Canções da Inocência e da Experiência

Autor: William Blake
Tradução e prefácio: Leonardo Gonçalves e Mário Alves Coutinho
Editora: Crisálida
Ano: 2005
Formato: 14 x 21cm
ISBN: 85-87961-17-9

Indicações de livros são sempre coisa arriscada; a rigor, só deveriam ser feitas a amigos próximos, a pessoas cujos interesses conhecemos bem. Mas quem atualmente se decepciona com o governo, quem já está decepcionado há tempo e quem nunca teve ilusão nenhuma a esse propósito talvez tire proveito de um pequeno e clássico livro de poemas de William Blake (1757-1827) que, pela primeira vez, é traduzido na íntegra para o português.

Trata-se de “Canções da Inocência e da Experiência”, livro lançado neste ano pela editora Crisálida, de Belo Horizonte, com tradução de Mário Alves Coutinho e Leonardo Gonçalves.

(…)

Marcelo Coelho
Folha de S. Paulo, 22 de junho de 2005

traduzimos este livro especialmente para a editora crisálida, que, na pessoa de oséias silas ferraz, nos havia “encomendado” uma seleção de poemas de william blake. tornou-se um dos livros mais bonitos e mais vendidos da editora. não é pra menos. a passagem de blake pelo planeta foi algo mágico e uma reconfiguração do sentido da palavra poesia. em vida, não possuía a influência que possuía um goethe, um wordsworth ou um coleridge, mas com o passar do tempo, a modernidade deste artista se fez cada vez mais evidente e vem sendo lido pelos mais variados tipos de gente. é o que tento mostrar no artigo “William Blake Hoje”, que publiquei no caderno pensar de 26 de fevereiro de 2006 e que foi reproduzido lindamente na revista etcetera: www.revistaetcetera.com.br

Ilustrada
São Paulo, sábado, 12 de março de 2005

Lançada no Brasil “Canções da Inocência e da Experiência”, famosa obra do inglês
Edição bilíngüe traz canções do visionário William Blake

RODRIGO GARCIA LOPES
ESPECIAL PARA A FOLHA

Figura inclassificável da literatura mundial, o poeta, gravador, pintor e impressor inglês William Blake (1757-1827) tem pela primeira vez publicada no Brasil uma edição integral de um de seus livros mais famosos, “Canções da Inocência e da Experiência”. O volume traz poemas clássicos do bardo visionário, como “O Limpador de Chaminés”, “Uma Planta Venenosa”, “Londres”, “Ah, Girassol”, “A Rosa Doente” e, claro, “O Tigre”, seu poema mais conhecido.

Editar a poesia de Blake oferece, de cara, um problema. O ideal seria publicar as canções como foram concebidas pelo artista: como iluminuras, onde o texto, o desenho e a pintura mantêm íntimas relações entre si. Mas isso não diminui a importância desta publicação.
Escrito num tempo em que o autor testemunhava, atordoado, pelo menos três grandes revoluções -a industrial, a francesa e a americana- as canções de “inocência” formam uma imagem complementar com as canções de “experiência”. E preparam o terreno para as grandes experiências de sua obra mais polêmica, escrita posteriormente.

As primeiras cantigas são escritas em linguagem “ingênua”, ao modo dos hinos de igreja e das “nursery rhymes”, baseadas na repetição, na espontaneidade e no vocabulário simples, características recuperadas na tradução. Blake, no entanto, já rompe com as convenções do gênero das cantigas de criança. Como lembra Maria Esther Maciel na introdução: “O ingênuo, nesse caso, tem função subversiva: desafiar as exigências da racionalidade imperante, fazendo emergir uma infantilidade desconcertante em um lugar e um contexto em que ela já não é esperada”. O poeta usava de ritmos e de toda uma convenção de poesia infantil para lançar as bases de sua crítica corrosiva -social e, sim, política- que atingirá sua força máxima nos poemas proféticos da última fase. Um ataque veemente ao trabalho escravo infantil, por exemplo, ocorre nas duas versões de “O Limpador de Chaminés”. Na primeira estrofe, o narrador mirim denuncia: “Quando mamãe morreu eu era bem moleque, / E ao vender-me meu pai, minha língua a custo é que / gritava “arre “arre “arre “arre-dor: / Durmo em fuligem, das chaminés sou varredor”. Já servindo de contraponto “adulto”, as canções da experiência, em linguagem mais madura, denunciam o racismo, as injustiças sociais e a pobreza decorrentes do industrialismo.

Solenemente ignorado em seu tempo, tendo vivido e morrido na pobreza, fazendo seus próprios livros artesanalmente, Blake acreditava que a poesia tinha uma missão profética e visionária. Bem diferente do cinismo e materialismo contemporâneos, quando muitos escritores e críticos parecem não acreditar mais no poder transformador da palavra, Blake acreditava na real possibilidade de transformar o mundo através da poesia e da imaginação. E foi chamado de “louco”.
Em tempos em que a pose parece ser mais importante que a poesia, em que a “imaginação” é substituída pelo consumo, vale a pena reler o poeta para quem “energia era delícia eterna”, alguém que foi capaz de ver o infinito num grão de areia.

Rodrigo Garcia Lopes é autor de “Nômada” (Lamparina)
e “Mindscapes: Poemas de Laura Riding” (Iluminuras).

*

Canções da Inocência e da Experiência de William Blake [tradução, prefácio e notas de Mário Alves Coutinho e Leonardo Gonçalves]. Crisálida. Belo Horizonte. 2005.

por Claudio Willer

Desde o pioneiro Escritos de William Blake, preparado por Alberto Marsicano para a L&PM, apareceram outras edições brasileiras de sua obra. Mas ainda é pouco, diante da riqueza e complexidade desse poeta-profeta, messiânico, arcaico, e ao mesmo tempo atual, um precursor do Romantismo que passou a ser efetivamente lido a partir do Simbolismo. Por isso, é oportuna esta tradução dos seus Songs, ocasião para leitura ou releitura do Tigre e tantas outras de suas peças famosas.

Discípulo notório de Swedenborg e Jacob Boehme, Blake acrescentou-lhes um panteísmo e uma visão pagã de mundo. Para Elaine Pagels, em seu livro sobre evangelhos gnósticos, William Blake, observando esses retratos distintos de Jesus que aparecem no Novo Testamento, tomou o partido daquele que os gnósticos preferiam, no lugar da “visão de Cristo que vêem todos os homens”. Em apoio, cita trechos de The Everlasting Gospel, com sua relativização da percepção do Cristo: Ambos lemos a Bíblia noite e dia,/ Mas tu lês negro onde eu leio branco.

Mas Blake foi, mais que gnóstico, um criador de mitologias pessoais. Povoou o universo de divindades. Todas, é claro, alegorias. Demiurgos ou arcontes não faltam, em sua crítica à religião patriarcal. Um deles é Nobodaddy, o Pai-Ninguém, chamado de Pai do Ciúme que, silencioso e invisível, se esconde entre as nuvens, e cujas palavras e leis, interditando o fruto proibido, são escuridão e obscuridade. (cito da edição da The Oxford University Press dos poemas de Blake – tradução minha) Outro, Urizen, homófono de Your reason, You reason, ou Our reason. Em O Livro de Urizen, é o Demônio que engendrou a Eternidade descrita como Estranha, estéril, escura e execrável.

É como se O Livro de Urizen fosse uma combinação do Gênesis com o Apocalipse, na descrição dos embates do ensandecido Urizen com outros princípios criadores, o Eterno Profeta e Los, divindade primeira, derrotada, não antes de gerar Orc, o ser humano, de Enitharmon. Urizen por sua vez engendra contínuas aberrações: Thirel, Utha, Godna, Fuzon. Do pranto de Urizen nasce uma rede de lágrimas, a Rede da Religião, que por sua vez gera o esquecimento, a separação entre a esfera humana e divina. A visão de mundo desse poema é terrível: a vida transcorre sob a égide da morte:/ O Boi geme no matadouro/ O cão no frio umbral. (O Livro de Urizen foi traduzido por Alberto Marsicano em Escritos de William Blake, L&PM). Há mais personagens equivalentes aos arcontes do gnosticismo. Por exemplo, em Milton: Tudo tem seu Guardião, cada Momento, Minuto, Hora, Dia, Mês & Ano. […] Os Guardiões são Anjos da Providência em perpétua Vigília. E, em uma proliferação apocalíptica, em The Book of Los e The Four Zoas, entre outros de seus livros.

Contudo, há um limite para a associação do gnosticismo pessimista a Blake; e esse limite é traçado por aquela parte da sua obra que o tornou um autor cultuado por místicos modernos, pelos beat e pela contracultura: O Casamento do Céu e do Inferno, as Canções da Inocência e Experiência e um de seus textos especificamente teológicos, All Religions are One. Nelas, proclama a alegria de viver. Expressa a crença em uma síntese – o casamento do céu e do inferno, a reconciliação de Deus e Satanás, da razão e do prazer – através da experiência poética. Declara expressamente o monismo ao afirmar a unidade de corpo e espírito: o Corpo ou Forma Exterior do Homem é derivado do Gênio Poético, em All Religions are One. Argumenta na direção contrária à negação gnóstica do corpo, nas passagens famosas de O Casamento do Céu e do Inferno: Energia é a única força vital e emana do Corpo. A Razão é a fronteira ou o perímetro circunférico da Energia./ Energia é a Eterna Delícia. Panteísta, em O Casamento do Céu e do Inferno celebrou o mundo como coisa sagrada, e não como criação equivocada de um demiurgo rancoroso. Adamita, proclamou a inocência original da Humanidade e, ainda, a regência do mundo e da própria religião pelo Gênio Poético, equivalente ao Espírito da Profecia e ao pneuma, à energia primeira.

Uma interpretação para essa aparente oscilação em Blake, de um gnosticismo pessimista para um panteísmo otimista, pode ser dada à luz do seu pensamento político. Nesta nova edição brasileira das Canções, seus tradutores e prefaciadores, Mário Alves Coutinho e Leonardo Gonçalves, acentuam essa dimensão política e sugerem o Blake repórter, pela crítica social expressa em poemas como aqueles sobre os meninos limpadores de chaminés, explorados por seus empregadores: Ingênuo, místico, romântico (Blake é tido como um dos precursores do Romantismo): não seria mais apropriado dizer que Blake era um observador (talvez um repórter) extremamente realista, testemunhando e anotando as conseqüências e práticas da revolução industrial? Não seria ele, ao contrário de um louco, um narrador extremamente confiável dos horrores da implantação do capitalismo no primeiro país capitalista, a Inglaterra?

Por isso, afirmam, Blake …realizou poesia de altíssimo nível, mas foi também um magnífico repórter e historiador de sua importantíssima época histórica. Todas as mudanças, horrores e belezas estão lá registradas. […] Além do mais, Blake foi um ardente republicano, apoiando as revoluções francesa e americana (foi processado por seus “escritos sediciosos”, mas não chegou a ser penalizado devido a eles): na verdade, seu comportamento era anarquista e revolucionário, e confrontou em quase todos os momentos e quase todas as circunstâncias o crescente império inglês, como mostra David E. Erdman em Blake, Prophet Against Empire.

Ainda observam que… Seus escritos [de Blake] são anteriores a qualquer ideologia surgida na modernidade (anarquismo, socialismo, comunismo), seus livros proféticos têm muito a ver com aqueles deixados pelos profetas do Velho Testamento, que lutavam e esbravejavam contra a corrupção dos costumes do povo.

De fato, Blake precede, cronologicamente, até mesmo fundadores do socialismo utópico como Godwin e Fourier. Portanto, faltando-lhe um vocabulário propriamente político, de doutrinas que viram a ser formuladas ou que ainda estavam em preparação, utilizou categorias teológicas para fazer crítica social. Politizou liricamente o gnosticismo e o hermetismo, e os projetou na descrição da realidade que o cercava. Tomou emprestadas categorias e vocabulário dessas doutrinas, para descrever o mundo.

Por isso, foi simultaneamente arcaico, homem de seu tempo e inovador. Canções da Inocência e da Experiência é onde se encontram essas três dimensões. Pela qualidade da tradução e da edição, o leitor terá uma boa oportunidade para acompanhar o percurso desse repórter místico, e perceber o alcance e atualidade da sua rebeldia e aguda sensibilidade.

publicado originalmente na revista agulha #46

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