la bitácora (juan na bloguesfera)
uma bitácora, em suas origens era o armário que tinha nos barcos para guardar seus instrumentos, assim como um caderno onde o capitão ia anotando as decisões tomadas em ordem cronológica.
uma bitácora, em suas origens era o armário que tinha nos barcos para guardar seus instrumentos, assim como um caderno onde o capitão ia anotando as decisões tomadas em ordem cronológica.
amor que serena, termina?
record, 2001
puentes/pontes.
fce, 2004
este é um interessante projeto da editora fondo de cultura económica, organizado por heloÃsa buarque de holanda, jorge monteleone y teresa arijón. o propósito: pensar a poesia como ponte que une mundos. trata-se de uma alentada antologia (537 páginas) que inclui poetas brasileiros e argentinos. na lista: paulo leminski, lamborghini, affonso ávila, bayley e, é claro, juan gelman. a tradução deste está por conta do poeta e tradutor sérgio alcides e nos dá um ótimo panorama das faces do poliedro que é a poesia de juan.

poesia argentina - 1940/1960.
iluminuras
haveria um par de coisas por dizer/
que não é muito lida por ninguém/
que esses ninguém são poucos/
que estão todos preocupados com a crise mundial/ e
com o assunto de comer a cada dia/ trata-se
de um assunto importante/ me lembro
quando tio juan morreu de fome/
dizia que nem se lembrava de comer e que para ele não tinha problema/
problema veio foi depois/
é que não havia dinheiro para comprar caixão/
e quando finalmente o caminhão municipal passou para levá-lo/
tio juan parecia um passarinho/
o pessoal do municipal olhou para ele com desprezo ou com desdém/ murmuravam
que eram sempre incomodados/
que eram homens e enterravam homens/ e não
passarinhos como tio juan/ especialmente
porque o tio foi cantando piu piu a viagem inteira até o crematório municipal/
e sentiram-se desrespeitados e estavam muito ofendidos/
e quando davam-lhe um tapinha para calar a boca/
o piu piu voava pela cabine do caminhão e eles sentiam que ouviam um piu piu na cabeça/ tio
juan era assim/ adorava cantar/
e não via por que não cantar depois de morto/
foi para o forno cantando piu piu/ as cinzas saÃram e ainda deram uns pios/
os companheiros do municipal se deram com os sapatos cinzentos de vergonha/ bem mas
voltando à poesia/
agora os poetas passam muita dificuldade/
não são muito lidos por ninguém/ esses ninguém são poucos/
o ofÃcio perdeu prestÃgio/ para o poeta está cada dia mais difÃcil
conseguir o amor de uma menina
ser candidato a presidente/ ser patrocinado por um mecenas/
que um guerreiro faça façanhas para que ele as cante/
que um rei lhe pague cada verso com três moedas de ouro/
e não se sabe se é porque acabaram as mulatas/ os mecenas os guerreiros/ os reis/
ou simplesmente os poetas/
ou foram as duas coisas e é inútil
quebrar a cabeça com uma coisa dessas/
bonito é saber que a gente pode cantar piu piu
nas horas mais estranhas/
tio juan depois de morto/ eu agora
para que me queiras/
¿ouviste/ coração?/ vamos
com a derrota a outra parte/
com este animal a outra parte/
os mortos a outra parte/
que não façam ruÃdo/ calados como estão/ nem
se ouça o silêncio de seus ossos/
seus ossos são animaizinhos de olhos azuis/
sentam-se mansos à mesa/
roçam dores sem querer/
não dizem uma só palavra de seus balaços/
têm uma estrela de ouro e uma lua na boca/
aparecem na boca dos que amaram/
passam notÃcias de seus sonhos/
arrastam suas lágrimas com uma toalhinha atrás como que varrendo o padecer/
como que não querendo molhá-lo/
para que o padecer estale e arda e faça assento aonde se sentar e pensar outra vez/
vamos/ coração/ a outro canto/
é ruim que não possas tirar os pés da tristeza/
embora seja tristeza que beija a mão que empunhou o fuzil e triunfou/
e tem coração e guarda em seu coração uma mulher e um homem passando como tigres pelo céu do sul/
uma mulher e um homem como tigres enjaulados na memória do sul/
beijando filhinhos que nunca mais irão crescer/
companheiros que nunca mais vão crescer a agora cosem
a terra ao ar/ cosem teu coração/ coração/ seus animais/
vamos com esta cadela a outra parte/
não temos direito de incomodar/
nosso único direito é começar outra vez
sob a luz do sol sereno/
os limites do céu mudaram
agora estão cheios de corpos que se abraçam
e dão abrigo e consolo e tristeza
com uma estrela de ouro e uma lua na boca/
com um animal na boca olhando o cintilar
dos companheirinhos que semearam coração
e levantam seu coração ardente
como uma aldeia de beijos/
(tradução: leo gonçalves)
olha aà o original:
otras partes
que no hagan ruido/ callados como están/ ni
se oiga el silencio de sus huesos/
sus huesos son animalitos de ojos azules/
se sientan mansos a la mesa/
rozan dolores sin querer/
no dicen una sola palabra de sus balazos/
tienen una estrella de oro y una luna en la boca/
aparecen en la boca de los que amaron/
pasan noticias de sus sueños/
arrastran sus lágrimas con un pañuelito detrás como barriendo el padecer/
como no queriendo mojarlo/
para que el padecer estalle y arda y haga asiento donde sentarse a pensar otra vez/
nos vamos/ corazón/ a otra parte/
hace mal que no podrás sacar los pies de la tristeza/
aunque es tristeza que besa la mano que empuñó el fusil y triunfó/
y tiene corazón y guarda en su corazón una mujer y un hombre pasando como tigres por el cielo del sur/
una mujer y un hombre como tigres enjaulados en la memoria del sur/
besando hijitos que nunca más van a crecer y ahora cosen
la tierra al aire/ cosen tu corazón/ corazón/ sus animales/
vámonos con esta perra a otra parte/
no tenemos derecho a molestar/
nuestro solo derecho es empezar otra vez
bajo la luz del sol sereno/
los lÃmites del cielo cambiaron/
ahora están llenos de cuerpos que se abrazan
y dan abrigo y consolación y tristeza
con una estrella de oro y una luna en la boca/
con un animal en la boca mirando el centellear
de los compañeritos que sembraron corazón
y levantan su corazón ardiente
como un pueblo de besos/
exÃlio
aqui/palavra que foi cão
pela cavala que dizia/
já não há nada a fazer/
está a luz/que tanta sombra fez/
por isso você dói tanto/
beleza?/me bate
como se fosse seu irmãozinho?/
boca de seu arrabalde?/
o que é você?/quem é você?/diga-me um pouco?/
já não será daqui quando nos fomos/
nem me deixa tirar a mão
do fogo de não ser/
(do livro isso. unb, 2004)