um poema de joão cabral

a sevilhana que é de córdoba

essa sevilhana de fora
tem outra dimensão por dentro.
não é sevilhana, é cordobesa,
cidade de imóvel silêncio.

bem cordobês foi “lagartijo”
foram “guerrita” e “manolete”
que toureavam como sêneca,
cordobês, tinha o pensamento.

podia ser de santa marina
ou nascer na praça do potro,
em qualquer dos bairros de córdoba,
de atmosfera funda de poço.

não sei por onde nasceu sêneca,
em que bairro, em que quarteirão,
mas vi tourear “manolete”,
sua severa resignação.

a sevilhana que é de córdoba
dos toureiros não teve a lição,
mas aprendeu em sêneca mesmo
o rigor denso da expressão.

sevilha e córdoba: andaluzia
que se expressa por fora ou é dentro,
como a sevilhana de quem falo,
cujo andaluzismo eu me invento.

(do livro sevilha andando)

 

 

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