um poema

Orpheu fala


não. nossa falta
não foi olhar para trás:

burlamos o jogo
safamos num salto

fugidos do inferno
fugidos, enfim.

ninguém cogitou
vir atrás de nós

fugir pro vazio
faz bem às crianças?

os olhos se abriram
depois da grande fuga?

ouvimos ao relento
as vozes mortais

o mundo-ruído
favelas cidades diachos

eurídice, eu disse
a gente não quis?

rumo às estrelas?
morarmos com elas?

não. não foram as mênades
foi o sinal de menos –

nos olhamos desertos
à beira do rio

estarrecidos embevecidos
das horas do amor

e aqui restamos
oca pedra cantante

enquanto o vento a morte
a noite e a tempestade

não cessam de passar por nós.

*

(para a p.)

2 comentários sobre “um poema

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