Salamalandro


filosofia

paul valéry para distrair

maio 20, 2009 por: leo gonçalves assuntos: filosofia 5 comentrios →

valery

pessoas cultas adoram citar paul valéry (aquele cara do mallarmé fã clube). pouca gente sabe que como poeta tinha hora que ele era  mesmo um pé no saco (pronto, falei!). por outro lado, era quase sempre um frasista de primeira (e é o que os “cultos” costumam citar: suas frases). certamente ele devia ser duro na queda porque tinha sempre uma tirada sutil, um impropério apropriado, um aforismo ou desaforismo para cada ocasião. comparável a ele só oscar wilde. traduzi algumas aqui, só pra distrair, enquanto não cessam os ventos de maio.

“o homem de negócios é um híbrido de bailarino com máquina de calcular”.

“é impossível compreender e punir ao mesmo tempo”.

“a mentira e a credulidade se acasalam e geram a opinião”.

“um homem competente é um homem que se engana de acordo com as regras”.

“creia, ou eu te mato pra sempre”.

“o poema – essa hesitação prolongada entre o som e o sentido”.

“os livros têm os mesmos inimigos do homem: o fogo, a umidade, os bichos, o tempo e seu próprio conteúdo”.

“o que há de mais profundo no homem é a pele”.

um poema de friedrich nietzsche

novembro 05, 2008 por: leo gonçalves assuntos: filosofia, poesia deixe seu comentrio →

minha felicidade

depois que cansei de procurar
aprendi a encontrar.
depois que um vento me opôs resistência
velejo com todos os ventos.

mein glück: seit ich des suchens müde ward,/erlernte ich das finden./seit mir ein wind hielt widepart,/segl’ich mit allen winden.

(a tradução é de paulo césar de souza e está no livro
gaia ciência. sp: cia das letras, 2007)

sociedades do espetáculo

maio 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: filosofia, manifesto, não-poema, política, radicalidade deixe seu comentrio →

o livro “la societé du spectacle” teve sua primeira edição em 1967, o ano em que a terra estava em transe. nos anos seguintes, guy debord, seu autor, pôde confirmar muitas das coisas que ali estavam profetizadas (fico imaginando o que ele diria hoje, depois do espetáculo do world trade center, das campanhas eleitorais de países como o brasil e os estados unidos ou da espetacularização do assassinato de crianças, transformando os criminosos em verdadeiros astros pop às avessas).

em 1988, pensando nisso, ele escreveu os “comentários à sociedade do espetáculo”. foi por essa época que saiu na itália o livro “la societá dello spetacolo”, com posfácio entitulado “Glosas marginais aos “Comentários sobre a sociedade do espetáculo”” de giorgio agamben. texto inédito em livro no brasil. agora traduzido por joão gabriel e disponível no blogue dele: l’autre nom.

no texto, o filósofo italiano comenta coisas como o acontecimento de timisoara, à época do fim do regime comunista na romênia (“pela primeira vez na história da humanidade, cadáveres recentemente enterrados ou alinhados sobre as mesas dos necrotérios foram exumados rapidamente e torturados para simular diante das câmeras o genocídio que deveria legitimar o novo regime”.) e a legitimação de um estado espetacular (ou democracia-espetacular). deixo com vocês uma palhinha:

pela primeira vez na história do século, as duas grandes potências mundiais são dirigidas por duas emanações dos serviços secretos: bush (antigo chefe da CIA) e gorbatchov (o homem de andropov); e mais eles concentram o poder em suas mãos, mais isto é saudado, pelo novo ciclo do espetáculo, como uma vitória da democracia. a despeito das aparências, a organização democrática espetacular mundial que se desenha assim corre o risco de ser, na realidade, a pior tirania que jamais foi conhecida na história da humanidade, por relação a qual toda resistência e oposição se tornarão mais difíceis, visto que assim ela terá por tarefa administrar a sobrevivência da humanidade para um mundo habitável pelo homem.

giorgio agamben, 1991

um trecho do breviário dos vencidos, de e. m. cioran

outubro 22, 2007 por: leo gonçalves assuntos: filosofia, radicalidade deixe seu comentrio →

“os que são afligidos pelas insuficiências humanas, que se deixam entristecer pelo vão escorrer das horas, com que alegria se entregam àquele brilho que projeta sobre as coisas um conteúdo ardente! para uma alma a qual o vazio do mundo atormenta, a obsessão da vingança é um alimento doce e fortificante, um elemento substancial de todos os instantes, uma irritação que engendra sentidos acima do não-sentido geral. as religiões, em seu ódio a tudo o que é nobreza, honra e paixão, inocularam a covardia nas almas, proibiu-lhes a renovação dos frêmitos e dos frenesis. elas não tocaram nada tão duramente como a necessidade que o homem tem de ser ele ao se vingar. que aberração – perdoar seu inimigo, oferecer à palmatória e às cusparadas todas as fauces inventadas por um pudor ridículo, uma vez que nossos instintos nos incitam a pisoteá-lo como um bicho nojento.

é em suas intolerâncias que o homem é um homem. alguém te enganou? nutra o ódio em você, alimente seu rancor secreto, aqueça a bile em suas veias. e se às vezes você sente que a ampla quietude das noites te ganha, não se deixe cair no esquecimento lenitivo da meditação – açoite sem piedade a sua carne amolecida, deixe o seu veneno no corpo do adversário. senão, para quê prolongar uma vida que só servirá de fardo?”

(trecho de “breviário dos vencidos”(îndreptar pătimaş), escrito entre 1940 e 1944, último livro que o romeno escreveu em sua língua pátria. assim como este, o livro está repleto de textos provocadores e cruéis, tratando de diversos assuntos cada vez mais polêmicos, especialmente nessa nossa época de lenitivos e de discursos politicamente corretos).

junho 29, 2007 por: leo gonçalves assuntos: filosofia 2 comentrios →

“não é muito difícil determinar a essência da “novela” como gênero literário: existe uma novela quando tudo está organizado em torno da questão “que se passou? que pode ter acontecido?”. o conto é o contrário da novela porque mantém o leitor ansioso quanto a uma outra questão: que acontecerá?”

gilles deleuze & félix guatarri

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