nei lopes

fui ontem assistir à festa de encerramento da 1ª maratona do samba em belo horizonte, invenção de miguel dos anjos, um bamba bacana de minas gerais. para fechar a festa, ninguém menos que nei lopes. chego ao bar cartola às 22h e vejo uma fila imensa na porta. sinal de que lá dentro estava lotado. à medida que saíam pessoas, a fila andava. eu, que sou avesso a filas, já comecei logo a duvidar se teria paciência de permanecer ali até ver o que acontecia. não achava que as pessoas iriam querer ir embora antes da chegada da atração principal. mas pouco a pouco fui vendo que estava havendo um grande entra e sai.

entrei, na companhia de bons amigos. o local estava realmente lotado. o bom e velho samba anunciava a entrada do mestre nei. mas qual não foi a minha surpresa ao ver que ali dentro pouca gente sabia quem era nei lopes. “ponto para o miguel”, pensei. acho que se estava tão cheio e pessoas disputavam para entrar no bar, era por causa dos feitos de são miguelângelo. mas mesmo assim, que surpresa descobrir que as pessoas viam nei lopes cantando seus clássicos sem saber que era ele o autor daquela belezura toda. e o povo cantava com ele.

cantou “gostoso veneno” (aquele samba que a alcione gravou e ninguém esqueceu) e a galera foi junto. depois, veio “goiabada cascão” (que já até deu nome de casa noturna em bh). em seguida, “senhora liberdade”, e o povo emocionado cantava “abre as asas sobre mim/ó senhora liberdade”. e o batuque não parava.

sabe aquele samba bonito que a clara nunes gravou? aquele assim: “na tina/que vovó lavou (que vovó lavou)/a roupa que mamãe vestiu quando foi batizada/que mamãe quando era menina teve que passar (teve que passar)/muita fumaça e calor no ferro de engomar”. pois é. esse samba do nei lopes fez muita nega rebolar, ontem, sem que elas soubessem quem era aquele “mais velho” para quem todo bom bamba ali prestava reverência.

tem coisas por aqui que passam desapercebidas. alguns dos melhores e mais cantados poetas desse brasil, muita gente nem sabe que existe ou existiu. o problema é mais de quem não sabe. porque pra quem quer saber, está facil.

aliás, já falei por aqui algumas vezes: nei lopes é hoje um dos caras mais ativos e criativos nas pesquisas das nossas raízes africanas. ele é o autor do dicionário brasileiro de banto. um trabalho consistente que denuncia um fato curioso: nosso linguajar brasileiro é irrevogavelmente africanizado, de cabo a rabo, em todas as camadas sociais. nesse dicionário se descobre que os negros banto nos deixaram palavras impossíveis de serem substituídas por seus sinônimos, como “caçula”, “cochilo”, “muamba”, “bunda”, “dengo”. boa parte das etimologias elencadas ali foi, inclusive, aceita pelo melhor dicionarista brasileiro, o antônio houaiss.

além disso, procure por aí e verá inúmeros outros livros escritos por esse autor (não, não é um homônimo, é o próprio mulato multiativo). um dos que mais gosto se chama bantos, malês e identidade negra, recém publicado pela editora autêntica.

ou seja, ontem eu fui ver o show de uma das mais sábias cabeças vivas desse país continental e desorientado.

quem quiser conhecê-lo de perto, está fácil. ele está lá no lote dele, dando seus pitacos: www.neilopes.blogger.com.br

ele também está na fina flor: www.finaflor.art.br

e no oráculo (em toda parte).

Um comentário sobre “nei lopes

  1. Bacana, Meu Cumpádi! E o importante não é que saibam “quem eu sou”; e, sim, que a minha música e minhas idéias estão aí, sacudindo as cadeiras e as cabeças dessa moçada bonita! Agradeçamos ao Miguel dos Anjos e ao Zu (com sua elegantíssima esposa Carol), nossos anfitriões.
    Abraços a todos.

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