um livro inaugurador

“fique este dia e esta noite comigo e você vai possuir a origem de todos os poemas
vai possuir o que há de bom da terra e do sol….sobraram milhões de sóis,
nada de pegar coisas de segunda ou de terceira mão….nem de ver através dos olhos dos mortos….nem de se alimentar dos espectros nos livros,
e nada de olhar através dos meus olhos, nem de pegar coisas de mim,
você vai escutar todos os lados e filtrá-los a partir de seu eu.”

estas são palavras mágicas de um poeta que inaugurou a modernidade norte-americana (não apenas por causa do verso livre, como muita gente poderia superficialmente supor) em 1855, ou seja, 54 anos antes do movimento futurista italiano e 67 anos antes da semana de arte moderna de são paulo. o abalo que whitman provocou na literatura só se compara ao de rimbaud.

o livro em questão se chama: Folhas de Relva. meu amigo oséias silas ferraz, editor da crisálida, já há algum tempo me falava desta obra. ele chamava a atenção para o fato de que a obra de whitman é uma imensa constelação cujo ponto de partida é a edição de 1955, que trazia apenas 12 poemas. mas 12 poemas que dão melhor do que nenhum outro uma visão do verdadeiro poeta de paumanok [nome indígena de manhatan]. oséias já tinha até começado a realizar o seu projeto de traduzir esses poemas e eu mesmo já havia revisado o belíssimo “grandes são os mitos”, poema que fecha o récueil. mas eis que no princípio de 2005 temos notícia do monumental projeto da editora iluminuras. depois, conversando com o meu amigo (que confessou certa frustração), concordamos que não poderia ter havido melhor trabalho nem melhor tradutor.

trata-se de rodrigo garcia lopes (que já nos deu outras grandes maravilhas como a melhor tradução brasileira das Illuminations, de Jean-Arthur Rimabaud). por aqui, no país da batucada e da bundocracia, eu vi aparecer muito poucos trabalhos com esse fô(le)go e essa paixão. a tradução caprichosa e um ensaio-biografia tornam o livro uma obra-prima e um puta exemplo a ser seguido por quem escreve e traduz. rodrigo teve até o fôlego de traduzir (poucos tradutores brasileiros se animariam a isto) o prefácio-manifesto que precede a obra. um maravilhoso serviço, não só aos apaixonados por poesia, mas também para a própria obra de whitman. são 320 páginas elétricas que nos introduzem a um universo pouco conhecido por aqui (por increça que parível).

saravá rodrigo!

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