Salamalandro


poema

o terreiro zen e o pessegueiro de oxóssi

Agosto 25, 2008 por: leo gonçalves assuntos: haicai, poema 2 comentrios →

dia desses, caminhando pela rua da minha casa, me deparei com um pessegueiro todo florido ao lado de um antigo templo a oxóssi recém demolido. esse acontecimento anunciava a volta do zen nos meus afazeres cotidianos. a seguir, as foto-haicais que marcaram a ocasião.

a flor do pessegueiro
como no koan
já tem um pêssego inteiro

***

sarashina belo horizonte
um pêssego em flor
bashô em minas

***
primavéspera dança
na planta verde e rosa
como se oxóssi fosse

a busca por assuntos no salamalandro

Agosto 02, 2008 por: leo gonçalves assuntos: leo gonçalves, negritude, poema, poesia, salamalandro, tradução deixe seu comentrio →

algumas pessoas têm me perguntado “como faço para ler seus poemas?” outras pessoas às vezes reclamam que não conseguem encontrar as traduções que já publiquei aqui no salamalandro. pensando nisso, resolvi encurtar o caminho aqui. basta clicar no assunto que você deseja, e pronto: já terá um pouco do que deseja. enquanto não lanço nada impresso por aí, estou pensando também em colocar em breve algumas dessas coisas disponibilizadas em pdf. enquanto não vai, divirta-se aí com os links:

entre os poetas mais traduzidos e comentados no salamalandro você encontra:

chamo de poesia não somente as coisas que encontro escritas em versos ou com o nome “poesia”. mas também não tenho uma visão tão alargada assim dessa palavra. acho que a definição de paul valéry me satisfaz bastante: “poesia é festa do intelecto”. é pensando nesta idéia que muitas vezes eu publico coisas aqui sob este título. portanto, aí vai:

e pra terminar, gosto de comentar às vezes sobre a poesia viva que circula por aí. eles estão aqui:

boa leitura!

a minha homenagem

Abril 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, leo gonçalves, negritude, poema, salamalandro apenas 1 comentrio →

negro spirituals
a aimé césaire

que a sua alma vibre sua cor
no cortejo que a leve
leve segundo eguns
num retorno à terra natal

vestiremos nosso luto branco
iremos celebrar a sua nova coorte
elelelê epababá amigo aimé
o seu novo lugar

que a alma cante malandra
numa língua de aruanda
o negro spirituals
acompanhando sua travessia

comming for to care you
at home

Anotações para WTC BABEL S. A.

Abril 02, 2008 por: leo gonçalves assuntos: WTC BABEL S. A., guerrilha, leo gonçalves, manifesto, performance, poema, radicalidade deixe seu comentrio →

Eu sou aquele que transforma-se em morte
O destruidor de mundos
A rosa de Oppenheimer no Oceano Pacífico
O azul de metileno que brota do inesperado
como a salvação da terra

Os múltiplos braços de Krishna
manejando a roda da fortuna
Eu sou o oceano pacífico
O inimigo número um

(Manhattan Project is the name of a prophetic poem
by F. D. Roosevelt 1942
the shadow of General Yamamoto)

Eu sou o calo no seu sapato
Aquele que transforma-se em Ato
para destruir seus sonhos de burguês
Eu sou a própria morte lambendo os beiços em nome do deus
numa imensa mobilização de símbolos
Águias Lobos Uivos e Coyotes

Eu sou a sua estrada aberta
WTC Babel Sonho Americano
Eu sou o seu beco sem saída
A sua estrela guia o seu sono insano

Linda como um sol poente clara como o Ramadam
ó filhas do Sol Nascente
Do centésimo décimo andar eu sigo sempre atenta
Que os Demônios sempre descem do norte
Eu sou o destruidor de mundos
Aquele que transforma-se em morte

poema

Março 04, 2008 por: leo gonçalves assuntos: leo gonçalves, poema deixe seu comentrio →

menina bonita
com casaca de banana
se eu te gostasse pra sempre
eu imitava o mário quintana

andava por uma rua
rua comprida que não tem mais fim
(não pode ser rua de brasília)
andava até você dizer que sim

depois de muito caminhar
eu chegasse numa esquina
(um baú de espantos)
você seria a minha própria rima

uma rima rara
uma rima urbana
uma rima clara
uma rima sacana

a gente se olharia
com cara de quem nunca se viu
eu tiraria a sua casaca de banana
puta que pariu!

depois a gente botava
uma placa comemorativa
aqui nesta esquina
experimente: o sexo é bom. viva!

mais um poema da série

Fevereiro 25, 2008 por: leo gonçalves assuntos: poema 2 comentrios →

espreita matreiro entre as folhas de relva
essa caça não é presa fácil
silêncio (a pausa exata
entre o salto da caça
e o gesto do caçador)
o cara que caça
acha a faro
o aro da presa
o arco retesa
se ergue se abaixa
o vento uiva em seus ouvidos
e mesmo de olhos abertos
e mesmo de olhos fechados
a flecha voa e acerta de cheio
uma palavra de carne: mutacalambô*

*mutacalambô: um dos nomes do orixá “oxossi” nos terreiros de angola. segundo a tradição, teria sido no local onde caiu a flecha de oxossi é que se fundou a nação de ketu. grande parte dos terreiros brasileiros de umbanda e de candomblé são consagrados a esse importante orixá. alguns o identificam com são jorge (na bahia especialmente), mas na simbiose afrocristã, o mais recorrente é são sebastião, um santo rebelde.

quando se fala em mutacalambô, o caçador, pensa-se automaticamente nas matas e na fartura. mas numa visita recente ao rio de janeiro, percebi que ele tem uma fortíssima presença, talvez em termos de malandragem, naquela cidade conhecida nos tempos coloniais como cidade de são sebastião.

outro poema

Fevereiro 02, 2008 por: leo gonçalves assuntos: poema 3 comentrios →

 

caiaia

cai água
cai água
cai água
ai ai ai
cai água

cai água
que é doce
cai água
que é sal
cai água
cai água

cai água
de mar
cai água
de lá-
crimejar
cai água

cai gota
com gota
cai gota
cai gota
cai gota

me leva na
enchente um
presente
de lírios
e a pele
menina
desliza

cai água
de leve
na escala
cai água
cai água
de leve
que ela é
delicada

e brava
com calma
cai água
da palma
cai água
cai água
cai água

menina
de saia
com mecha
ondulada
regala
de flores
a orla
da praia
cai água
cai água
cai água

.

*caiaia, caiala, mikaia: são alguns dos nomes banto da divindade afro-brasileira mais amada do brasil, melhor conhecida como iemanjá.

um poema

Janeiro 28, 2008 por: leo gonçalves assuntos: poema apenas 1 comentrio →

canto para matamba

 

eu canto os estampidos de matamba
paixão nas faíscas de zaze
mulher búfalo – beleza pura do benin
oiá ô eparrei eparrei eparrei
olha o vento na saia dela oiá ô
olha a chuva no cochicho dela oiá ô

eu canto as ventanias de matamba
porque quando o alízio desce
porque quando o siroco sobe
cicia malícia no pelo do ventre
como um baque de delicadeza

então eu canto pelos pelos dela
meus passos sob atabaques
cuícas de uagadugu koras de dakar
meus passos pelas cortes do sahara
e os batuques de tumbuctu

ela zanza com pés de gato
e pele de leopardo
ziguezague nas terras de zambi
seu corpo eletrificando
as fuligens do seu amado
carrega o cântaro de tempestade
o sangue o azeite e o vinho de palma

mas não nada de meio termo
sangue do mais vermelho
derramado das veias da vida
derramado das veias da morte
sangue espesso fervido no metal quente
sangue ardente colhido para fioritura

eu canto a beleza de matamba
e o batuque das nuvens de chumbo
entre as chuvas e as tempestades
derramadas das veias do amor
eu canto a labareda de matamba
eparrei eparrei oiá ô

.

*este poema de leo gonçalves apareceu pela primeira vez entre as folhas de girapemba.

.

um pouco de vocabulário pode ajudar a curtir melhor:
dakar: capital do senegal
kora: instrumento de cordas, muito tocado pelos griots do senegal.
matamba, oiá, iansã, motumba, bamburucema, santa bárbara: são alguns dos muitos nomes de um dos orixás mais respeitados nos terreiros do Brasil e da iorubalândia (que inclui nigéria e Benin). primeira esposa de xangô, mulher independente, guerreira, a palas atena do panteão afrobrasileiro.é ela a labareda, dos afro-sambas de vinicius de moraes e a rainha dos raios de caetano/gil.
tumbuctu: importante cidade às margens do sahara.
uagadugu: importante cidade do noroeste africano, capital de burkina faso.
zambi: o nome banto de olorum. divindade que corresponde a “deus” na simbiose afro-cristã.
zaze: é o nome banto de xangô.

Outubro 22, 2007 por: leo gonçalves assuntos: poema, tradução apenas 1 comentrio →

je te lançais de mes crachats sur le sublime
et t’attendais dans un coin des heures mortes
je savais bien que tu ne venais pas
et tu riais
et tu riais
et tu riais

je t’attendais dans un coin aux heures mortes
d’amour avec curitiba et personne ne venait
ton amour était rien aux heures mortes
tu ne venais pas
tu ne venais pas
tu ne venais pas

je te déchirais de tout ton corps à l’eau de vie
et te disais d’aller aux gouffres de l’enfer
tu dansais sur me crachats sur mes crachats
et buvais
et buvais
et buvais

et je vivais pour adoucir bien ta faveur
et ma cravate était percée dans ton poil
je me promenais par les coins les petites places
et tu mentais
et tu mentais
et tu mentais

j’enregistrais sur le détail chacun de nos rêves
pour présenter au fantastique à la chaîne mondiale
tu dansais toute la nuit sur mes crachats
e je dansais avec toi sur mes épaules
à la chaîne mondiale
c’était ma fin
c’était ma fin
c’était ma fin