Lacuna que Alécio deixa

Alécio Cunha. foto: Marcelo Prates

No dia 16 de janeiro deste ano, em meio aos preparativos para o lançamento do WTC BABEL S. A., recebi o telefonema de Alécio Cunha: “Leo, você pode estar aqui no jornal em 30 minutos para uma entrevista?” Obviamente eu não podia. Cheguei duas horas depois. Encontrei o Alécio sorridente como sempre, mas preocupado porque queria muito publicar algo sobre o meu poema. Me fez uma entrevista inteligente e que me pôs para pensar. No outro dia, saiu um artigo esperto no qual se via claramente que havia sido feito às pressas. Alécio havia dado um jeito de fazer caber o texto na pauta do dia seguinte e teve que fazê-lo com agilidade. Sempre foi assim. Eu o via sempre correndo, às vezes até com a fala apressada. Escolheu entregar seu tempo ao jornal, independentemente da sua saúde. Certamente porque o fazia com muita paixão.

Conheci o Alécio Cunha em 1998, quando eu trabalhava na Livraria da Travessa. Costumava ir lá aos sábados quando gastávamos horas de conversa sobre literatura e poesia. Procurava manter-se em dia com o mercado editorial da área, conhecia os principais autores contemporâneos e foi quem me apresentou, entre as muitas coisas, a Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française, numa época que eu nem sabia quem era Léopold Sédar Senghor. Eu, em troca, lhe apresentei as traduções que fazia do então inédito no Brasil Juan Gelman.

Alécio sempre tratou com muito entusiasmo dos meus trabalhos. Escreveu sobre todos eles. Desde A rainha da cocada preta. Em 2002 fez uma imponente entrevista comigo, por ocasião do lançamento da primeira edição d’O doente imaginário. Procurou fazer o mesmo quando do lançamento do livro Isso e do meu das infimidades. Seu texto sobre Canções da Inocência e da Experiência começa inusitadamente com lágrimas, um ato de coragem para um jornalista.

Além de repórter, Alécio era um poeta confiante no poder da linguagem. Despreocupado quanto ao seu próprio reconhecimento enquanto escritor e atento às pequenas coisas que existem por detrás daquelas que nos comovem profundamente. Acreditava, como eu, que poeta bom é poeta vivo. Era jovem e jovial, tinha apenas 40 anos e havia publicado poucos livros, embora tenha escrito bastante e contribuído muito para a literatura brasileira, tirando da obscuridade não apenas poetas contemporâneos, mas também grandes mestres esquecidos (basta lembrar o caso de Lúcio Cardoso).

A notícia de sua morte no último sábado me deixou muito triste. Soube que havia sofrido um aneurisma em outubro e que estava em coma. Eu esperava que ele melhorasse, que fosse sobreviver a isso. Mas as coisas não são como queremos. Alécio Cunha fará muita falta por aqui.

2 comentários sobre “Lacuna que Alécio deixa

  1. Cara,
    que pena!
    Apesar de não ter contato (a não ser pelos textos),
    mantinha grande simpatia por ele.
    Abraços!
    Kleber

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