Pretices & Milongas: Lande Onawale em BH

*Leo Gonçalves

Uma tarde em Salvador, no ano de 2006, alguém me levava para conhecer um certo Du, poeta e conselheiro editorial da Pallas. Eu era novato no mundo das publicações e mergulhava, naquele momento, nas águas da cultura negra: língua iorubá, candomblé de angola, literaturas africanas, poesia caribenha, capoeira, filosofia antilhana, muitas dessas coisas que já me habitavam de algum modo, de repente se derramaram sobre mim para além do que eu poderia prever. E nós estávamos em Salvador!. Entramos num ônibus e fomos parar na Praça Campo Grande. Lá, nos esperava Lande Onawale. E eu nem sabia que ele era o autor dos versos ao final desta matéria, que abriram um dos números do MNU Jornal.

Reaja à violência racial:
“Beije sua preta
em praça pública”

Lande Onawale

Ori era o codinome adotado neste que foi, segundo ele, seu primeiro poema publicado.

O encontro que tivemos, em dezembro de 2006, marcou para sempre a cabeça deste poeta que vos fala. Ali, intercambiamos estratégias de linguagem, ritmos, teorias, nomes de autores, indicações de trabalhos. Falamos da poesia de Léopold Sédar Senghor e foi ali que mostrei, em primeiríssima mão, o meu “Canto para Matamba”. Mas não falemos mais de mim. A alegria deste janeiro é que ele estará em BH para apresentar seu novo livro Pretices & Milongas, que traz o poema-cartaz entre suas páginas.

Pretices & Milongas segue a linha irônico sacana do poeta baiano. De linguajar curto e direto, ele evoca as contradições de tudo o que circundam a posição da pessoa negra no Brasil patriarcal e racista. São poemas insubmissos, repletos de ginga, fio e desafio:

não importa o tempo de afiar a lâmina

o que conta

é que ela cumpra o seu papel

Lande Onawale

Sua insubmissão passa por evocar o modo de ser do negro como potência, o que fica visível nas ladainhas, que ele emula como forma poética. São cânticos de ataque tomados de oralidade e ritmo. Mas tudo é insubmisso com Lande. O amor. O rio. A língua estrangeira. A família. O corpo, enfim.

Sempre que pode, Lande canta para os orixás. Reconecta, assim, sua palavra afiada com a delicadeza transcendente dos deuses e suas ferramentas. Sim, porque visitar o Orum via poesia também é uma forma de insubmissão.

território é o que carrego em mim

e me transporta

para onde eu vim

Lande Onawale

O mais importante da beleza negra da poesia de Lande é que ela não é a manifestação de um grito engasgado. Lande escancara seu grito há pelo menos três décadas, sob a forma de poesia sucinta, viva, cantada. O grito pode ser, assim, cantiga de amor, dengo, ginga e mandinga, roda.

Na capoeira tem um golpe bastante conhecido, no qual o jogador ergue um dos pés para atingir o oponente com a sola inteira, a palma dos pés. A depender da força (a capoeira é dança e luta), o oponente pode voar e cair de costas. Esse golpe se chama Bênção.

A poesia de Lande Onawale é uma Bênção.

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