Salamalandro


política

Não gosto de plágio

março 13, 2010 por: leo gonçalves assuntos: política, tradução 2 comentrios →

Mês passado eu li isto no blogue “Não gosto de plágio”, comandado pela corajosa Denise Bottmann:

numa ação movida pela editora landmark e pelo sr. fábio cyrino, estou sendo processada por pretensas calúnias contra os reclamantes, por ter publicado no nãogostodeplágio provas mostrando a prática de plágio nas traduções de persuasão, de jane austen, e o morro dos ventos uivantes, de emily brontë, ambas publicadas pela referida editora em 2007.

além de vultosa indenização por pretensos danos morais e materiais, os reclamantes solicitaram:
- “publicidade restrita”, isto é, que o processo corresse em sigilo de justiça,
- a remoção do blog nãogostodeplágio da internet, invocando o “direito de esquecimento”,
- “antecipação dos efeitos da tutela de mérito”, isto é, que a justiça determinasse a remoção imediata do blog antes da avaliação do mérito da ação impetrada.

No Brasil existe um curioso costume: interessadas em participar do incrível e promissor “mercado editorial brasileiro”, algumas editoras lançam clássicos da literatura universal cujo autor já se tornou Domínio Público (para não ter que pagar seus direitos autorais, mas principalmente para não serem processadas pelos detentores dos direitos) em traduções piratas.

- Traduções piratas?

- Sim. Veja como funciona: alguém vai até à livraria, encontra um livro traduzido e parafraseia palavra por palavra até tornar o trabalho do tradutor aparentemente irreconhecível. Depois publica a tradução sob um pseudônimo. Assim economizam uma parte da grana necessária para a edição. Depois fazem ainda uma publicação mais ou menos, organizam uma tiragem altíssima de modo a economizar bastante na gráfica e alcançam um preço unitário bem baixo. O resultado é uma obra clássica barata, pela qual o público vai facilmente se interessar sem muitos questionamentos. Afinal quem se interessa por saber quem são os tradutores de um livro? Muito pouca gente.

A lista de editoras desse tipo não é pequena. A Landmark é apenas uma das muitas. A Martin Claret é a mais conhecida. Mas temos também a Madras, a Hemus e por aí vai. O que fazer para se previnir? É sempre muito difícil julgar na hora da compra.

Há alguns anos, Denise Bottmann vem prestando um serviço incrível: compara, coteja, divulga traduções confiáveis e desconfiáveis. Tudo lá no nãogostodeplágio. Um verdadeiro exercício de paciência e persistência na arte de desmascarar.

Me parece incrível que tenha tardado tanto uma reação por parte das editoras. A petição do senhor Fábio Cyrino, por outro lado, foi um verdadeiro naufrágio. Logo em seguida, Denise (e Raquel Sallaberry, também incluída no processo), foram agraciadas por milhares de manifestações a seu favor. Blogues pelo país afora, matérias na imprensa, manifestos e petições. Confesso que este último fato acalmou meu pessimismo.

Veja mais notícias nos enlaces abaixo:

www.naogostodeplagio.blogspot.com

www.apoiodenise.wordpress.com

Vídeo documentário sobre o Poro

março 03, 2010 por: leo gonçalves assuntos: anarquia, arte, cinema, documentário, ecologia, educação, política, poro, radicalidade, terrorismo poético, vídeo poema apenas 1 comentrio →

Ações efêmeras. Ou seja, ações sutis. Delicadas ações que podem passar desapercebidas. “A pessoa bruta não liga pra nuance das coisas” (mautner). Pequenas doses de beleza em paredes, em folhas, enxurradas. Desde 2002 inventando intervenções nos espaços públicos, o Poro acaba de lançar o seu primeiro documentário. Produzido em parceria com a Rede Jovem de Cidadania, o filme de 22 minutos mostra várias das principais ações que o Poro vem desenvolvendo nos últimos 8 anos.

Para saber mais, é no blogue oficial do poro:
http://poro.redezero.org/video/documentario/

Plano Nacional de Direitos Humanos

fevereiro 01, 2010 por: leo gonçalves assuntos: polêmica, política, política cultural, vida 2 comentrios →

O texto final deste Programa é fruto de um longo e meticuloso processo de diálogo entre poderes públicos e sociedade civil. Representada por diversas organizações e movimentos sociais, esta teve participação novamente decisiva em todas as etapas de sua construção. A base inicial do documento foi constituída pelas resoluções aprovadas na 11ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos, que compuseram um primeiro esqueleto do terceiro PNDH. (…)

O desafio agora é concretizá-lo.

Paulo Vanucchi


Este PNDH-3 será um roteiro consistente e seguro para seguir consolidando a marcha histórica que resgata nosso País de seu passado escravista, subalterno, elitista e excludente, no rumo da construção de uma sociedade crescentemente assentada nos grandes ideais humanos da liberdade, da igualdade e da
fraternidade.

Luis Inácio Lula da Silva

Este é um assunto de interesse de todos. Muita genta não sabe: o governo brasileiro lançou na virada do ano o Plano Nacional de Direitos Humanos, também conhecido como PNDH3. Um pacotão que está dando o que falar. Os críticos mais ácidos afirmam que o pacote é, finalmente, o programa petista sendo posto em prática. Mas a verdade é que não se trata apenas disto.

Nos últimos 15 anos, o governo tem discutido com representantes de todos os setores interessados (durante o processo participaram cerca de 14 mil pessoas de todos os estados brasileiros) um plano nacional de direitos que amplie a participação da sociedade civil. No texto final, há diversas cláusulas polêmicas, como o direito ao aborto (baseado no direito da mulher sobre o próprio corpo), a união civil entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por casais homossexuais, o direito à memória (a abertura dos arquivos da ditadura militar, por exemplo), o amplo direito à cultura e à saúde, a criação de juizados de conciliação para casos de invasão de terras abrindo meios para um princípio de reforma agrária e por aí vai.

O problema é que o assunto tem sido discutido e polemizado apenas por tendenciosas alas do poder. A igreja critica, entre outras coisas, o direito ao aborto, acusa Lula de “o novo Herodes”, os militares reclamam da abertura, os juízes e ruralistas afirmam que o Plano vai contra a propriedade privada e que fortifica o Movimento dos Sem Terra.

O item relacionado à cultura me parece ainda insuficiente, mas não será isso que tornará o todo menos interessante. O assunto interessa a todos, enfim. E se é para haver polêmicas, que sejam justas. Com opiniões dos dois lados.

Tenho visto poucas manifestações das partes mais interessadas. Mas uma das que mais gostei foi o ato público que ocorrerá em São Paulo, no domingo, dia 07 de fevereiro às 17h, na esquina de Rua Augusta com Avenida Paulista: haverá um Beijaço pelos Direitos Humanos, uma pacífica saudação ao Plano que poderá tornar o Brasil legalmente um país bom de viver. Vamos fazer um em Belo Horizonte também? No mesmo dia e hora. Beijo é sempre bom. Que tal na Praça da Estação…

Para ler o texto completo do PNDH3, é só clicar aqui.

Roberto Piva: xamã sem pajé

janeiro 25, 2010 por: leo gonçalves assuntos: Roberto Piva, poetamigos, política, vida deixe seu comentrio →

Acho chato falar de um poeta sempre nos limites da fraqueza humana, no leito do hospital, no desespero e na urgência. Um poeta como Roberto Piva merece ser sempre comentado e lembrado em estado de exuberância, vivo flaneur de um lugar onde o cheiro incita o caminhar, mesmo que no horizonte seja possível avistar o céu preto da necrópole. Não é bom pensar num xamã com olhos piedosos, mesmo que ele esteja como todos nós, forrado das doenças ocidentais.

Mas estamos todos no mesmo barco e a urgência existe. E o poeta se encontra em dificuldades, sem grana e sem pajé. Tem 73 anos e de um tempo pra cá começou a sofrer de mal de Parkinson. No dia 20 foi internado no Hospital das Clínicas de São Paulo e enfrenta o seu inferno dantesco. Ademir Assunção escreveu sobre ele no dia 22 e, pelo que eu soube, as coisas continuam na mesma. Ana Peluso me disse que estão tentando sensibilizar o governo para conseguir um lugar melhor, mas não há resposta. Como bem falou o Ademir, “artistas não vivem de elogios”. Ninguém, na verdade, convenhamos.

Roberto Piva lançou sua poesia reunida recentemente pela editora Globo e desde então voltou a ser falado e comentado, lido, ouvido, cinegrafado. Para quem quiser ouvi-lo mais, é na TV Cronópios. Você também consegue lê-lo na Revista Agulha, na Zona Branca-Espelunca do Ademir Assunção, na Germina Literatura e no google, quer dizer, no mundo. Quero que ele continue assim: no mundo. Não apenas em bytes, mas carne e osso. Quem também quiser, proponho manter-se informado sobre o melhor jeito de ajudar. Mãos à obra.

Aprovado o SIMPLES para a Cultura

dezembro 16, 2009 por: leo gonçalves assuntos: política, política cultural apenas 1 comentrio →

Na primeira votação do Plenário nesta quarta-feira (16), 51 senadores aprovaram o chamado “Simples da Cultura”, projeto de lei complementar da Câmara (PLC 200/09), do deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP) que inclui os produtores e as produções artísticas e culturais no sistema tributário denominado Simples Nacional. Pela medida, que precisa ser sancionada pelo presidente da República ainda este ano para surtir efeitos em 2010, os artistas e produtores de arte e cultura serão beneficiados com uma redução na alíquota de tributação de 18% para até 6%, segundo observou o senador Aloizio Mercadante (PT-SP).

A notícia é excelente. É raro ver os políticos percebendo o papel da cultura para o crescimento do país. A visão estreita dos políticos não os deixa perceber que, além de formar parte significativa da população brasileira, artistas e produtores culturais colaboram diretamente, e não apenas em patrimônio imaterial, para o desenvolvimento econômico do país. Segundo a senadora Ideli Salvatti (PT-SC), relatora da matéria, o setor artístico responde por pelo menos 5% do PIB.

para saber mais, clique aqui.

MIP2

junho 04, 2009 por: leo gonçalves assuntos: agenda, arte, performance, política 2 comentrios →

Em 2009 o CEIA – Centro de Experimentação e Informação de Arte realizará a segunda edição da MIP. Nesta edição, o evento propõe leituras transversais entre a performance e outras linguagens artísticas como a dança, o teatro e a música com a proposta de não privilegiar apenas o olhar determinado pelas artes plásticas, mas de dar ênfase à diluição das fronteiras entre as várias linguagens artísticas. A programação inclui workshops, palestras e apresentações, com a participação de mais de 30 artistas locais, nacionais e internacionais.

MIP2 - Movimentação Internacional de Performance

2009 – Belo Horizonte, Brasil
de 20 a 31 de julho: workshops
de 03 a 09 de agosto: semana de apresentações, vídeo-performances e ciclo de palestras

AS INSCRIÇÕES PARA ESPAÇO ABERTO E WORKSHOPS FORAM PRORROGADAS: de 11 de maio a 15 de junho

Saiba mais nos endereços:

www.ceia.art.br
www.virgulaimagem.redezero.org

poro: radicalidade e delicadeza

fevereiro 14, 2009 por: leo gonçalves assuntos: arte, guerrilha, política, poro, radicalidade, vanguarda 2 comentrios →

grupo poro

proposição do poro para o vac

radicalidade = tomar as coisas pela raiz (k. marx)

o verão arte contemporânea este ano está inspirador. 2009 começa subversivo. nesta versão, o poro (composto pela dupla marcelo terça nada! e brígida campbell) participa com suas intervenções radical-delicadas. pequenas inserções de poesiarte em alguns cantos inesperados. um tropeço e você se depara com uma frase iluminada: “veja através”, “assista sua máquina de lavar como se fosse um vídeo”, e por aí vai.

ou então, numa parede inesperada na esquina da sua casa, dessas que você acostumou a ver descascar-se pela ação da natureza ou ficarem cobertas de pixações, você vê de repente uma série de azulejos daqueles que você já não vê desde a sua infância.

pequenas inserções de poesia no cotidiano que pouco a pouco vão reconstruindo o sentido da beleza na vida urbana. alguém ao meu lado me olha com olhar estranho e me faz a pergunta que me fazem sempre: “e isso é arte?”, ao que eu respondo sem palavras: “da mais fina que há”. eu acho que isso eu nem precisava falar, basta ver (mas acho que esse tipo de pergunta é daquelas que fazem um caboclo fingir que não entende o que está vendo). por isso a boca só diz: “e isso importa?”

veja o trabalho do poro no site: www.poro.redezero.org

WTC BABEL S. A.

janeiro 18, 2009 por: leo gonçalves assuntos: WTC BABEL S. A., antropofagia, performance, poema, poesia, poesia contemporânea, política 5 comentrios →

WTC BABEL S. A. - um poema bomba de Leo Gonçalves (edições Barbárie, 2008)


a ciência parcial da palavra

janeiro 03, 2009 por: leo gonçalves assuntos: WTC BABEL S. A., crisálida, ensaio, juan gelman, livros, manifesto, poesia, política, radicalidade apenas 1 comentrio →

com/posicoes: livro de juan gelman em tradução de andityas soares de moura (crisálida, 2006)

o livro com/posições de juan gelman, foi publicado em 2007 pela editora crisálida, em tradução de andityas soares de moura. além dos poemas que juan publicou sob esse título, o livro traz também uma entrevista que o poeta concedeu a mim e a andityas na ocasião do lançamento do livro isso (no início de 2005), publicada originalmente no suplemento literário de minas gerais e disponível aqui no salamalandro. em setembro de 2006, no dia exato do lançamento de com/posições, escrevi esse artigo que permaneceu inédito, mas que na minha opinião, passados dois anos e meio e uma eleição presidencial estadunidense, continua atual.

A ciência parcial da palavra

Leonardo Gonçalves

É possível que nunca o tema da Torre de Babel tenha surgido com tanta força como na atualidade. Vivemos num mundo onde as fronteiras não impedem o contato entre pessoas de diferentes nações e idiomas. A tecnologia digital nos possibilita uma aproximação que nenhum fabricante de lentes ou telefones jamais pôde supor. Essa proximidade tem algo de Babel, pois ao mesmo tempo em que se comunica, também se incomunica. E o próprio ato de comunicar-se, transforma-se facilmente em tormento, em desacerto, em erro.

Babel, de acordo com o Gênesis, significa “confusão”. O castigo para a audácia humana. A incomunicabilidade como punição para que o homem se disperse pelo mundo. No entanto, somos testemunhas de que a variedade lingüística não é empecilho para a comunicação. Os amantes, os internautas e os poetas sabem disto muito bem. E o contrário também acontece: pessoas de um mesmo idioma muitas vezes se compreendem mal. Os políticos, as famílias e muitos leitores de poesia conhecem isso de perto.

Se não é o idioma que separa a compreensão da incompreensão, haverá algo que o determine? (mais…)

o que dizia ginsberg em 1992

dezembro 14, 2008 por: leo gonçalves assuntos: beat, guerrilha, política 2 comentrios →

o poeta norte-americano allen ginsberg

os eua, que são só uma parte da américa, chegaram a um ponto violento em termos de consumo, arrogância e hipocrisia. a revolução high tech nos trouxe inúmeras doenças e problemas, como o aumento da temperatura devido aos buracos da camada de ozônio, criou inúmeras doenças pelo planeta, que hoje está com aids. estamos numa enrascada. eu usaria uma metáfora para explicar a situação em que estamos vivendo hoje: os eua são como um alcoólatra que acabou de encher a cara e está tomando outro drinque e fica acusando todo mundo de criticar seu vício. enquanto isso, a família e os outros fingem que não vêem, numa extrema negação da violência e do mal provocado por este indivíduo. o mesmo acontece com os meios de comunicação: eles tentam encobrir os estragos e negar o que está acontecendo. há uma atitude de recusa em ver a “coisa real” e é isso que esse triunfalismo e essa crise moral significam. você pode usar todas as palavras que têm alguma relação com o alcoolismo para explicar a situação atual: sentimentos reprimidos, negação, violência, decadência física e mental, vício, dano, co-dependência. (mais…)

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