Gérard de Nerval

Eu estava aqui lendo um texto do Claudio Willer na Revista Agulha n° 63 sobre um dos poetas de que mais gosto. Um cara estranho, escuro, gnóstico, desdichado, deserdado, simbolista avant la lettre, que foi considerado louco duas vezes enquanto ainda era lúcido e que suicidou aos 46 anos. O texto do Willer se chama “Gérard de Nerval aos 200 anos“. Eu estava aqui me deliciando com ensaio e me deu uma puta vontade de dar a minha versão brasileira para o poema El desdichado, livre e interessado em ouvir pitacos a fim de melhorá-la. É um poema bem hermético. Mas quem quiser esclarecer alguns pontos, palavras como Posilipo, Lusignam, Febo, Biron, e sol negro, sugiro que dê uma lida no artigo do Willer.

El Desdichado

Eu Sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,
O Duque de Aquitânia em sua abolida Torre:
Morreu minha Estrela – e meu lude constelado
Traz o Sol negro, onde a Melancolia acorre.

Na noite Tumular, Tu que me hás consolado
Dá-me o Posílipo e o mar que na Itália corre,
A flor que tanto apraz meu peito desolado,
E a parreira de onde Pâmpano e Rosa escorrem.

Serei Amor ou Febo?… Lusignam ou Biron ?
Tenho a testa ainda rubra do beijo da Rainha;
Sonhei na Gruta onde minha Sereia brinca…

Duas vezes vencedor atravessei o Aqueronte
Modulando aos bocados na lira de Orpheu
Os suspiros da Santa e os ais que a Fada deu.

Je suis le Ténébreux, – le Veuf, – l’Inconsolé,/Le Prince d’Aquitaine à la Tour abolie :/Ma seule Étoile est morte, – et mon luth constellé/Porte le Soleil noir de la Mélancolie.//Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m’as consolé,/Rends-moi le Pausilippe et la mer d’Italie,/La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,/Et la treille où le Pampre à la Rose s’allie.//Suis-je Amour ou Phoebus ?… Lusignam ou Biron ?/Mon front est rouge encor du baiser de la Reine ;/J’ai rêvé dans la Grotte où nage la Sirène…//Et j’ai deux fois vainqueur traversé l’Achéron :/Modulant tour à tour sur la lyre d’Orphée/Les soupirs de la Sainte et les cris de la Fée.

2 comentários sobre “Gérard de Nerval

  1. Boa tradução – conquanto traduzir poesia seja sempre um desafio maiúsculo. Gostei particularmente da solução encontrada para o último verso: os gritos da fada, ao serem vertidos como “ais”, acentuaram o contraste entre o sacro e o profano desejado pelo poeta, evocando os gemidos do orgasmo.

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