Salamalandro


poesia

paulo leminski, 24 de agosto de 2008

Agosto 24, 2008 por: leo gonçalves assuntos: antropofagia, paulo leminski, poesia, salamalandro deixe seu comentário →

já se tornou quase uma tradição (sem compromisso) a data de hoje no salamalandro. não dá pra esconder a importância de paulo leminski na minha vida. e vida é uma palavra-chave para a leminskidade da minha poesia (hoje, se me perguntarem se recebo influência de leminski, eu arrenego).

no dia 24 de agosto, ele completaria 64 anos de vida. mas como na carne não rolou, só nos resta homenagear a curta vida do cara que foi o grande mestre da minha geração.

e vai em bloco: neste momento está acontecendo a última sessão da semana paulo leminski, com a presença de toninho vaz (autor da biografia desse “bandido que sabia latim”) e leitura de poemas. mas pra mim, a homenagem mais comovente é a do ademir assunção, lá na espelunca.

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

p. leminski

letra do dia

Agosto 12, 2008 por: leo gonçalves assuntos: música, poesia deixe seu comentário →

o amor
(cecília silveira)

o amor
como for
está em tudo aqui
na praça
na rua
telhado
bichinho
tijolo de construção

o amor
como for
pulou dentro de mim
ainda sinto a dor
que um dia veio me consolar

o amor bate na porta
nas coisas tortas
em qualquer lugar
o amor bate na porta
mas não abra

olha o amor
seja como for
vai desarrumando a vida
olha o amor
venha como for
vai ameaçando meus dias

(música gravada por titane no disco ana)

a busca por assuntos no salamalandro

Agosto 02, 2008 por: leo gonçalves assuntos: leo gonçalves, negritude, poema, poesia, salamalandro, tradução deixe seu comentário →

algumas pessoas têm me perguntado “como faço para ler seus poemas?” outras pessoas às vezes reclamam que não conseguem encontrar as traduções que já publiquei aqui no salamalandro. pensando nisso, resolvi encurtar o caminho aqui. basta clicar no assunto que você deseja, e pronto: já terá um pouco do que deseja. enquanto não lanço nada impresso por aí, estou pensando também em colocar em breve algumas dessas coisas disponibilizadas em pdf. enquanto não vai, divirta-se aí com os links:

entre os poetas mais traduzidos e comentados no salamalandro você encontra:

chamo de poesia não somente as coisas que encontro escritas em versos ou com o nome “poesia”. mas também não tenho uma visão tão alargada assim dessa palavra. acho que a definição de paul valéry me satisfaz bastante: “poesia é festa do intelecto”. é pensando nesta idéia que muitas vezes eu publico coisas aqui sob este título. portanto, aí vai:

e pra terminar, gosto de comentar às vezes sobre a poesia viva que circula por aí. eles estão aqui:

boa leitura!

paul verlaine

Julho 21, 2008 por: leo gonçalves assuntos: poesia, revistas, tradução apenas 1 comentário →

retrato de paul verlaine aos 25 anos

no ano de 1867, paul verlaine publicou “as amigas - cenas de amor sáfico”, uma suíte de sonetos lésbicos. são 6 poemas que encenam delicadamente o amor de duas mocinhas de pensionato. fecha com um soneto a safo. reza a lenda que safo teria se apaixonado no final de sua vida por um jovem garoto chamado faon e se lançado do alto do monte leucas.

a plaquete foi montada sob os auspícios do editor auguste poulet-malassis, o mesmo que havia publicado, cerca de dez anos antes, “as flores do mal” de charles baudelaire. o livreto de verlaine, assim como o de baudelaire, foi censurado e mais tarde reunido pelo autor no livro jadis et naguère.

traduzi toda a série há alguns anos e fiquei (continuo ainda) à espera de uma revista ou editora que quisesse publicá-la. enquanto não chega, deixo, a título de “amuse-gueule”, o n°2 da suíte para os aficionados.

II. as pensionistas

uma tinha quinze, a outra dezesseis;
dormiam no mesmo quarto. e no ar de
outono caía, pesada, a tarde.
olhos azuis, frágeis e a tenra tez.

tiram, para estar mais à vontade,
a fina camisa de âmbar francês.
a mais nova espreguiça, e por sua vez,
sua irmã lhe beija, e com a mão a invade.

cai de joelhos, tumultuosa e louca;
e com ar selvagem, afunda a boca
no seu ouro louro, nas cinzas frestas.

e a criança, ao mesmo tempo, avalia,
nos dedos singelos, valsas promessas,
e rosa, sorri, com inocência pia.

(paul verlaine - trad.: leo gonçalves)

l’une avait quinze ans, l’autre en avait seize;/toutes deux dormaient dans la même chambre./c’était par un soir très lourd de septembre:/frêles, des yeux bleus, deus rougeurs de fraise.//chacune a quitté, pour se mettre à l’aise,/la fine chemise au frais parfum d’ambre./la plus jeune étend les bras, et se cambre,/et as soeur, les mains sur ses seins, la baise,//puis tombe à genoux, puis devient farouche/et tumultuose et folle, et sa bouche/plonge sous l’or blonde, dans les ombres grises;/et l’enfant, pendant ce temps-là, recense/sur ses doigts mignons des valses promises,/et, rose, sourit avec innocence.

agradecer e abraçar

Julho 16, 2008 por: leo gonçalves assuntos: poesia 2 comentários →

(vevé calazans - gerônimo)

abracei o mar na lua cheia, abracei
abracei o mar
abracei o mar na lua cheia, abracei
abracei o mar
escolhi melhor os pensamentos, pensei
abracei o mar
é festa no céu, é lua cheia, sonhei
abracei o mar
e na hora marcada Dona Alvorada chegou para se banhar
e nada pediu, cantou pro mar
e nada pediu
conversou com o mar
e nada pediu
e o dia sorriu…
uma dúzia de rosas, cheiro de alfzema, presentes eu fui levar
e nada pedi
entreguei ao mar
e nada pedi
me molhei no mar
e nada pedi
só agradeci…

senti um arrepio quando fabiana cozza cantou essa canção na última quinta. queria que você estivesse lá, pra ver. me lembrei do nosso dia 02 de fevereiro, las viñas del mar, a paz de espírito, o rio de janeiro e o amor sob os arcos da lapa.

jerome rothenberg aqui & ali

Julho 03, 2008 por: leo gonçalves assuntos: jerome rothenberg, literatura, não-poema, poesia, poesia contemporânea deixe seu comentário →

(aproveitando uma dica do heriberto yepez)

há bem pouco tempo que venho me enveredando pelos estudos da etnopoesia. acho lamentável não encontrar muitas fontes sobre o assunto em língua portuguesa. fiquei bem feliz quando encontrei numa livraria um livro chamado “etnopoesia no milênio”, da editora azougue. da mesma forma, passeando pelo incrível site do ubu, encontrei um excelente manancial (coordenado pelo próprio jerome) sobre a ethnopoetics, oferecido para os leitores de língua inglesa. foi lá que achei o “sketch on ethnopoetics” de heriberto yepez para traduzir.

acredito muito numa poesia que chamarei “de pesquisa”, a qual encontro as primeiras prefigurações no brasileiro sousândrade, nas galáxias de haroldo de campos e em jerome rothenberg.

rothenberg é mais um que entra para a bloguesfera. ele lança seus delírios de lá da california no poems & poetics. no prospecto que ele inseriu na barra ao lado de seu espaço, um pouco daquilo que os blogueiros dizem ou diriam se tivessem lembrado de fazê-lo.

nesta era de internet e blogue, abre-se a possibilidade para uma livre circulação de obras (poemas e poéticas no nosso caso) para além de um nexo comercial ou acadêmico. eu passarei a postar algumas das minhas próprias obras, tanto novas quanto velhas, de difícil ou impossível acesso, e também, como der na telha, postar obras de outros meio à maneira de uma antologia ou revista aberta. eu tomo isto para estar na tradição dos poetas de publicação autônoma, retornando a Blake & Whitman & Dickinson, entre numerosos outros.

o poems & poetics está no:
www.poemsandpoetics.blogspot.com

além disso, você encontra mais sobre a ethnopoetics no:
www.ubu.com/ethno

gérard de nerval

Junho 16, 2008 por: leo gonçalves assuntos: gerard de nerval, poesia, tradução deixe seu comentário →

eu estava aqui lendo um texto do claudio willer na revista agulha n° 63 sobre um dos poetas que mais gosto, um cara estranho, escuro, gnóstico, desdichado, deserdado, simbolista avant la lettre, que foi considerado louco duas vezes e suicida aos 46 anos. o texto do willer se chama “gérard de nerval aos 200 anos“. eu estava aqui me deliciando com o texto dele e me deu uma puta vontade de dar a minha versão brasileira para o poema el desdichado, livre para ouvir pitacos a fim de melhorá-la. é um poema bem hermético. mas quem quiser esclarecer alguns pontos, palavras como posilipo, lusignam, febo, biron, e sol negro, sugiro que dê uma lida no artigo do willer.

El Desdichado

Eu Sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,
O Duque de Aquitânia em sua abolida Torre:
Morreu minha Estrela – e meu lude constelado
Traz o Sol negro, onde a Melancolia acorre.

Na noite Tumular, Tu que me hás consolado
Dá-me o Posílipo e o mar que na Itália corre,
A flor que tanto apraz meu peito desolado,
E a parreira de onde Pâmpano e Rosa escorrem.

Serei Amor ou Febo?… Lusignam ou Biron ?
Tenho a testa ainda rubra do beijo da Rainha;
Sonhei na Gruta onde minha Sereia brinca…

Duas vezes vencedor atravessei o Aqueronte
Modulando aos bocados na lira de Orpheu
Os suspiros da Santa e os ais que a Fada deu.

Je suis le Ténébreux, - le Veuf, - l’Inconsolé,/Le Prince d’Aquitaine à la Tour abolie :/Ma seule Étoile est morte, - et mon luth constellé/Porte le Soleil noir de la Mélancolie.//Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m’as consolé,/Rends-moi le Pausilippe et la mer d’Italie,/La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,/Et la treille où le Pampre à la Rose s’allie.//Suis-je Amour ou Phoebus ?… Lusignam ou Biron ?/Mon front est rouge encor du baiser de la Reine ;/J’ai rêvé dans la Grotte où nage la Sirène…//Et j’ai deux fois vainqueur traversé l’Achéron :/Modulant tour à tour sur la lyre d’Orphée/Les soupirs de la Sainte et les cris de la Fée.

black or white, totem, tabu e algumas palavras do caetano veloso

Junho 13, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, antropofagia, léopold sédar senghor, língua, negritude, oswald de andrade, poesia 4 comentários →

“eu não gosto dessa vontade desesperada de ser americano”. é o que diz o caetano veloso, que está lá no obra em progresso lançando belas bombas. (dica surpreendente do ric)

eu também não gosto, caetano: oswald de andrade, quando lançou o manifesto antropófago, falou: a transformação constante do tabu em totem. quer dizer, pegar a palavra-tabu “antropofagia” (a vergonha indígena nacional tupiniquim) e transformá-la num totem, num objeto de adoração, culto e respeito.

depois vieram os negros francófonos, léopold sédar senghor e aimé césaire, pegaram as palavras “negritude” e “mestiçagem”, que eram usadas para oprimi-los e criaram um movimento literário-político-cultural que abalou as centenárias estruturas do poder franco-europeu, além de inspirar milhões de jovens negros a se afirmarem como o que eles realmente são.

não sei para quê ter medo das palavras. se eu disser que sou negro, se eu disser que sou preto, tudo é poesia. mas se eu disser que negro (ou preto ou black ou nigro ou nigger ou nègre ou négro ou negger ou noir) é politicamente incorreto, eu estou estigmatizando a cor. e é isso que estão fazendo agora, quando mandam a gente falar “afrodescendente”. se eu disser isso, vou ter que falar também que sou eurodescendente? indiodescendente? nipodescendente? arabodescendente?!

não dava para aprender a lição dos mestres?

leonardo costa braga: photo-poesia

Junho 11, 2008 por: leo gonçalves assuntos: arte, poesia, vida apenas 1 comentário →

leonardo costa braga, além de um grande amigo, sempre foi o meu fotógrafo favorito. ele participou, no último ano do 14º. salão da bahia, no mam, além de ter mandado suas fotografias para ser vistas na eslovênia, espanha, brasília, portugal e porto alegre, alemanha e rio de janeiro. há algum tempo atrás, ele publicou na revista caros amigos esse texto abaixo. e eu o reproduzo aqui com banzo das nossas antigas conversas nonsense enquanto assaltávamos o mundo com poesia em plena quarta-feira. saravá-evohé, leo!

TEMPO VIVO
por Leonardo Costa Braga

O Walter Firmo me pediu que escrevesse sobre a ilusão do meu olhar (falou isso como se estivesse me fotografando). Então confirmo o que ele viu, no ato e na palavra: photo-grafien (luz-escrita). Por isso, a criança e sua luz acusando a vida no corpo, alegria da célula dançando, explosão que nem a bomba de Hiroxima conseguiu apagar. Por isso, o velho e sua luz de dentro, seiva tão bela de tristezas que faz a árvore crescer, a delicadeza da compaixão de ainda estar junto de alguém. Por isso, a mãe que dá à luz, manuscrita do grito de amor que repercute na escravidão do universo. Sendo assim, fica muito difícil photo-grafar o adulto. Não está acordado nem dormindo, parece que está sonhando, como nos filmes do Kurosawa. Mas tento tirar uma photo, que geralmente vira um xerox. Uma cópia da realidade. Uma falsificação. Não brilha. E a photo-grafien, ao contrário do que se diz, não é uma imagem estática, é a certeza de que o tempo está sempre vivo, te olhando e esperando ser olhado. Com isso, lembro quando tinha 7 anos de idade, correndo na casa da minha tia e parando em frente a uma grande photo-grafien na parede: uma cadeira de balanço, um velho negro sentado, um saxofone, uma árvore. Um instante depois: um velho negro chorrindo baixinho e uma árvore deixando cair sua primeira semente no meio da sala onde me encontrava. A luz. A escrita. Minha ilusão.