Salamalandro


negritude

a busca por assuntos no salamalandro

Agosto 02, 2008 por: leo gonçalves assuntos: leo gonçalves, negritude, poema, poesia, salamalandro, tradução deixe seu comentário →

algumas pessoas têm me perguntado “como faço para ler seus poemas?” outras pessoas às vezes reclamam que não conseguem encontrar as traduções que já publiquei aqui no salamalandro. pensando nisso, resolvi encurtar o caminho aqui. basta clicar no assunto que você deseja, e pronto: já terá um pouco do que deseja. enquanto não lanço nada impresso por aí, estou pensando também em colocar em breve algumas dessas coisas disponibilizadas em pdf. enquanto não vai, divirta-se aí com os links:

entre os poetas mais traduzidos e comentados no salamalandro você encontra:

chamo de poesia não somente as coisas que encontro escritas em versos ou com o nome “poesia”. mas também não tenho uma visão tão alargada assim dessa palavra. acho que a definição de paul valéry me satisfaz bastante: “poesia é festa do intelecto”. é pensando nesta idéia que muitas vezes eu publico coisas aqui sob este título. portanto, aí vai:

e pra terminar, gosto de comentar às vezes sobre a poesia viva que circula por aí. eles estão aqui:

boa leitura!

a utopia brasileira e os movimentos negros

Julho 01, 2008 por: leo gonçalves assuntos: antropofagia, livros, negritude, policromia, radicalidade deixe seu comentário →

a utopia brasileira e os movimentos negros, de antônio risério

acabo de ler um dos melhores livros que tive em mãos nos últimos tempos: a utopia brasileira e os movimentos negros do poeta e antropólogo antônio risério. não fosse estar atarefadíssimo nos últimos dois meses, teria lido o livro numa talagada só. mesmo assim, muita gente deve ter me visto andando por aí feito um louco, caminhando pelas ruas com o livro na frente, às vezes apressado para chegar no próximo compromisso, mas lendo sofregamente - ansioso para saber o próximo passo, a próxima palavra, o próximo beliscão. confesso que quando vi pela primeira vez na livraria o título “a utopia brasileira e os movimentos negros”, tive um certo desânimo: mais um livro avaliativo sobre o movimento negro no brasil. além disso esse papo de “utopia brasileira”… sei não. olhei com certa desconfiança, mas fui especialmente atraído pelo nome do autor. e não me arrependi. risério é, para quem não o conhece, no mínimo um dos caras que, com seu livro “oriki, orixá”, mais me fez a cabeça nos últimos anos. você lê um pouco sobre ele na revista zunái. o impacto desse novo livro é tão forte pra mim, que ainda preciso digerir um pouco. em breve, quero colocar aqui a minha resenha. enquanto não faço isso, deixo vocês com o índice do livro. segundo o marcelo terça, era um dos poemas que eu devia ter lido no sarau do dia 13 de maio lá no balaio de gatos. recitado outro dia pelo amigo helder quiroga, a sugestão se mostrou interessante.

A UTOPIA BRASILEIRA E OS MOVIMENTOS NEGROS

por um olhar brasileiro
mestiçagem em questão
mulato, o visível e o invisível
em busca de ambos os dois
a morte dos deuses nos EUA
presença de exu
sob o signo do exorcismo
sincretismo e multiculturalismo
trilhos urbanos
palavras, palavras, palavras
imagens, tambores e melodias
a escola brasileira de futebol
movimentos negros ontem
movimentos negros hoje
a nova história oficial do brasil
toque final

black or white, totem, tabu e algumas palavras do caetano veloso

Junho 13, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, antropofagia, léopold sédar senghor, língua, negritude, oswald de andrade, poesia 4 comentários →

“eu não gosto dessa vontade desesperada de ser americano”. é o que diz o caetano veloso, que está lá no obra em progresso lançando belas bombas. (dica surpreendente do ric)

eu também não gosto, caetano: oswald de andrade, quando lançou o manifesto antropófago, falou: a transformação constante do tabu em totem. quer dizer, pegar a palavra-tabu “antropofagia” (a vergonha indígena nacional tupiniquim) e transformá-la num totem, num objeto de adoração, culto e respeito.

depois vieram os negros francófonos, léopold sédar senghor e aimé césaire, pegaram as palavras “negritude” e “mestiçagem”, que eram usadas para oprimi-los e criaram um movimento literário-político-cultural que abalou as centenárias estruturas do poder franco-europeu, além de inspirar milhões de jovens negros a se afirmarem como o que eles realmente são.

não sei para quê ter medo das palavras. se eu disser que sou negro, se eu disser que sou preto, tudo é poesia. mas se eu disser que negro (ou preto ou black ou nigro ou nigger ou nègre ou négro ou negger ou noir) é politicamente incorreto, eu estou estigmatizando a cor. e é isso que estão fazendo agora, quando mandam a gente falar “afrodescendente”. se eu disser isso, vou ter que falar também que sou eurodescendente? indiodescendente? nipodescendente? arabodescendente?!

não dava para aprender a lição dos mestres?

saravá de celebração dos 120 anos da extinção da escravatura no Brasil

Maio 12, 2008 por: leo gonçalves assuntos: agenda, aimé césaire, negritude 2 comentários →

na próxima terça-feira, 13 de maio, a partir das 19h, o projeto escrituras TIPOgráficas lança seu segundo número, com o poema navio negreiro, de castro alves. o lançamento, que comemora a passagem dos 120 anos da abolição da escravatura no brasil, faz parte da programação de reabertura do recém-ampliado bar balaio de gato.

a nova edição de navio negreiro será apresentada ao público com performance especialmente concebida por ricardo aleixo, com as participações especiais do músico e ator gil amâncio, do músico benedikt wiertz, do poeta e compositor waldemar euzébio, da cantora gabriela pilati e do poeta e tradutor leo gonçalves (este que vos fala) homenageando o poeta antilhano aimé césaire, recentemente falecido.

programa:

terça-feira, dia 13 de maio de 2008 a partir das 19h

no bar balaio de gato
rua piauí, 1052
navio negreiro estará à venda com preço especial de lançamento, tira-gosto afro e drink-cortesia.

entrada franca

(para mais informações: jaguadarte)

às vésperas do dia 13 de maio

Maio 10, 2008 por: leo gonçalves assuntos: américa latina, antropofagia, léopold sédar senghor, negritude deixe seu comentário →


o próximo dia 13, é data cívica importante para o brasil por dois motivos: 1) em 1888, a princesa isabel assinou um decreto que abolia a escravidão em todo o território do país. 2) embora a lei “extingüisse” a escravidão, isso não significava que ela estava “libertando” os escravos. mas uma vez soltos, era preciso reencontrar o seu lugar de dignidade no planeta. por isso, o dia 13 é um dia de reflexão.

passados 120 anos da lei áurea, temos diante de nossos olhos uma realidade: o racismo existe e faz com que uma imensa massa de pessoas com pele escura seja mais pobre e tenha menos oportunidade que a maioria das pessoas de pele clara. mas somos todos mestiços. no final das contas, como se costuma dizer, racistamente ou não, todos nós temos um pezinho na áfrica.

por isso, às vésperas do 13 de maio, quero lembrar dois dizeres que me parecem iluminadores. o primeiro é o do meu amigo amadou abdoulaye diop, que numa conversa em 2006, às vésperas da semana cultural do senegal, me disse: “já vi muitos brasileiros dizendo que são descendentes de escravos. é um erro. eles são descendentes de um homem livre lá na áfrica”. ir mais além. ultrapassar as fronteiras da dor.

a outra fala é o trecho de um discurso de léopold sédar senghor na ocasião de um sommet de países africanos:

o que nos liga está para além da história. está enraizado na pré-história. reporta à geografia, à etnia e, portanto, à cultura. é anterior ao cristianismo. é anterior ao islã. é anterior a toda colonização. é esta a comunidade cultural que eu chamo: africanidade. e eu a definirei como o conjunto de valores africanos de civilização. que ela apareça sob seu aspecto arabo-berbere, ou sob seu aspecto negro-africano, a africanidade apresenta sempre o mesmo caráter de paixão no sentimento de vigor na expressão.

eu sei que nossas línguas vernaculares são diversas de norte a sul, do árabe ao hotentote. ela apresenta, entretento, uma série de caminhos que as religam uma à outra. nossas raças são diversas. desde a pré-história elas se miscigenaram. a consciência de nossa comunidade cultural, de nossa africanidade, é um pré-requisito a todo progresso no caminho da unidade. sem ela não é possível haver vontade, e ainda menos esforço de eficácia e de unidade.

eu não nego que temos também, em comum, nossa situação de países sub-desenvolvidos que se caracteriza por um certo número de traços que eu resumirei assim: sub-alimentação e sub-produtividade devido à insuficiência de capital e de técnicos preparados. mas para sair precisamente dessa situação material e técnica, precisamos apelar para uma energia espritual. precisamos, juntos, forjar para nós uma arma comum. nós temos esta arma, que se encarna na africanidade. basta reconhecê-la e assumi-la corajosamente. o que supõe que nós comecemos por rejeitar todo fanatismo racial, lingüístico e religioso. então, mas somente então, poderemos definir decididamente o nosso objetivo. (L. S. Senghor)

a minha homenagem

Abril 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, leo gonçalves, negritude, poema, salamalandro apenas 1 comentário →

negro spirituals
a aimé césaire

que a sua alma vibre sua cor
no cortejo que a leve
leve segundo eguns
num retorno à terra natal

vestiremos nosso luto branco
iremos celebrar a sua nova coorte
elelelê epababá amigo aimé
o seu novo lugar

que a alma cante malandra
numa língua de aruanda
o negro spirituals
acompanhando sua travessia

comming for to care you
at home

povo se despede de aimé césaire na martinica

Abril 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, américa latina, antropofagia, literatura, negritude, política, vida deixe seu comentário →

segue abaixo, uma das poucas notícias da morte de césaire em língua portuguesa. na chamada, não encontrei o nome do jornalista que a escreveu. em todo caso, parece ser uma tradução de letra a letra de um texto que saiu, se não me engano na rfi (radio france internationale).

FORT-DE-FRANCE (AFP) — Uma multidão compareceu neste sábado ao velório do poeta Aimé Césaire na Martinica, no estádio de Dillon, em Fort-de-France, onde no domingo serão realizadas as homenagens nacionais.

O caixão percorreu a cidade na sexta-feira, sob aplausos de milhares de pessoas que acompanharam o cortejo fúnebre para dar o último adeus ao pai do movimento “negritude” e principal figura política da ilha durante mais de meio século. Césaire faleceu na quinta-feira, aos 94 anos.

O presidente francês Nicolas Sarkozy irá à Martinica para assistir à cerimônia de enterro do escritor, poeta, autor teatral, ensaísta e homem político de esquerda.

Sarkozy saudou Aimé Césaire como um “símbolo de esperança para os povos oprimidos”.

O velório popular continuará até domingo, quando o poeta será sepultado com honras de Estado, privilégio concedido até hoje na França apenas aos escritores Victor Hugo, Paul Valéry, em 1945, e Colette, em 1954.

meu comentário fica por conta do silêncio brasileiro em torno a este acontecimento, tendo em vista ter sido este um dos personagens decisivos do século xx, não apenas por sua atuação como poeta e ensaísta, mas também como político e como rebelde. o poeta, que foi saudado por andré breton e por jean-paul sartre, morreu como um dos homens mais ilustres e influentes do planeta, um personagem tão importante quanto um nelson mandela da vida.

a existência dele no mundo nos fazia lembrar que a poesia pode, sim, ser instrumento de transformação. e que um poeta vivo mantém viva com ele a memória de tempos imemoriais. tempos que antecedem não só a idéia de mercadoria, dinheiro e exploração do homem pelo homem. tempos que antecedem a própria idéia de poesia.

leia também o comentário de marcelo coelho (da folha de são paulo) e sua tradução do poema “soleil serpent“. [ aqui ]

aimé césaire, um negro essencial

Abril 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, américa latina, antropofagia, negritude, outra imprensa deixe seu comentário →

fuçando no youtube, encontrei este vídeo curtinho que mostra um pouco do universo de césaire, sua martinica. segue abaixo a transcrição, a título de legenda.

quem é este homem franzino que foge da mídia mas que todos os grandes do mundo vêm saudá-lo na sua ilha da martinica?

ao um tempo poeta, escritor, homem político, aimé césaire é antes de tudo um pioneiro que teve a coragem de defender orgulhosamente sua cor negra e deixar também a sua marca no século xx.

ardente defensor dos valores de esquerda, césaire se define como um socialista conseqüente. o que significa para ele, manter-se permanentemente à escuta de seu povo.

hoje, com mais de 90 anos, aimé césaire continua a receber todo dia no seu escritório na antiga prefeitura de fort-de-france, as personalidades do mundo inteiro, mas também, e principalmente: os simples habitantes da martinica.

outro poema do aimé césaire

Abril 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, américa latina, antropofagia, negritude, poesia, tradução apenas 1 comentário →

para dizer…

para revitalizar o rugido das fosfenas
o âmago oco dos cometas

para reavivar o verso solar dos sonhos
sua lactância
para ativar o fresco fluxo das seivas a memória dos silicatos

fúria dos povos sumidouro dos deuses seu salto
esperar a palavra seu ouro sua orla
até a ignífera
sua boca

pour dire…

pour revitaliser le rugissement des phosphènes/le coeur creux des comètes//pour raviver le verso solaire des rêves/leur laitance/pour activer le frais flux des sèves la mémoire des silicates// colère des peuples débouché des Dieux leur ressaut/patienter son or son orle/jusqu’à l’ignivome/sa bouche

este outro, aimé césaire publicou no livro “moi, laminaire…”, 1961