorestamentos; corrupção endêmica e institucionalizada, etc. Ao mesmo tempo, o Brasil é apresentado como “uma potencia emergente” no concerto econômico mundializado.

Esta antologia pretende apresentar uma outra realidade do Brasil, aquela que fazem viver, em sua diversidade, a própria abundância, mas também sua surpreendente e admirável energia, poetas, mulheres e homens, de várias gerações e vindos dos quatro cantos do país, assim como da diáspora.

Vozes de mulheres, vozes de homens, com timbres, tessituras e ritmos diferentes, nos convidam a escutar neste volume a emocionante e revigorante polifonia de todo um povo, dos quais eles não cessam de “retesar a corda vocal”. A tradução se propõe dar a ouvir em nossa língua esse hino plural à vida que triunfa, apesar de terríveis adversidades.

*Patrick Quillier
Poeta, compositor, tradutor, universitário, nascido em 1953. Publicou dois livros de poemas pela Éditions de la Difference: Office du murmure (1996) e Orifices du murmure (2010). Foi premiado no concurso internacional de composição musical Fernando Pessoa” (Lisboa, 1985) por seu oratório Além da dor (a partir de textos de Fernando Pessoa). Traduziu não somente esse último (sobretudo para as Œuvres poétiques lançadas em 2001 na coleção Pléiade), mas também os portugueses Herberto Helder, Mário Cesariny, Alexandre O’Neill, António Osório, Pedro Tamen, António Franco Alexandre, Helder Moura Pereira, e alguns outros, dentre os quais o angolano Lopito Feijó. Ensina literatura geral e comparada na Universidade de Nice-Sophia Antipolis. Trabalha atualmente num grande afresco épico para a humanidade da qual ele apresenta fragmentos em performances, que ele realiza sozinho ou em colaboração com o músico tradicional Sérgio Morais.

(Tradução de Leo Gonçalves)

RETENDRE LA CORDE VOCALE
Anthologie de la poésie brésilienne vivante
Organisée, traduite et présentée par Patrick Quillier
Bacchanales nº 55 – octobre 2016
Revue de la Maison de la poésie Rhône-Alpes/Le Temps des Cerises.
ISBN: 978-2-37071-036-9
(À venda nas melhores livrarias francesas)

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Saiba mais sobre a revista Bacchanales e a Maison de la Poésie Rhône-Alpes e sobre a a editora Le Temps des Cerises nos endereços:
www.maisondelapoesierhonealpes.com
www.letempsdescerises.net

É agora como nunca

Feliz e em boa companhia, é como me sinto com esse livro cuja capa você pode ver logo acima. A lista dos poetas aparece lá mesmo, então nem precisarei listar. E a festantologia “É agora como nunca”, que sai num par de dias pela Companhia das Letras, já está repleta de atividades. Com dois lançamentos já marcados (dia 22/2 em SP e dia 18/3 em BH), tudo indica que ela agitará a vida do meu prestes a re-sair Use o assento para flutuar. Aguardem novas novas.

Use o assento para flutuar ganha segunda edição

USE O ASSENTO PARA FLUTUAR, 2016 Começaram os preparativos para a segunda edição de Use o assento para flutuar, que agora sairá pela editora Crisálida, em parceria com a Adelante.

Para facilitar o processo editorial, garantir a realização da edição e  definir melhor a tiragem, já disponibilizamos o livro para vendas antecipadas.

A data prevista para o lançamento é 15 de dezembro. O local e a hora serão divulgados em breve.

O Salamalandro manterá, durante todo o processo, uma página específica, destinada às notícias e informações sobre o livro e os dados referentes à aquisição (link na barra ao lado)

Para adquirir antecipadamente seu exemplar, basta seguir as orientações abaixo:

Dados para depósito ou pagamento via Paypal: 

Banco Itaú
Ag. 3144
c/c 39146-7, em nome de Livraria Crisálida Ltda
CNPJ [pra quem precisar fazer TED ou DOC]: 03310289/0001-33
Para pagar via Paypal é simples:
Acesse o portal: www.paypal.com.br
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> Realizar a transferência de valor para livraria@crisalida.com.br
Na hora de depositar, confirme
– Se prefere o envio pelo correio. Neste caso, o valor é R$ 35,00 (tarifa do correio incluída).

– Se prefere recolher o livro no dia do lançamento, com autógrafo do autor. Neste caso, o valor é R$ 30,00

Uma vez realizado o pagamento, basta avisar à editora através do email: livraria@crisalida.com.br

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Para maiores informações, acesse a página:
http://www.salamalandro.redezero.org/poesia/use-o-assento-para-flutuar/

ou acesse este link para entrar em contato com o autor: http://www.salamalandro.redezero.org/contato/ 

 

Revista Polichinello #17 ─ Por uma vida não-fascista

Revista Polichinello nº 17 - Por uma vida não-fascista [http://revistapolichinello.wixsite.com/poli17]

Esta seria uma edição impressa, mas a direção foi outra, por incompatibilidade com dias tão difíceis. O cenário por aqui, de uma esfera a outra, declina por vias mais e mais sinistras. Efeito do espectro que assombra o país, vertiginoso retrocesso. Com leis e medidas em favor dos interesses mais reacionários, tudo devidamente agenciado por uma política que persegue, sem dissimular, conquistas sociais, e opera com a lógica de subtração e sequestro, com violação e exclusão, que esvaziam possibilidades, como diz o Esposito: «desonerando a vida».

Verdadeiro trabalho de resistência é a permanência desta revista Polichinello, comandada por Nilson de Oliveira. De grande importância na cena literária brasileira, tão carente de publicações do gênero, ela vem sendo mantida pela força da vontade de seus editores. Usualmente, é uma publicação impressa. Sintomático que justo no momento do crescimento de uma mentalidade fascista e conservadora, que obsessivamente se coloca contra iniciativas culturais como esta, o dinheiro necessário para sua realização tenha faltado. Nesse sentido, a coragem de manter de pé seu propósito inicial, ainda que garantindo apenas sua publicação virtual que, ainda assim, é de grande urgência.

Por uma vida não-fascista.
Neste número, se pode ler textos de René Char (com tradução de Contador Borges), Beatriz Preciado (tradução minha), Edmond Jabés (tradução de Eclair Antônio A. Filho). Poemas de Leo Gonçalves, Leonardo Gandolfi, Eduardo Sterzi, Marília Garcia. Ensaios de Élida Lima, Michel Foucault, Carolina Villada Castro. E tantas coisas mais!

Por uma vida não-fascista. Sim, é disso que precisamos. Não deixar que o monstro domine os cérebros vazios.

Quem quiser ler, é lá no: http://revistapolichinello.wixsite.com/poli17

Um poema de Ana Pérez Cañamares

CAPITALISMO

O homem seboso e engravatado aparece em nossa cama todas as noites
depois de foder com o universo vem e nos sussurra cantigas de ninar
sua obsessão por nós não descansa nunca
em nossos sonhos nos persegue
fantasiado de cachorro, de vendedor, de padre
de espiga de trigo, de revólver no bolso
fantasiado de morte, fantasiado de vida

sei que ele gosta de você com olheiras
tem tesão em me ver cansada
gosta de mim magrinha embora me tente com guloseimas
e de você elegante embora machuque seus ossos

me impele a me embebedar mas não por diversão
e sim para esquecer
que minhas horas de ócio acabam sempre no negativo

quando estamos a ponto de adoecer por esgotamento
nos premia com umas férias
e nos estende as passagens como o caçador
lança um osso ao galgo que enforcará no dia seguinte

me instiga a desejar coisas que não necessito
embora ele nunca tenha para mim um presente

diz que meus inimigos são aqueles
que querem o mesmo que eu
porque não há o suficiente
nunca tem o suficiente para todos

e nos cobra pelo que não é de ninguém
pela água da chuva
pelo sol e pela areia
pelas clareiras nos bosques
e pelos mananciais

sequestra meu amor dez horas por dia
e o devolve cada dia mais velho

com seus braços lascivos abraça minha filha
e eu grito foge!
─ vi os primeiros sinais de rendição
em seu rosto inocente ─
mas não sei mostrar a ela a porta de saída

e mais do que com a minha felicidade, ele se preocupa
em flagrar em meu rosto um rastro de consolo
que me permita chegar até a próxima trégua

todo dia me bota um café na boca
para aguentar, e logo um comprimido
para acalmar meus nervos para que eu descanse e durma
enquanto ele continua fazendo o que bem quer

(às vezes se deita em cima de mim e eu com os olhos abertos
olho para o teto, e se ele nota me diz
que já é hora de pintá-lo)

envenena a comida com o que me alimenta
me proíbe de fumar enquanto aumenta minha ansiedade
e me tira as chupetas que poderiam me consolar

provoca meu pranto
e depois me obriga a maquiar os sinais da tristeza

se fico rebelde, ri paternalista
conta que ele também passou por essa época
e minha rebeldia ele rebaixa a moda
que fica de camiseta aos sábados pela manhã
quando sai para comprar jornal e croissants

me dá detalhes de cada assassinato, de todas as guerras
dos estupros e dos golpes de estado

mas tanta informação me deixa surda e já não ouço
os barulhos nem os choros em voz baixa
os sinais do desmoronamento

e ele cala que cada morto, cada ferido
as mulheres estupradas e os que sofrem torturas
todos receberam sua visita antes de se transformar no que são agora

se safa das culpas com promessas
mas eu sei que uma palavra dele
bastará para nos condenar

e se desaparece é para espiar a salvo e oculto
nos bares, nos hotéis, nos banheiros, nas celas

tenho que lhe agradecer porque
você é uma mulher moderna!, grita entusiasmado
dessas que falam inglês, trabalham em casa e no escritório
vão pra academia e aparentam menos idade do que diz o RG
você tem noções de pedagogia embora só olhe seus filhos

e além disso foi abençoada com uma vocação
para poder se sentir melhor do que as outras
(e eu calo que eu não quero ser artista
se isso me fizer diferente
porque já me sinto sozinha o bastante
e não quero competir em mais carreiras)

se mostro fraqueza, fale baixo, todos vão querer se aproveitar
(como se ele deixasse algo para os outros)
melhor ainda se demonstrar arrogância
(com todos menos com ele)

de tudo me fala mas não de quem recolherá os restos do naufrágio
nem em que lugar nos reuniremos, os náufragos, para nos organizarmos
para fazer um fogo, dividir a comida e espantar o frio

embora antes seja preciso reunir forças
para não abandonar a todos nos seus cantos

Um dia, não sei quando, vou lhe cobrar
seus cadáveres, as humilhações
o sequestro da inocência
o espólio dos sonhos

eu vou cobrar, não sei quando

e a primeira punhalada que vou lhe dar
será pelas carícias que não nos demos
pelas trepadas que não demos
você e eu
cada vez que aparece em nossa cama
e nos diz que amanhã, amanhã, amanhã
amanhã o despertador soará às 6h30

e vinte minutos mais de sono
nos farão melhores soldados a seu serviço

Te juro, meu amor. Uma punhalada
por cada trepada que nos roubou
e quanto ao resto, pelos presos, pelos indigentes
pelos que deixam para trás casa e família
pela dor que não merecemos sofrer nem ver
pelos campos arrasados
pelos bichos maltratados
pelas crianças que trabalham
pelos olhos que se fecham pelo cansaço e pela morte
pelo tempo que não voltará
pela vida que nos roubaram
pela vida
meu amor
pela vida

(Tradução de Leo Gonçalves)
Copyright © 2013. Ana Pérez Cañamares
Todos los derechos reservados. All rights reserved

Leia o original em: https://poesiaindignada.com/2013/06/30/capitalismo/

Nascida em 1968, publicou os livros La almbrada de mi boca e Alfabeto de cicatrizes, assim como o livro de relatos En días idénticos a nubes. Desde 2006, administra el blog El alma disponible.