Salamalandro


música

pode chorar que o choro é livre

Novembro 06, 2008 por: leo gonçalves assuntos: música apenas 1 comentário →

festival do choro livre

começa no próximo dia 08, sábado, o festival do choro livre, em bh. a programação está transbordando: muita música boa, rodas de choro nos principais mercados, oficinas, debates e trocas de idéias. quer uma listinha de participantes? não cabe todo mundo aqui, mas dou uma deixa: maurício carrillo, paulo moura, gabriel guedes, rodrigo torino, mestre jonas, seu mozart, os grupos pedacinho do céu, sarau brasileiro, flor de abacate, corta jaca, gafieira senta a pua, dois do samba. agora se quer saber mais e melhor, olha aí o site e o blogue do projeto. e pode chorar, que o choro é livre:

www.chorolivrebh.blogspot.com

www.chorolivre.com.br

patrícia mc quade | suja de piche

Outubro 31, 2008 por: leo gonçalves assuntos: arte, bloguesfera, cinema, dica cultural, música, performance, teatro 2 comentários →

suja de piche :: blogue de patrícia mc quade

patrícia mc quade é a mulher que povoa meus sonhos. isso eu nunca escondi de ninguém. aliás, boa parte dos poemas que aparecem aqui, ali, traduções de poemas, minhas idéias mirabolantes, estão dedicados a ela. professora genial, sabe ensinar do jeito que deveria ser a educação que não há no brasil. no começo deste ano, publiquei uma entrevista que fiz com ela no overmundo, onde ela fala das coisas da educação, da poesia, das crianças e dos adultos.

há algum tempo, ela começou a publicar num blogue delicado chamado suja de piche. falei: vou noticiar no meu salamalandro. mas ela, tímida, não queria. agora ela está lá, repleta de notícias de um pouco do bonito que encontra nos palcos e telas da cidade, além de poemas, crônicas, citações e outras coisas belas que ela sabe fazer. uma dica para os navegantes: visitar as postagens mais antigas, que estão repletas de poesia. por via das dúvidas, publico aqui um dos poemas dela que mais gosto:

pena de passarim

para john willis, meu pai

todo dia bem cedinho
seu joão se levanta
e cuida de passarim

é gorjeio aqui
trinado ali
piada acolá
uma beleza de se escutar

mas a piada melhor
é a de seu joão
de alma de passarim
e pena de voar

bom é acordar juntinho
com seu joão
sempre bem cedinho
de pena leve
e alma de passarim

canta pra mim passarim
canta pra mim

patrícia mc quade
www.sujadepiche.blogspot.com

letra do dia: voa voa perereca

Outubro 26, 2008 por: leo gonçalves assuntos: música, vida deixe seu comentário →

coitada da perereca dela
é tão bela, é tão bela
coitado do meu passarinho
tão sozinho tão sozinho

a perereca quer voar
voa voa perereca
mas não deixe aqui no seu cantinho
tão sozinho meu passarinho

jorge mautner / caetano veloso

mestre jonas na stereoteca

Setembro 30, 2008 por: leo gonçalves assuntos: música deixe seu comentário →

quem não conhece ainda o trabalho do mestre jonas, demorou para conhecer. ele é um dos músicos mais ativos e engajados na boa música que rola hoje em belo horizonte (vale lembrar, a boa música em belo horizonte hoje é talvez a melhor movimentação musical do país). parceiro de pessoas queridas como janaína moreno, dudu nicácio, makely ka, zéfere, miguel dos anjos, sílvia gommes e quem sabe, um dia desses, meu parceiro também. já andou tocando por aí com ninguém menos que nei lopes, moacyr luz, hermínio bello de carvalho, titane. além disso, para a sorte dos franceses, ele esteve por lá recentemente e deixou a francesada com peau de poule (de cabelo em pé).

a notícia vai em cima da hora, mas ainda dá tempo: mestre jonas toca amanhã, quarta-feira, na stereoteca com seu show sambêro.

quem quiser ter uma palhinha do som que o cara faz, olha aí:

www.myspace.com/mestrejonas

www.stereoteca.com.br

caymmi encontra o canoeiro

Agosto 17, 2008 por: leo gonçalves assuntos: antropofagia, dorival caymmi, música, policromia deixe seu comentário →

acordo no domingo com vontade de informação. abro alguns blogues. encontro caetano que diz: “caymmi completou sua vida luminosa”. entendo tudo. fico triste. caymmi foi na jangada e a jangada voltou só. ele tinha 94 anos e pouco mais de 80 canções compostas. 80 canções inesquecíveis que ensinaram pro brasil o que é que tem no tabuleiro da baiana. sem caymmi não tinha bossa nova, não tinha tropicália, nem o renascimento do samba nos anos setenta, nem muitas outras coisas que formam aquilo que chamamos hoje de brasil.

foi também ele que ensinou a música brasileira a gostar desavergonhadamente dos seus orixás, da sua cor, da sua miscigenação cultural e biológica. o toque do tambor e a beleza da mulher negra nas consoantes oclusivas de “atrás do dengo desta nega/todo mundo vem” cantados como se nem poesia fosse. o poeta antropólogo antônio risério (no seu livro mais recente), comentando sobre “a lenda do abaeté” lembra a rima trimestiça como um símbolo da nossa mistura racial (”batucajé” é vocábulo híbrido de banto e iorubá. “abaeté” é tupi. e “quisé” é português):

no abaeté tem uma lagoa escura
arrodeada de areia branca
ô de areia branca
ô de areia branca

de manhã cedo
se uma lavadeira
vai lavar roupa no abaeté
vai se benzendo
porque diz que ouve
ouve a zoada
do batucajé

o pescador
deixa que seu filhinho
tome jangada
faça o que quisé
mas dá pancada se o seu filhinho brinca
perto da lagoa do abaeté
do abaeté

a noite tá que é um dia
diz alguém olhando a lua
pela praia as criancinhas
brincam à luz do luar

o luar prateia tudo
coqueiral, areia e mar
a gente imagina quanta a lagoa linda é

a lua se enamorando
nas águas do abaeté
credo, cruz
te desconjuro
quem falou de abaeté
no abaeté tem uma lagoa escura

antônio cícero na oficina que deu há um ano atrás em diamantina, comentava que um poema se torna um clássico quando entra para o repertório da língua. e não é preciso ser nenhum gênio para perceber que canções como “o que é que a baiana tem?” e “você já foi à bahia?” contêm alguns dos adágios mais comuns na fala coloquial de qualquer região brasileira. cícero tem razão. afinal, “quem não tem balangandãs não vai ao bonfim”.

caymmi me lembra a minha infância. quando eu era menino, não tínhamos muita música em casa. do pouco que rolava, meu pai gostava de ouvir coisas incomuns, cantadas em línguas estrangeiras ou os antigos cantores do rádio. mas a música que eu nunca esqueço e que ficou gravada nas faixas da minha memória é “o mar”, na voz do dorival, acompanhado de um violãozinho calmo e delicado. provavelmente esta será a única canção que cantará na minha cabeça no dia da minha morte.

letra do dia

Agosto 12, 2008 por: leo gonçalves assuntos: música, poesia deixe seu comentário →

o amor
(cecília silveira)

o amor
como for
está em tudo aqui
na praça
na rua
telhado
bichinho
tijolo de construção

o amor
como for
pulou dentro de mim
ainda sinto a dor
que um dia veio me consolar

o amor bate na porta
nas coisas tortas
em qualquer lugar
o amor bate na porta
mas não abra

olha o amor
seja como for
vai desarrumando a vida
olha o amor
venha como for
vai ameaçando meus dias

(música gravada por titane no disco ana)

janaína moreno e as vozes ancestrais

Agosto 11, 2008 por: leo gonçalves assuntos: cantoras, música apenas 1 comentário →

uma gota cai no meio do oceano. e no meio da calmaria, a água responde em pequenas ondas que se espalham em ressonância. vem um vento e vai fortificando cada espectro da gota. e bem longe dali, um dia, uma ilha inteira é inundada. há certas coisas cujo efeito não dá pra calcular. estou falando da cantora mineira Janaína Moreno.

hoje, quem a vê se apresentando no cartola bar, uma das melhores casas de samba de belo horizonte, mal pode perceber a força daquela voz. assim como fabiana cozza, ver janaína no palco é abrir as portas para a manifestação da grande força dos ancestrais. não só porque ela os evoca em meio às zuelas e cantos de orixás que caem tão bem no seu samba. o ngunzo, o axé está é nela. é possível que nem mesmo ela tenha percebido as proporções disto. e por isso é preciso dizer.

janaína moreno não é apenas um elemento a mais na paisagem musical de minas. aos jornalistas e produtores culturais de plantão, já vou logo avisando: esta é não é uma artista qualquer. cantoratriz, ela hipnotisa a todo mundo com muita graça e alegria. com ou sem acústica favorável. e não se basta com seu vozeirão: é também uma pesquisadora de fôlego e uma operária formiguinha, que cuida com capricho de cada detalhe do que faz. conta com excelentes músicos para isto e não precisa dessas minhas palavras para ser o que é.

já falei e não me canso de dizer: Belo Horizonte é hoje uma espécie de meca da boa música na atualidade. não são poucas as jovens cantoras mineiras que sabem fazer do palco um lugar sagrado. michelle andreazzi (do grupo Capim Seco), por exemplo, elisa paraíso, leopoldina, maísa moura, mariana nunes. não são só cantoras dotadas de boa técnica, mas grandes intérpretes que fazem a poesia transbordar de dentro de cada som, de cada sílaba. atuando por sua própria conta e risco, janaína moreno tem, na minha opinião, um posto privilegiado entre elas. uma voz de guerreira regida por dandalunda.

quero voltar a falar dessas cantoras por aqui. enquanto a hora não chega, sugiro aos leitores que se divirtam com os espaços da janaína moreno pela internet:

www.janainamoreno.blogspot.com
www.myspace.com/janainamoreno

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marcelino freire - para iemanjá

Julho 13, 2008 por: leo gonçalves assuntos: antropofagia, manifesto, música, performance, policromia, política, voz apenas 1 comentário →

oferenda não é essa perna de sofá. essa marca de pneu. esse óleo, esse breu. peixes entulhados, assassinados. minha rainha. não são oferenda essas latas e caixas. esses restos de navio. baleias encalhadas. pingüins tupiniquins, mortos e afins. minha rainha. não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de coca. essas flores de bosta. não mijei na tua praia. juro que não fui eu. minha rainha. oferenda não são os crioulos da guiné. os negros de cuba. na luta, cruzando a nado. caçados e fisgados. náufragos. minha rainha. não são para o teu altar essas lanchas e iates. esses transatlânticos. submarinos de guerra. ilhas de ozônio. minha rainha. oferenda não é essa maré de merda. esse tempo doente. deriva e degelo. neste dia dois de fevereiro. peço perdão. minha rainha. se a minha esperança é um grão de sal. espuma de sabão. nenhuma terra à vista. neste oceano de medo. nada. minha rainha.

texto do marcelino freire recitado por fabiana cozza no show mo gbe orisa.