Salamalandro


vida

casa áfrica daara - curso de línguas

Julho 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: agenda, casa áfrica, educação, leo gonçalves, língua, vida deixe seu comentário →

daara é uma palavra da língua wolof que significa “lugar onde se adquire o conhecimento”. o centro cultural casa áfrica inaugura no dia 04 de agosto o seu curso de línguas. começaremos nesse segundo semestre de 2008 com os cursos de inglês e de francês. este último terá por professor o leo gonçalves (este salamalandro que vos fala). turmas reduzidas, preço módico e cultura do universal, eis o nosso convite. a casa áfrica fica na rua leopoldina, 48 - bairro santo antônio. pertinho da vaca. para se matricular ou pedir mais informações, é nos segintes números: (31) 3234 5939 (escritório da casa áfrica), (31) 3344 1803 (centro cultural casa áfrica) ou comigo, no 9130 3720. ou então deixe aqui o seu comentário que eu responderei.

fervuras

Junho 30, 2008 por: leo gonçalves assuntos: livros, mercado editorial, política, radicalidade, vida apenas 1 comentário →

enquanto passo pelo “dia do meio do ano”, faço uma leve pausa para reflexões e novas fervuras. aguarde para breve brevíssimo novas notícias, poemas, idéias, propostas, visões. enquanto isso, deixo vocês com um trecho do pós escrito de Ray Bradbury para o seu Farenheit 451 (dica do Marcelo Terça-Nada) sobre como os primeiros a queimarem livros, censurarem, destruírem o pensamento, são os representantes das assim chamadas “minorias”. tirem suas conclusões (aproveitem para procurar o seu exemplar na livraria).

Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho-quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio. (…) Beatty, o capitão dos bombeiros em meu romance Farenheit 451, explicou como os livros foram queimados primeiros pelas minorias, cada um rasgando uma página ou parágrafo desse livro e depois daquele, até que chegou o dia em que os livros estavam vazios e as mentes caladas e as bibliotecas para sempre fechadas.

discutindo futebol

Junho 18, 2008 por: leo gonçalves assuntos: vida 3 comentários →

eu estava trocando idéias com meu amigo anderson almeida sobre um capítulo de a utopia brasileira e os movimentos negros, em que antônio risério fala apaixonadamente do futebol brasileiro. lá, ele cita um trecho de nelson rodrigues e o anderson veio sugerir que suprimisse a palavra jogador. boa idéia:

A pura, a santa verdade é a seguinte: qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: temos dons em excesso. (nelson rodrigues)

comentário do anderson: “conclusão: não precisamos de mais criatividade, precisamos de menos inibição”. sábias palavras.

leonardo costa braga: photo-poesia

Junho 11, 2008 por: leo gonçalves assuntos: arte, poesia, vida apenas 1 comentário →

leonardo costa braga, além de um grande amigo, sempre foi o meu fotógrafo favorito. ele participou, no último ano do 14º. salão da bahia, no mam, além de ter mandado suas fotografias para ser vistas na eslovênia, espanha, brasília, portugal e porto alegre, alemanha e rio de janeiro. há algum tempo atrás, ele publicou na revista caros amigos esse texto abaixo. e eu o reproduzo aqui com banzo das nossas antigas conversas nonsense enquanto assaltávamos o mundo com poesia em plena quarta-feira. saravá-evohé, leo!

TEMPO VIVO
por Leonardo Costa Braga

O Walter Firmo me pediu que escrevesse sobre a ilusão do meu olhar (falou isso como se estivesse me fotografando). Então confirmo o que ele viu, no ato e na palavra: photo-grafien (luz-escrita). Por isso, a criança e sua luz acusando a vida no corpo, alegria da célula dançando, explosão que nem a bomba de Hiroxima conseguiu apagar. Por isso, o velho e sua luz de dentro, seiva tão bela de tristezas que faz a árvore crescer, a delicadeza da compaixão de ainda estar junto de alguém. Por isso, a mãe que dá à luz, manuscrita do grito de amor que repercute na escravidão do universo. Sendo assim, fica muito difícil photo-grafar o adulto. Não está acordado nem dormindo, parece que está sonhando, como nos filmes do Kurosawa. Mas tento tirar uma photo, que geralmente vira um xerox. Uma cópia da realidade. Uma falsificação. Não brilha. E a photo-grafien, ao contrário do que se diz, não é uma imagem estática, é a certeza de que o tempo está sempre vivo, te olhando e esperando ser olhado. Com isso, lembro quando tinha 7 anos de idade, correndo na casa da minha tia e parando em frente a uma grande photo-grafien na parede: uma cadeira de balanço, um velho negro sentado, um saxofone, uma árvore. Um instante depois: um velho negro chorrindo baixinho e uma árvore deixando cair sua primeira semente no meio da sala onde me encontrava. A luz. A escrita. Minha ilusão.

notas para uma genealogia

Junho 02, 2008 por: leo gonçalves assuntos: américa latina, antropofagia, vida deixe seu comentário →

nunca fui muito chegado a árvores genealógicas. trabalhei vários anos em livrarias. do lado de trás do balcão, ouvi muita gente maluca dizer que estava recompondo a lista de seus ancestrais. lembro-me de uma senhora que procurava um livro de heráldica. ela queria ter um modelo do brasão da família, que tinha suas orígens alem-mar e que teria chegado dos portos portugueses em grandes caravelas. não me lembro bem o sobrenome, deve ser algo como “silva” ou “andrade”, sei lá. eu olhava a tudo com um suspeitoso interesse e ela me perguntou: “você já fez a sua árvore genealógica?” ao que respndi: “não há muito o que procurar”. depois de saber que o meu sobrenome era “gonçalves” ela me disse a queima-roupa: “você certamente é de origem espanhola, com esses traços árabes… procure saber”.

sempre me pareceu, então, que as pessoas interessadas nesse tipo de genealogia estavam mesmo é procurando um jeito de levantar a auto-estima, adivinhando supostos ancestrais ilustres que corroborassem a existência moral dos que aqui estão. e, é claro, para que isso acontecesse, o antepassado deveria forçosamente vir da europa ou quando muito um árabe ou um judeu. indígenas não. nem africanos, que só servem pra sujar o sangue da família. ou seja: o que eu iria procurar?

mas recentemente, motivado por minhas leituras em torno a questões étnico-raciais (e especialmente o livro A utopia brasileira e os movimentos negros, de Antônio Risério), resolvi escarafunchar. o objetivo é tentar chegar o mais perto possível do que teria sido a minha origem biológica. filhos de quais povos teriam se unido para chegar até isso que sou? de qual a lenda? comecei a pesquisa de modo simples: entrevistando meus pais. em seguida, pretendo entrevistar outras pessoas da família e depois ir às cidades onde nasceram alguns dos nossos antepassados em busca de documentos, matrículas, registros de nascimentos e de aquisição de escravos, notícias de imprensa, coisas que apontem para alguma informação mais clara.

(more…)

aviso aos nautas

Maio 15, 2008 por: leo gonçalves assuntos: vida deixe seu comentário →

há poucos dias, escrevi aqui um texto chamado polemizar ou não polemizar. disse o que pensava, mas de repente, começo a receber certos comentários que me deixam com o pé atrás. como eu disse aquele dia: as pessoas confundem muito. por isso, quero deixar claro que:

1. não sou um pregador de verdades. tenho minhas opiniões. dou importância a algumas delas. não todas. gosto de me afirmar e assumir aquilo que faço. ficar em cima do muro não é a minha praia. mas fique claro que aqui não tem nenhuma verdade à venda.

2. embora a discussão tenha tido o seu começo no blogue da letícia féres, isso não quer dizer que discordo dela. pelo contrário. letícia é uma das pessoas mais criativas e ativas da minha geração, além de uma grande parceira. admiro muito a poesia dela, o humor que ela tem e a paixão com que propõe as coisas que faz. o texto “poesia e mercadoria“, me pôs para pensar. reconheci entre as frases dela, algo que eu tinha escrito aqui no salamalandro. respeito o que faço. achei que era um ato de lealdade, poder escrever o que penso ao meu bel prazer.

3. acredito na força transmutadora de algumas polêmicas. se bem que, na verdade, pensar que o meu prolixo texto causaria alguma polêmica me pareceu quase uma piada, pois não falo nada de polêmico ali. mas eu sei que as coisas não são tão pacíficas assim. propor um diálogo com os escritos dela é para mim uma forma de dar continuidade a uma conversa inteligente. por isso, peço aos comentaristas que não abaixem o nível da conversa com vulgaridades e ataques pessoais.

4. já que é pra citar leminski:

a quem me queima
e queimando reina, valha essa teima:
um dia melhor me queira

navegar é precioso

Maio 14, 2008 por: leo gonçalves assuntos: mercado editorial, vida, voz apenas 1 comentário →

esteve bom ontem o saravá de celebração dos 120 anos da abolição. um passeio pelo mar de castro alves através das execuções vocálico-sonoras de ricardo aleixo, gabriela pilati, waldemar euzébio, gil amâncio, tatu e gabriela guerra, benedikt wiertz e minha, em homenagem ao poeta aimé césaire, com os poemas “palavra-macumba” e uma seleção de fragmentos do “caderno de retorno à terra natal”.

o evento correu por conta, como eu já disse anteriormente, do lançamento da belíssima edição tipográfica do poema de castro alves, aproveitando o ensejo da data. a concepção do projeto é de flávio vignoli e laura bastos, e já publicou em versão anterior o poema “tabacaria” de fernando pessoa. estava presente também um personagem interessantíssimo: o tipógrafo ademir matias, artesão de uma técnica em extinção. gostaria de reproduzir aqui a edição. mas acho que jamais teria aquele saborzinho que dá, ao folheá-la: um verdadeiro elogio aos cinco sentidos.

mcluhan

Abril 30, 2008 por: leo gonçalves assuntos: vida deixe seu comentário →

confusões inumeráveis e um profundo sentimento de desespero emergem invariavelmente nos períodos de grandes transições tecnológicas e culturais. a nossa “idade da angústia” é, em grande parte, o resultado de se tentar cumprir as tarefas de hoje com as ferramentas de ontem - com os conceitos de ontem.

marshall mcluhan. os meios são as massa-gens (um inventário de efeitos). rj: record, 1969

povo se despede de aimé césaire na martinica

Abril 22, 2008 por: leo gonçalves assuntos: aimé césaire, américa latina, antropofagia, literatura, negritude, política, vida deixe seu comentário →

segue abaixo, uma das poucas notícias da morte de césaire em língua portuguesa. na chamada, não encontrei o nome do jornalista que a escreveu. em todo caso, parece ser uma tradução de letra a letra de um texto que saiu, se não me engano na rfi (radio france internationale).

FORT-DE-FRANCE (AFP) — Uma multidão compareceu neste sábado ao velório do poeta Aimé Césaire na Martinica, no estádio de Dillon, em Fort-de-France, onde no domingo serão realizadas as homenagens nacionais.

O caixão percorreu a cidade na sexta-feira, sob aplausos de milhares de pessoas que acompanharam o cortejo fúnebre para dar o último adeus ao pai do movimento “negritude” e principal figura política da ilha durante mais de meio século. Césaire faleceu na quinta-feira, aos 94 anos.

O presidente francês Nicolas Sarkozy irá à Martinica para assistir à cerimônia de enterro do escritor, poeta, autor teatral, ensaísta e homem político de esquerda.

Sarkozy saudou Aimé Césaire como um “símbolo de esperança para os povos oprimidos”.

O velório popular continuará até domingo, quando o poeta será sepultado com honras de Estado, privilégio concedido até hoje na França apenas aos escritores Victor Hugo, Paul Valéry, em 1945, e Colette, em 1954.

meu comentário fica por conta do silêncio brasileiro em torno a este acontecimento, tendo em vista ter sido este um dos personagens decisivos do século xx, não apenas por sua atuação como poeta e ensaísta, mas também como político e como rebelde. o poeta, que foi saudado por andré breton e por jean-paul sartre, morreu como um dos homens mais ilustres e influentes do planeta, um personagem tão importante quanto um nelson mandela da vida.

a existência dele no mundo nos fazia lembrar que a poesia pode, sim, ser instrumento de transformação. e que um poeta vivo mantém viva com ele a memória de tempos imemoriais. tempos que antecedem não só a idéia de mercadoria, dinheiro e exploração do homem pelo homem. tempos que antecedem a própria idéia de poesia.

leia também o comentário de marcelo coelho (da folha de são paulo) e sua tradução do poema “soleil serpent“. [ aqui ]