Salamalandro


aimé césaire

Retour au pays de Patrick Acogny

novembro 21, 2009 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, atlântico negro, benjamin abras, dança, leo gonçalves, música, negritude, performance, voz deixe seu comentário →

Este ano o FAN – Festival de Arte Negra aconteceu em situação mais ou menos periférica. Digo mais ou menos porque a programação estava bonita, com convidados ilustres e competentes. As instalações bem feitas e bem organizadas, com dois grandes palcos e um Ojá (mercado em yorubá). Periférica porque foi empurrado para a orla da Lagoa da Pampulha. Embora bonito, um lugar fora de mão, com poucos ônibus. Difícil para quem não estivesse de carro e quisesse acompanhar a festa até mais tarde. Todo o mérito para os organizadores, o Rui Moreira e o Adyr Assumpção que, pelo jeito, levaram na cara e na coragem. Uma pena o novo prefeito não haver percebido que o FAN é a menina dos olhos dos festivais belorizontinos.

No vídeo acima, feito pela rádio Ojá, alguns momentos do espetáculo “Retorno ao país natal”, apresentado pelo Coletivo FAN da Dança (criado especialmente para o evento) e dirigido pelo coreógrafo senegalês Patrick Acogny. Quem acompanha é o grupo Uakti em colaboração com o griot Oumar Fandi Diop. Leo Gonçalves acabou colaborando um pouco também, enviando as traduções dos poemas de Léopold Sédar Senghor, Aimé Césaire e Léon Gontram Damas que são recitados pelas dançarinas durante o espetáculo.

palavra macumba no FORUMDOC 2009

novembro 20, 2009 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, atlântico negro, cinema, negritude, poesia, tradução apenas 1 comentário →

forumdoc 2009

A programação do 13º FORUMDOC.BH.2009 – está uma delícia, com destaque especial para a Mostra Cineastas Africanos que me faz brilhar os olhos. Quem quiser dar uma olhada, sugiro conhecer a página do Festival, com seu projeto visual deslumbrante.

De quebra, no catálogo, o leitor encontrará a tradução de um poema de Aimé Césaire feita por mim, o “palavra macumba“. Que, diga-se de passagem, é um dos meus favoritos.

www.forumdoc.org.br/2009/

aimé césaire: 96 anos

junho 25, 2009 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, negritude, poesia, tradução 2 comentários →

hoje, dia 25 de junho de 2009, o poeta aimé césaire completaria seus 96 anos, não fosse os orixás o requisitarem para um bate papo no orum no meio de abril do ano passado. para celebrar, um poema de autoria dele sobre a bahia. quem quiser ler o original, favor clicar aqui.

Carta da Bahia de Todos os Santos

Bahii-a

Como que um gole arretado de cachaça na garganta de Exu e a palavra delirou em mim um relincho de ilhas verdes mulheres nadadoras salpicadas entre a imodéstia das frutas e um baque de papagaios

Bahii-a

a curva de um colar caído rumo ao seio aberto das águas bobinado no oco seus pentelhos de ressaca

Bahii-a

deriva de continentes, um ir-se de terra, um bocejo geológico na hora fastuosa da ancoragem, o cochilo à âncora e mal domado no lugar

Bahii-a

de nostalgia, de gengibre e de pimenta, Bahia das filhas de santo, das mulheres de Deus, com pele de camarão cor-de-rosa, com pele de vatapá também

Ah! Bahii-a!

Bahia de asas! de conivências! de poderes! Campo Grande para as grandes manobras do insólito! De todas as comunicações com o desconhecido, Central e Aduaneira.

De fato, de Ogum ou de são Jorge, não se sabe, nuvens solenes cruzaram a espada, intercambiaram pérolas, caniços, búzios rosados, búzios cor-de-malva, aranhas encrustadas, siris vorazes, lagartos raros

e a palavra termina no esfolamento clandestino dos mais altos senhores do céu

Ah! Bahia!

Esse foi então o entorpecimento de incenso azulejado de ouro numa pesada sesta na qual se fundiam juntos igrejas azulejas, marejos de além-morro de tambores, foguetes moles de deuses culminados, de onde a manhã se ergueu, dengosíssima, graves meninas cor de jacarandá, penteando lentamente seus cabelos de alga.

Do livro ferrements et autres poèmes de aimé césaire

lançamento: revista roda nº 6

novembro 16, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, antropofagia, guerrilha, leo gonçalves, lira, literatura, livros, léopold sédar senghor, negritude, revistas, ricardo aleixo 5 comentários →

acho que ainda dá tempo: será lançada hoje a revista roda nº 6, comandada pelo mestre-sala ricardo aleixo. no novo número, uma porção de belezuras: homenagem aos 70 anos de nascimento e 40 de poesia e provocaçãm de sebastião nunes. na homenagem, um dossiê com entrevista, poemas, comentários de caras como bruno brum, glauco mattoso, ademir assunção. além de um poema de affonso ávila com o nome de “são sebastião da bocaiúva”. para quem já conhece a poesia desse cara que já é considerado um mestre de todas as gerações que vieram depois dele. além disso, a revista roda traz poemas do angolano abreu paxe, o cubano nicolás guillén, o mineiro paulo kauim e muito mais.

e em meio a este “muito mais”: o meu ensaio “os sessenta anos da anthologie – um livro inventa o presente“. uma espécie de homenagem aos 60 anos da primeira edição da anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française [antologia da nova poesia negra e malgaxe de língua francesa] organizada em 1948 pelo poeta e (então futuro) presidente do senegal léopold sédar senghor. meu ensaio traz também traduções de alguns poemas presentes na anthologie.

o lançamento acontece hoje, dia 16 de novembro, às 18h, no estande do Lira, instalado no 9º encontro das literaturas, no chevrolet hall.

black or white, totem, tabu e algumas palavras do caetano veloso

junho 13, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, antropofagia, léopold sédar senghor, língua, negritude, oswald de andrade, poesia 4 comentários →

“eu não gosto dessa vontade desesperada de ser americano”. é o que diz o caetano veloso, que está lá no obra em progresso lançando belas bombas. (dica surpreendente do ric)

eu também não gosto, caetano: oswald de andrade, quando lançou o manifesto antropófago, falou: a transformação constante do tabu em totem. quer dizer, pegar a palavra-tabu “antropofagia” (a vergonha indígena nacional tupiniquim) e transformá-la num totem, num objeto de adoração, culto e respeito.

depois vieram os negros francófonos, léopold sédar senghor e aimé césaire, pegaram as palavras “negritude” e “mestiçagem”, que eram usadas para oprimi-los e criaram um movimento literário-político-cultural que abalou as centenárias estruturas do poder franco-europeu, além de inspirar milhões de jovens negros a se afirmarem como o que eles realmente são.

não sei para quê ter medo das palavras. se eu disser que sou negro, se eu disser que sou preto, tudo é poesia. mas se eu disser que negro (ou preto ou black ou nigro ou nigger ou nègre ou négro ou negger ou noir) é politicamente incorreto, eu estou estigmatizando a cor. e é isso que estão fazendo agora, quando mandam a gente falar “afrodescendente”. se eu disser isso, vou ter que falar também que sou eurodescendente? indiodescendente? nipodescendente? arabodescendente?!

não dava para aprender a lição dos mestres?

saravá de celebração dos 120 anos da extinção da escravatura no Brasil

maio 12, 2008 por: leo gonçalves assuntos: agenda, aimé césaire, negritude 2 comentários →

na próxima terça-feira, 13 de maio, a partir das 19h, o projeto escrituras TIPOgráficas lança seu segundo número, com o poema navio negreiro, de castro alves. o lançamento, que comemora a passagem dos 120 anos da abolição da escravatura no brasil, faz parte da programação de reabertura do recém-ampliado bar balaio de gato.

a nova edição de navio negreiro será apresentada ao público com performance especialmente concebida por ricardo aleixo, com as participações especiais do músico e ator gil amâncio, do músico benedikt wiertz, do poeta e compositor waldemar euzébio, da cantora gabriela pilati e do poeta e tradutor leo gonçalves (este que vos fala) homenageando o poeta antilhano aimé césaire, recentemente falecido.

programa:

terça-feira, dia 13 de maio de 2008 a partir das 19h

no bar balaio de gato
rua piauí, 1052
navio negreiro estará à venda com preço especial de lançamento, tira-gosto afro e drink-cortesia.

entrada franca

(para mais informações: jaguadarte)

a minha homenagem

abril 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, leo gonçalves, negritude, poema, salamalandro apenas 1 comentário →

negro spirituals
a aimé césaire

que a sua alma vibre sua cor
no cortejo que a leve
leve segundo eguns
num retorno à terra natal

vestiremos nosso luto branco
iremos celebrar a sua nova coorte
elelelê epababá amigo aimé
o seu novo lugar

que a alma cante malandra
numa língua de aruanda
o negro spirituals
acompanhando sua travessia

comming for to care you
at home

povo se despede de aimé césaire na martinica

abril 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, américa latina, antropofagia, literatura, negritude, política, vida deixe seu comentário →

segue abaixo, uma das poucas notícias da morte de césaire em língua portuguesa. na chamada, não encontrei o nome do jornalista que a escreveu. em todo caso, parece ser uma tradução de letra a letra de um texto que saiu, se não me engano na rfi (radio france internationale).

FORT-DE-FRANCE (AFP) — Uma multidão compareceu neste sábado ao velório do poeta Aimé Césaire na Martinica, no estádio de Dillon, em Fort-de-France, onde no domingo serão realizadas as homenagens nacionais.

O caixão percorreu a cidade na sexta-feira, sob aplausos de milhares de pessoas que acompanharam o cortejo fúnebre para dar o último adeus ao pai do movimento “negritude” e principal figura política da ilha durante mais de meio século. Césaire faleceu na quinta-feira, aos 94 anos.

O presidente francês Nicolas Sarkozy irá à Martinica para assistir à cerimônia de enterro do escritor, poeta, autor teatral, ensaísta e homem político de esquerda.

Sarkozy saudou Aimé Césaire como um “símbolo de esperança para os povos oprimidos”.

O velório popular continuará até domingo, quando o poeta será sepultado com honras de Estado, privilégio concedido até hoje na França apenas aos escritores Victor Hugo, Paul Valéry, em 1945, e Colette, em 1954.

meu comentário fica por conta do silêncio brasileiro em torno a este acontecimento, tendo em vista ter sido este um dos personagens decisivos do século xx, não apenas por sua atuação como poeta e ensaísta, mas também como político e como rebelde. o poeta, que foi saudado por andré breton e por jean-paul sartre, morreu como um dos homens mais ilustres e influentes do planeta, um personagem tão importante quanto um nelson mandela da vida.

a existência dele no mundo nos fazia lembrar que a poesia pode, sim, ser instrumento de transformação. e que um poeta vivo mantém viva com ele a memória de tempos imemoriais. tempos que antecedem não só a idéia de mercadoria, dinheiro e exploração do homem pelo homem. tempos que antecedem a própria idéia de poesia.

leia também o comentário de marcelo coelho (da folha de são paulo) e sua tradução do poema “soleil serpent“. [ aqui ]

aimé césaire, um negro essencial

abril 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, américa latina, antropofagia, negritude, outra imprensa deixe seu comentário →

fuçando no youtube, encontrei este vídeo curtinho que mostra um pouco do universo de césaire, sua martinica. segue abaixo a transcrição, a título de legenda.

quem é este homem franzino que foge da mídia mas que todos os grandes do mundo vêm saudá-lo na sua ilha da martinica?

ao um tempo poeta, escritor, homem político, aimé césaire é antes de tudo um pioneiro que teve a coragem de defender orgulhosamente sua cor negra e deixar também a sua marca no século xx.

ardente defensor dos valores de esquerda, césaire se define como um socialista conseqüente. o que significa para ele, manter-se permanentemente à escuta de seu povo.

hoje, com mais de 90 anos, aimé césaire continua a receber todo dia no seu escritório na antiga prefeitura de fort-de-france, as personalidades do mundo inteiro, mas também, e principalmente: os simples habitantes da martinica.

outro poema do aimé césaire

abril 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, américa latina, antropofagia, negritude, poesia, tradução apenas 1 comentário →

para dizer…

para revitalizar o rugido das fosfenas
o âmago oco dos cometas

para reavivar o verso solar dos sonhos
sua lactância
para ativar o fresco fluxo das seivas a memória dos silicatos

fúria dos povos sumidouro dos deuses seu salto
esperar a palavra seu ouro sua orla
até a ignífera
sua boca

pour dire…

pour revitaliser le rugissement des phosphènes/le coeur creux des comètes//pour raviver le verso solaire des rêves/leur laitance/pour activer le frais flux des sèves la mémoire des silicates// colère des peuples débouché des Dieux leur ressaut/patienter son or son orle/jusqu’à l’ignivome/sa bouche

este outro, aimé césaire publicou no livro “moi, laminaire…”, 1961

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