Langston Hughes e o prazer

Langston Hughes, talvez conhecido com a principal voz do Harlem, é ainda um assunto pouco visitado no Brasil. Um artista repleto de ritmos de blues, de jazz, de negro spirituals, Langston viajou muito jovem pelo mundo afora, trabalhando como marinheiro em navios, copeiro, garçom e cozinheiro nas casas de jazz em Paris, porteiro de boate em Marselha. Uma vida divertida e, ao mesmo tempo, de luta, de lutas.

Seu lado mais atrativo e conhecido é, com certeza, o do poeta engajado. Poemas como “The Negro speaks of the rivers”, “I, too” e “Negro”, que soam adoravelmente como defesa da solidariedade entre pessoas negras, acabam ganhando mais espaço no momento em que estamos vivendo. Mas, como dizia o poeta marfinense Bernard Dadié: “o branco é uma cor de circunstância, o negro é a cor de todos os dias”. Não é preciso estar falando literalmente de um tema o tempo todo para se ser o que se é. Especialmente quando falamos de alguém que as 23 aos já tinha tanta coisa para contar.

Assim é que trago aqui dois dos muitos poemas dele que celebram, o prazer, a alegria e a noite. Um pouco do jazz. Um pouco do testemunho de uma era em que a luz elétrica começava a se popularizar, os carros iam se transformando numa realidade cotidiana. O tempo do prazer, enfim.

Dedico essas traduções ao meu amigo Guellwaar Adun, poeta baiano, das raras pessoas com quem posso conversar vez por outra sobre o gigantismo deste poeta nascido em Joplin, no Missouri, e que é uma das melhores vozes da poesia estadunidense no século XX.


*

PORTO DA CIDADE

Olá, marinheiro,
que vem do mar!
Olá, meu marujo,
Chega pra cá!

Chega mais, tem conhaque.
Também tem vinho, meu amigo.
Chega aqui que eu te amo.
Seja meu, vem comigo.

Luzes, marinheiro,
Calor, luz alva.
Terra firme, moço.
Noite branca, brava.

Se achegue, marujo,
Saia do mar.
Pra gente junto
Se inebriar.


*
PORT TOWN

Hello, sailor boy,
In from the sea!
Hello, sailor,
Come with me!

Come on drink cognac.
Rather have wine?
Come here, I love you.
Come and be mine.

Lights, sailor boy,
Warm, white lights.
Solid land, kid.
Wild, white nights.

Come on, sailor,
Out o’the sea.
Let’s go, sweetie!
Come with me.


AVENIDA LENOX: MEIA-NOITE

O ritmo da vida
É um ritmo de jazz,
Doçura.
Os deuses estão rindo de nós.

O coração partido do amor,
O enfarado coração da mágoa,–
Notas altas,
Notas baixas,
Zoada dos carros na rua,
Cicio do chiado da chuva.

Avenida Lenox,
Doçura.
Meia noite,
E os deuses estão rindo de nós.

*

LENOX AVENUE: MIDNIGHT

The rhythm of life
Is a jazz rhythm,
Honey.
The gods are laughing at us.

The broken heart of love,
The weary, weary heart of pain,—
Overtones,
Undertones,
To the rumble of street cars,
To the swish of rain.

Lenox Avenue,
Honey.
Midnight,
And the gods are laughing at us.

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