marçal aquino

dia desses, passando por uma livraria, me dei com o seguinte título: “eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”. achei o título instigante. mostrei para a patrícia e ela também gostou. o autor é marçal aquino, escritor já conhecido na cena literária do brasil por seus romances que flertam com certa marginalidade e urbanidade extremamente atuais. aquino também é roteirista e o seu trabalho mais recente, o filme “o cheiro do ralo” mereceu de minha parte uma grande admiração.foi por isso que convidei patrícia para irmos assistir essa semana a um bate-papo com ele. na hora da listagem dos livros, não foi sem surpresa que descobri ser ele o autor de um dos poucos livros que li quando criança e que não me esqueci: “os meninos da rua quinze” (não me lembrava era do nome do autor). me senti consubstanciado.

“fico instigado com esse jogo de, através de algumas palavras, faladas ou escritas, você disparar a imaginação de alguém”, ele disse.

no meio das duas horas de conversa, ouvi ele dizer diversas vezes que se considera um autor realista. isso me deixou curioso. decidi que lhe perguntaria o que ele chama de realidade. me preparei, anunciei à moça do microfone que queria falar e eu seria então o quarto da fila.

nesse meio tempo, começou um longo assunto sobre seus roteiros. segundo ele, o que o fez começar a escrever seu livro “o invasor” (que virou roteiro antes de virar romance), foi uma conversa que teve com um empresário que dizia não ter nada a ver com a violência brasileira: não vê bandidos, seus filhos vão à escola em carros blindados, vivem todos numa casa linda e tranquila… “tem gente que pensa que pode viver fora da realidade”, aquino falou. disso nasceu seu texto.

e eu, no final das contas, acabei por não fazer a pergunta que eu queria. perdi a vontade. as perguntas e as respostas se prolongavam demais e achei que àquelas alturas já não fazia mais sentido. mas passado o tempo, continuo com a dúvida. aquino se diz um escritor realista. mas o que será que podemos chamar “realidade”? será o que se passa em suas ficções? será o que se passa na vida e que o inspira a escrever seus romances? eu penso que todos podem se perder em discursos intelectualizantes e pseudo-filosóficos.

o que eu quero é somente aprender a lidar com essa massa que o ser humano inventou e que fez salvador dalí dizer: “um dia se verá que o que chamamos de real é mais assustador do que o sonho”.

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