Salamalandro


poesia

mostra sesc artes 08

Outubro 09, 2008 por: leo gonçalves assuntos: agenda, arte, poesia, poesia contemporânea, política, vídeo poema deixe seu comentário →

começou ontem, dia 08 de outubro, e vai até o dia 19 a mostra sesc artes 08 em são paulo. um amplo projeto, incluindo muitas artes e arteirices de todas as linguagens. quem conferir aqui, verá que está tudo muito bonito. mas pra mim, a novidade que deixou muita gente aí rindo à toa são as três proposições do ricardo silveira. umas idéias super simples e bem humoradas que farão muitos paulistanos conviver com poesia durante 9 dias:

* poesia de bebedouro

* poema para viagem

* poema passageiro

participo desta última com um clip-poema que circulará nas tvs de alguns ônibus de são paulo. ao meu lado, além do ricardo trickster silveira, que me deu a honra do convite, tem bastante gente boa: ana rüsche, angelica freitas, bruna beber, chacal, marcelo montenegro, marcelo sahea, ricardo domeneck e rodrigo garcia lopes. e na área das letras, ainda tem mais.

quem quiser conferir lá no site, uma clicadinha aqui vai bem:
www.mostrasescdeartes.com.br
www.poesiafora.blogspot.com

canção do carcereiro - jacques prévert

Outubro 06, 2008 por: leo gonçalves assuntos: poesia, tradução deixe seu comentário →

onde vai você meu carcereiro
com essa chave manchada de sangue
vou libertar aquela que eu amo
se é que ainda tenho tempo
e que eu mesmo aprisionei
ternamente cruelmente
no mais escondido do meu desejo
no mais profundo do meu tormento
nas mentiras do futuro
nas bobagens das minhas juras
eu quero libertá-la
quero que ela seja livre
e mesmo que ela me esqueça
e mesmo que ela se vá
e mesmo que ela volte
e que ainda me ame
ou que ame um outro
se um outro lhe agrada
e se eu ficar na solidão
e ela tiver ido embora
eu guardarei apenas
eu guardarei pra sempre
no côncavo das minhas duas mãos
até a minha última hora
a doçura dos seus seios modelados pelo amor

(tradução improvisada, leo gonçalves)

Chanson du geolier
Où vas-tu beau geôlier/Avec cette clé tachée de sang/Je vais délivrer celle que j’aime/S’il en est encore temps/Et que j’ai enfermée/Tendrement cruellement/Au plus secret de mon désir/Au plus profond de mon tourment/Dans les mensonges de l’avenir/Dans les bêtises des serments/Je veux la délivrer/Je veux qu’elle soit libre/Et même de m’oublier/Et même de s’en aller/Et même de revenir/ Et encore de m’aimer/Ou d’en aimer un autre/Si un autre lui plaît/Et si je reste seul/Et elle en allée/Je garderai seulement/Je garderai toujours/Dans mes deux mains en creux/Jusqu’à la fin de mes jours/La douceur de ses seins modelés par l’amour

um não-poema de heriberto yépez

Setembro 14, 2008 por: leo gonçalves assuntos: heriberto yépez, não-poema, poesia, tradução deixe seu comentário →

O Daniel não gosta do latex
diz que com a muralha
de uma única pele
já é mais que o suficiente.

Quanto a mim, acho
que não há invenção
mais fabulosa do que a camisinha:

é o primeiro invento humano
que realmente nos protege
dos terríveis efeitos
e venenos próprios do amor.

A Daniel le molesta el látex/dice que con la muralla/de una sola piel/ya es más que suficiente.//A mí, en cambio, me parece/que no hay invención/más fabulosa que el condón://es el primer invento humano/que realmente nos protege/de los terribles efectos/y venenos propios del amor.

este poema faz parte do livro 41 closets, de heriberto yépez, publicado há 3 anos no méxico. a tradução é minha. voltarei a falar do assunto.

paulo leminski, 24 de agosto de 2008

Agosto 24, 2008 por: leo gonçalves assuntos: antropofagia, paulo leminski, poesia, salamalandro deixe seu comentário →

já se tornou quase uma tradição (sem compromisso) a data de hoje no salamalandro. não dá pra esconder a importância de paulo leminski na minha vida. e vida é uma palavra-chave para a leminskidade da minha poesia (hoje, se me perguntarem se recebo influência de leminski, eu arrenego).

no dia 24 de agosto, ele completaria 64 anos de vida. mas como na carne não rolou, só nos resta homenagear a curta vida do cara que foi o grande mestre da minha geração.

e vai em bloco: neste momento está acontecendo a última sessão da semana paulo leminski, com a presença de toninho vaz (autor da biografia desse “bandido que sabia latim”) e leitura de poemas. mas pra mim, a homenagem mais comovente é a do ademir assunção, lá na espelunca.

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

p. leminski

letra do dia

Agosto 12, 2008 por: leo gonçalves assuntos: música, poesia deixe seu comentário →

o amor
(cecília silveira)

o amor
como for
está em tudo aqui
na praça
na rua
telhado
bichinho
tijolo de construção

o amor
como for
pulou dentro de mim
ainda sinto a dor
que um dia veio me consolar

o amor bate na porta
nas coisas tortas
em qualquer lugar
o amor bate na porta
mas não abra

olha o amor
seja como for
vai desarrumando a vida
olha o amor
venha como for
vai ameaçando meus dias

(música gravada por titane no disco ana)

a busca por assuntos no salamalandro

Agosto 02, 2008 por: leo gonçalves assuntos: leo gonçalves, negritude, poema, poesia, salamalandro, tradução deixe seu comentário →

algumas pessoas têm me perguntado “como faço para ler seus poemas?” outras pessoas às vezes reclamam que não conseguem encontrar as traduções que já publiquei aqui no salamalandro. pensando nisso, resolvi encurtar o caminho aqui. basta clicar no assunto que você deseja, e pronto: já terá um pouco do que deseja. enquanto não lanço nada impresso por aí, estou pensando também em colocar em breve algumas dessas coisas disponibilizadas em pdf. enquanto não vai, divirta-se aí com os links:

entre os poetas mais traduzidos e comentados no salamalandro você encontra:

chamo de poesia não somente as coisas que encontro escritas em versos ou com o nome “poesia”. mas também não tenho uma visão tão alargada assim dessa palavra. acho que a definição de paul valéry me satisfaz bastante: “poesia é festa do intelecto”. é pensando nesta idéia que muitas vezes eu publico coisas aqui sob este título. portanto, aí vai:

e pra terminar, gosto de comentar às vezes sobre a poesia viva que circula por aí. eles estão aqui:

boa leitura!

paul verlaine

Julho 21, 2008 por: leo gonçalves assuntos: poesia, revistas, tradução apenas 1 comentário →

retrato de paul verlaine aos 25 anos

no ano de 1867, paul verlaine publicou “as amigas - cenas de amor sáfico”, uma suíte de sonetos lésbicos. são 6 poemas que encenam delicadamente o amor de duas mocinhas de pensionato. fecha com um soneto a safo. reza a lenda que safo teria se apaixonado no final de sua vida por um jovem garoto chamado faon e se lançado do alto do monte leucas.

a plaquete foi montada sob os auspícios do editor auguste poulet-malassis, o mesmo que havia publicado, cerca de dez anos antes, “as flores do mal” de charles baudelaire. o livreto de verlaine, assim como o de baudelaire, foi censurado e mais tarde reunido pelo autor no livro jadis et naguère.

traduzi toda a série há alguns anos e fiquei (continuo ainda) à espera de uma revista ou editora que quisesse publicá-la. enquanto não chega, deixo, a título de “amuse-gueule”, o n°2 da suíte para os aficionados.

II. as pensionistas

uma tinha quinze, a outra dezesseis;
dormiam no mesmo quarto. e no ar de
outono caía, pesada, a tarde.
olhos azuis, frágeis e a tenra tez.

tiram, para estar mais à vontade,
a fina camisa de âmbar francês.
a mais nova espreguiça, e por sua vez,
sua irmã lhe beija, e com a mão a invade.

cai de joelhos, tumultuosa e louca;
e com ar selvagem, afunda a boca
no seu ouro louro, nas cinzas frestas.

e a criança, ao mesmo tempo, avalia,
nos dedos singelos, valsas promessas,
e rosa, sorri, com inocência pia.

(paul verlaine - trad.: leo gonçalves)

l’une avait quinze ans, l’autre en avait seize;/toutes deux dormaient dans la même chambre./c’était par un soir très lourd de septembre:/frêles, des yeux bleus, deus rougeurs de fraise.//chacune a quitté, pour se mettre à l’aise,/la fine chemise au frais parfum d’ambre./la plus jeune étend les bras, et se cambre,/et as soeur, les mains sur ses seins, la baise,//puis tombe à genoux, puis devient farouche/et tumultuose et folle, et sa bouche/plonge sous l’or blonde, dans les ombres grises;/et l’enfant, pendant ce temps-là, recense/sur ses doigts mignons des valses promises,/et, rose, sourit avec innocence.

agradecer e abraçar

Julho 16, 2008 por: leo gonçalves assuntos: poesia 2 comentários →

(vevé calazans - gerônimo)

abracei o mar na lua cheia, abracei
abracei o mar
abracei o mar na lua cheia, abracei
abracei o mar
escolhi melhor os pensamentos, pensei
abracei o mar
é festa no céu, é lua cheia, sonhei
abracei o mar
e na hora marcada Dona Alvorada chegou para se banhar
e nada pediu, cantou pro mar
e nada pediu
conversou com o mar
e nada pediu
e o dia sorriu…
uma dúzia de rosas, cheiro de alfzema, presentes eu fui levar
e nada pedi
entreguei ao mar
e nada pedi
me molhei no mar
e nada pedi
só agradeci…

senti um arrepio quando fabiana cozza cantou essa canção na última quinta. queria que você estivesse lá, pra ver. me lembrei do nosso dia 02 de fevereiro, las viñas del mar, a paz de espírito, o rio de janeiro e o amor sob os arcos da lapa.