
A cantora portuguesa Susana Travassos é uma produtora de façanhas. Seu primeiro cd “Oi Elis”, gravado em 2008 em Portugal, traz 8 canções que haviam sido eternizadas na voz de Elis Regina. Território perigoso. Mas ao contrário do esperado, as músicas ganharam uma roupagem totalmente particular, frutos das vivências da artista. Desde a escolha dos temas à técnica vocal, tudo no disco soa pessoal, vivo, português.
É verdade que no Brasil, muita gente foi educada de maneira a não gostar do sotaque luso. Mas eu duvido que alguém capaz de abandonar preconceitos culturais vá passar batido por canções como “Canção do sal”, de Milton Nascimento (que remete logo à região de Algarve e suas salinas), “Mucuripe”, de Raimundo Fagner e Belchior ou “Arrastão”. Canções profundamente brasileiras que recebem o mar português como ritmo, pulsação. Isso sem falar nas interpretações de “Carinhoso” (isso mesmo: a do velho Pixinguinha), “Formosa” (de Baden Powell e Vinicius de Moraes) e “O que tinha de ser” (a canção de Tom Jobim, trazendo um surpreendente acordeom). Uma deliciosa obra de mestiçagem cultural.
O lançamento deste disco se deu no Festival Med, na cidade mediterrânea de Loulé, em junho de 2008. Logo mais, na Womex, em Sevilha acabou por ampliar os horizontes da cantora. E foi assim que a vimos chegar ao Brasil (a convite de Makely Ka) em princípios de 2009. Susana, irrequieta, estabeleceu contatos, parcerias. Inaugurou o seu novo concerto “Janela Lusa”, acompanhada de Luís Felipe Gama, no qual participam diversos músicos brasileiros. Além disto, vem cantando ao lado de músicos como Vítor Santana, Janaína Moreno, Chico Saraiva, Marcelo Preto, Pablo Souza, Juliana Perdigão, Kristoff Silva, Mateus Bahiense, Marina Bueno, Zeca Baleiro, Mafalda Minozzi Fortuna, Mariana Nunes, André Abujamra. A lista é imensa para quem chegou há menos de um ano.
Não parou por aí: de volta a Portugal, abriu espaço também para artistas daqui. Considero o intercâmbio cultural aberto por Susana, nas duas direções, de uma importância maior do que a que têm realizado muitas ações governamentais (vide reforma ortográfica).
Enquanto no Brasil, racistas anti-racistas e racialistas se debatem em desentendimentos sobre aceitar ou não o fato de que somos um povo mestiço e não apenas negro ou apenas branco ou índio, uma cantora chega despretensiosamente para fazer a velha operação inaugurada por nossos ancestrais, agora com todo o respeito, reatando pacificamente os nós: misturar para melhorar. Ou como dizia o taumaturgo: misturai-vos uns aos outros.
Para ouvi-la, é no myspace